*Artigo de opinião por Fábio Sicília, chef, sommelier, chocolatier, membro da Academia Brasileira de Gastronomia, fundador e ex-presidente da Abrasel no Pará.
A discussão sobre a jornada de trabalho 5×2 representa uma conquista importante no debate sobre as relações de trabalho no Brasil. E que fique claro: sou favorável à ideia de que as pessoas tenham mais tempo para viver, conviver com suas famílias, estudar, descansar e aproveitar os momentos que realmente importam.
Aliás, por que não pensar até em uma jornada 4×3?
O problema não está em trabalhar menos. Está em uma pergunta que parece ter sido esquecida no meio da comemoração: o Brasil fez o dever de casa para aprender a produzir melhor?
E aqui começa a parte menos confortável dessa conversa.
Uma jornada menor pode ser perfeitamente viável quando acompanhada de produtividade, organização, conhecimento técnico e processos eficientes. Mas produtividade não nasce de um decreto, de uma negociação coletiva ou de uma mudança no calendário. Ela nasce de educação, treinamento, disciplina e método.
Vou usar como exemplo um universo que conheço bem: a cozinha profissional.
Na gastronomia existe uma expressão francesa chamada mise-en-place, que significa, essencialmente, colocar tudo em seu devido lugar antes de começar o trabalho.
Mas o conceito é muito mais profundo do que organizar ingredientes sobre uma bancada.
Um bom mise-en-place pressupõe aquilo que chamamos de trabalho limpo: economizar tempo, espaço, movimentos e até esforço mental. É a inteligência aplicada à execução.
Um profissional bem preparado não precisa atravessar a cozinha dez vezes para buscar aquilo que poderia ter organizado em uma única passagem. Não precisa procurar utensílios durante o pico do serviço, improvisar procedimentos a cada pedido ou transformar tarefas simples em operações complexas.
Ele sabe o que fazer, como fazer, quando fazer e, principalmente, como evitar o trabalho desnecessário.
Parece simples. E é. Mas exige formação.
Em uma operação de restaurante, uma jornada de seis horas pode concentrar aproximadamente duas a duas horas e meia de atividade em intensidade máxima, dependendo do modelo de negócio. O restante do período oferece oportunidades valiosas para preparação, organização, limpeza, abastecimento, manutenção e antecipação das demandas.
Ou seja, não estamos falando necessariamente de seis horas de esforço máximo contínuo. Estamos falando de uma operação que alterna preparação e execução.
E existe outro detalhe: nem todos os dias da semana apresentam a mesma demanda.
Quem administra restaurantes conhece bem a concentração de movimento em determinados dias e horários. É uma manifestação prática da lógica de Pareto: uma parcela relativamente pequena dos períodos pode concentrar uma parcela expressiva do faturamento.
Desafio da gestão inteligente
O desafio da gestão inteligente é justamente organizar pessoas, processos e escalas em função dessa realidade, respeitando os direitos trabalhistas e preservando a qualidade de vida das equipes.
Trabalhar melhor não significa trabalhar mais depressa o tempo inteiro. Significa desperdiçar menos esforço para alcançar resultados melhores.
E é justamente aqui que identifico uma das grandes contradições brasileiras.
Estamos discutindo a redução da jornada com referências legítimas a conquistas de países europeus, mas sem dar a mesma importância à formação técnica, à educação profissional e à cultura de produtividade que ajudam a sustentar essas conquistas.
Queremos importar o resultado sem necessariamente construir as condições que permitem alcançá-lo. É como desejar servir um jantar de alta gastronomia sem ter preparado os ingredientes. A intenção é maravilhosa. O serviço, provavelmente, será um desastre.
Não se trata de afirmar que o trabalhador brasileiro seja incapaz ou desinteressado. Muito pelo contrário. Trata-se de reconhecer que nosso sistema educacional e parte das estruturas de formação profissional ainda precisam avançar na preparação para o trabalho organizado, técnico e eficiente.
Disciplina operacional, limpeza, planejamento, padronização, responsabilidade e capacidade de execução não deveriam ser conhecimentos adquiridos apenas depois de anos de tentativa e erro dentro de uma empresa.
Deveriam fazer parte da formação básica para a vida e para o trabalho.
Na área de alimentação, por exemplo, ainda encontramos dificuldades com procedimentos aparentemente elementares, como a utilização correta de uma máquina industrial de lavar louças. E não estou falando simplesmente de colocar pratos dentro de um equipamento e apertar um botão.
Estou falando de compreender temperatura, dosagem de produtos químicos, organização das cargas, ciclos de lavagem, higiene, segurança e eficiência operacional.
Se uma atividade relativamente simples exige treinamento que frequentemente não foi recebido, imagine o desafio de construir operações inteiras com alto desempenho e equipes enxutas.
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É nesse ponto que surge uma armadilha econômica. Quando reduzimos a disponibilidade de horas de trabalho sem elevar proporcionalmente a produtividade, podemos acabar precisando de mais pessoas para realizar o mesmo volume de atividades.
Isso não é necessariamente ruim quando existe demanda, qualificação e capacidade econômica para sustentar novas contratações. O problema aparece quando o aumento dos custos não é acompanhado por ganhos equivalentes de eficiência.
Nesse cenário, a empresa enfrenta margens menores, o consumidor pode encontrar preços mais elevados e o próprio trabalhador corre o risco de continuar inserido em processos desorganizados, apenas distribuídos entre mais pessoas. Em outras palavras, podemos terminar pagando mais caro pela mesma ineficiência. E a ineficiência, convenhamos, já ocupa espaço demais na economia brasileira.
A experiência internacional oferece lições importantes, mas não existe uma fórmula universal. Há países, setores e empresas que conseguem operar com jornadas menores e excelentes resultados. Há também atividades nas quais a redução exige investimentos, reorganização e adaptações mais complexas.
Por isso, a discussão não deveria ser reduzida a uma disputa entre quem defende o trabalhador e quem defende o empresário. Essa oposição simplifica um problema que exige muito mais inteligência.
O verdadeiro debate deveria reunir qualidade de vida, educação, produtividade, tecnologia, gestão e sustentabilidade econômica.
Afinal, uma empresa produtiva pode oferecer melhores condições de trabalho, e um trabalhador bem preparado pode gerar mais valor sem precisar sacrificar sua vida pessoal. O ideal não é ter pessoas trabalhando exaustivamente. É ter pessoas suficientemente preparadas para que a exaustão deixe de ser confundida com produtividade.
Defendo jornadas mais inteligentes. Defendo descanso. Defendo tempo para a família, para a cultura, para o lazer e para a vida. Mas também defendo que o Brasil trate a formação profissional como uma prioridade nacional.
Porque não basta diminuir o número de horas no relógio se continuarmos desperdiçando tempo, movimento, recursos e oportunidades durante as horas trabalhadas.
Talvez a grande revolução brasileira não esteja apenas em trabalhar cinco dias e descansar dois, ou mesmo trabalhar quatro e descansar três. Talvez esteja em aprender a fazer, em quatro dias, aquilo que hoje frequentemente não conseguimos organizar adequadamente em seis.
E, para isso, precisamos começar pelo básico: educação, conhecimento, método, disciplina, limpeza e respeito pelo tempo. Porque trabalhar menos pode ser uma conquista social. Mas trabalhar melhor precisa ser uma conquista educacional, profissional e cultural.
E, enquanto não compreendermos essa diferença continuaremos tentando resolver com o calendário aquilo que deveríamos ter começado a resolver na escola.
**Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor.
