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A desgraça humana como entretenimento: por que realities shows baseados no trabalho de chefs fazem tanto sucesso

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Paulo Jelihovschi
Paulo Jelihovschi

Líder de Gente e Jornadas na Abrasel

1 hora atrás

Receita para fazer um ser humano médio: duas doses de baixa autoestima, uma dose de baixo senso crítico e uma pitada de incoerência. Tempere modicamente com amor e compaixão e misture tudo até formar uma massa uniforme. Leve ao forno até se tornar adulto (tenha paciência, pois pode levar por volta de 40 anos) e espere esfriar para servir. Quando vejo o sucesso que os realities shows baseados no trabalho de chefs fazem é nessa receita que penso. 

A fórmula já é consagrada: coloca-se uma série de chefs de cozinha para fazerem o seu trabalho de forma competitiva, sendo avaliados por outros chefs, mas famosos e/ou veteranos. Eles são submetidos a máxima pressão, gerando distintos níveis de constrangimento durante os episódios, e ao final elege-se o ungido, que será o grande campeão. 

O trabalho na alta cozinha já é naturalmente difícil. Deve-se conciliar a qualidade do prato com prazos curtos e uma gestão de equipe impecável para entregar a expectativa do cliente. Novas máquinas, ferramentas e tecnologias aparecem todos os dias para facilitar essa entrega, mas isso não dirime a natureza desse difícil trabalho, que exige qualidade, velocidade, coordenação e entrega sempre em máxima potência durante o turno de trabalho. É a fórmula certa para que algo facilmente dê errado e a desgraça humana apareça. 

Colocar pessoas na TV, em situações reais complexas, e transformar isso em um espetáculo não é algo novo. A novidade é quando isso é ligado a uma profissão, ao ganha pão de uma pessoa que será avaliada para que o mundo veja se ela é boa ou não no que faz. O trabalho é algo sagrado para o ser humano. É por meio dele que geramos importante significado e propósito para nossas vidas. Colocá-lo a prova, num contexto público tão psicologicamente frágil, e transformá-lo em show, me parece cruel. 

Obviamente esses shows só existem aos montes pois as pessoas gostam e dão a audiência necessária, e também porque aqueles profissionais aceitam se submeter àquilo em troca de algum tipo de fama. A espetacularização da desgraça funciona. Vemos isso diariamente nos noticiários, memes, fofocas e afins. Nada mais antigo e humano. O ser humano se entretém, e até se sente bem, vendo que existem outros como ele em uma situação pior. Talvez olhar para baixo faça uma pessoa se sentir mais por cima. Isso faz parte do funcionamento social desde que o mundo é mundo. O que me dói é quando isso é ligado a uma profissão. Observar alguém ser escrutinado de forma constrangedora pelo seu trabalho, pelo menos para mim, nunca gerará prazer ou entretenimento. Obviamente, tenho os meus gatilhos de fuga do politicamente correto como todos têm, mas quando essa fuga está ligada ao trabalho digno de alguém, me machuca. 

O trabalho é central na vida das pessoas, dá sentido a nossa existência e organiza nossa vida psíquica, e quando a desgraça desse trabalho se torna show, me parece que temos um prato cheio para a deterioração humana. 

Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor. 

**Psicólogo, mestre em administração, líder de Gente na Abrasel e CEO da MindSe

Paulo Jelihovschi
Paulo Jelihovschi

Líder de Gente e Jornadas na Abrasel

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