Fora do lar, dentro do negócio
Última edição

Não se trata a saúde mental sozinho

Tempo de leitura 5

Paulo Jelihovschi
Paulo Jelihovschi

Líder de Gente e Jornadas na Abrasel

4 horas, 20 minutos atrás

No dia 26 de maio se iniciou o processo de fiscalização por parte do Governo no que diz respeito às atualizações da NR-1. Para quem ainda não sabe do que se trata, em resumo, as empresas precisam cuidar dos riscos psicossociais que elas geram no ambiente de trabalho. A minha vida atualmente é falar sobre esse assunto: palestras, entrevistas, dúvidas. Sinceramente, até já me cansou esse assunto. 

A NR-1 existe desde 1979, e nos meus vinte anos de atuação profissional, nunca ninguém quis tocar nesse assunto comigo. Nos últimos meses, é só disso que se fala. E vejo que estamos conversando sobre isso da forma errada. 

Essa Norma apenas regulamenta um assunto que defendo há mais de dez anos como negligenciado nas empresas: a saúde mental. Essa onda da NR-1, acreditem em mim, vai passar. As empresas criarão seus planos, alguns serão executados, outros não, algumas empresas serão multadas, outras não, e num prazo de aproximadamente seis meses teremos outro assunto na boca dos gestores de empresas.

O grande mérito da NR-1 vem sendo tirar esse tema dos armários das empresas. Falar de saúde mental se tornou essencial, e isso é ótimo. Mas, para além do alarmismo, precisamos entender a real importância desse assunto. Com esse objetivo, faço uma pequena retrospectiva. 

Como já disse, a saúde mental no trabalho era negligenciada nas empresas, sendo assunto das rodinhas acadêmicas, congressos, simpósios e afins. Não passava da catraca da recepção das organizações. Com a pandemia, e o aumento dos adoecimentos, o assunto se tornou importante.

Gestores começaram a se atentar a isso e buscar soluções, ainda sem saber bem o que fazer. As primeiras soluções que surgiram, e ainda são as campeãs do mercado, são as ferramentas de apoio individualizantes: ajuda para o funcionário que quiser fazer academia, terapia, yoga ou meditação. Nada contra. Essas soluções são ótimas, mas ainda insuficientes. Prova disso é que as pessoas continuam a adoecer nas empresas, e cada vez mais. 

Apoiar o tratamento individual é somente parte do problema, e por vezes a menor parte. Dizer que o problema é do funcionário e ajudá-lo a pagar uma terapia é quase que esconder o problema. A real solução para a melhoria da saúde mental nas empresas está no ambiente, na coletividade. Não existe ambiente saudável em que uma pessoa está bem e as outras não. O ambiente de trabalho é sim o maior fator a ser desenvolvido para a melhoria real da saúde. E isso só pode ser feito de forma coletiva. 

Um dos maiores méritos da NR-1 é a insistência no envolvimento das equipes de trabalho na identificação de problemas e criação de soluções, ao invés de investir nas soluções feitas pelo RH ou a gestão a portas fechadas, que por vezes podem estar descolados da realidade da empresa.

Somente as boas parcerias entre à gestão e os trabalhadores poderá gerar as boas soluções para a saúde mental no trabalho, que estão ligadas ao relacionamento interpessoal, ritmos de trabalho, tarefas, políticas e afins. São questões que extrapolam o individual e entram no grupo. 

Acreditem em mim: a moda da NR-1 vai passar. O que deve ficar é a clareza de que a saúde mental se trata no ambiente de trabalho, com consistência, dia após dia, e não apenas no apoio ferramental a quem possa querer alguma solução individual. 

Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor. 

Paulo Jelihovschi
Paulo Jelihovschi

Líder de Gente e Jornadas na Abrasel

tags

Relacionados