Fora do lar, dentro do negócio
Última edição

Cultura do medo: o que a crise do Noma revela sobre gestão de equipes?

Um dos centros da cena gastronômica internacional, Noma tem sua reputação abalada após cofundador estar em meio à polêmica de abusos físicos e verbais | Foto: Omnivore

Tempo de leitura 5

Chef René Redzepi abandona cargo depois que protestos e acusações de abusos de poder reverberaram no último mês. O restaurante Noma já foi eleito o melhor do mundo cinco vezes.

Maria Eduarda Collares 13/03/2026 | 14:07

Nesta quarta-feira (11), o chef dinamarquês René Redzepi, anunciou seu afastamento do Noma pelas redes sociais. O restaurante com três estrelas Michelin vem sendo alvo de críticas desde o começo de fevereiro, após ex-funcionário expor casos de abusos físicos, verbais e psicológicos por parte Redzepi. A repercussão piorou após o The New York Times (NYT) publicar uma série de outras 35 denúncias no começo de março.  

Todos os casos ocorreram entre 2009 e 2017 e surgem em meio a abertura temporária do Noma, originalmente de Copenhage, em Los Angeles por 16 semanas. Com ingressos vendidos a cerca de US$ 1.500 por pessoa (aproximadamente R$ 7,7 mil), o ponto temporário estava com reservas esgotadas para todos os dias, mas acabou cercado na porta por protestos contra o chef responsável graças a repercussão do caso. 

Nas mãos de Redzepi, o Noma ficou conhecido pela influência na alta gastronomia e por ser referência na chamada nova cozinha nórdica, mas sua liderança foi contestada com a chegada da primeira denúncia do seu ex-diretor de fermentação, Jason Ignacio White. 

“Noma não é uma história de inovação. É a história de um maníaco que gerou uma cultura de medo, abuso e exploração”, desabafou White no seu perfil @microbes_vibes no Instagram, onde reuniu diversos outros supostos relatos contra o chef. 

Os relatos se repetem e mostram um comportamento extremamente abusivo para uma liderança dentro da cozinha e como equipe. Tanto White quanto os demais ex-colaboradores do Noma mostrados pela NYT afirmam terem testemunhado ou passado por humilhações públicas, socos, empurrões, golpes com utensílios de cozinha em um ambiente cercado pelo terror psicológico e ameaças de “manchas” na reputação que partiram totalmente de Redzepi. 

Com todas essas exposições, a saída do chef foi confirmada em um post colaborativo com o perfil do restaurante, onde Redzepi reconhece os erros cometidos no passado e espera que uma nova gestão leve o Noma para uma nova fase.  

Fundado em 2003, Rene Redzepi estava à frente do Noma a mais de 20 anos. Conduta do chef questiona a normalização da cultura de abusos dentro da cozinha de alto padrão. | Foto: Divulgação 

Esse caso reacendeu discussões na comunidade gastronômica sobre a cultura do medo e a rotina historicamente militarizada dentro das cozinhas profissionais: a chamada Brigade de Cuisine. Em publicação recente do chef e consultor Kaka Gomes, mais do que normalização, esse regime “brigadista na gastronomia está longe de ser sanado através do caso Noma. 

“Dentro dessa visão, errar é ser inútil. É normal gritar. É normal humilhar. É teste de resistência. É ‘escola de chefs de verdade.’ A cozinha virou campo de treinamento, e o abuso, um ‘rito de passagem’. - Kaka Gomes.

Até o fechamento dessa nota, o Noma não anunciou quem assumirá o comando do restaurante após a saída de Redzepi. 

 

tags

Assine gratuitamente nossa newsletter

E descubra os segredos dos melhores bares e restaurantes!

Ao enviar seus dados, você concorda com os Termos e Condições e Políticas de Privacidade do Portal B&R.

Relacionados