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Qual o valor do prato no seu restaurante?

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Diego Senra
Diego Senra

Consultor em food service

18 horas, 11 minutos atrás

Empreender na alimentação fora do lar é, antes de mais nada, um ato de generosidade. Quando uma pessoa decide abrir uma operação na gastronomia normalmente deriva de alguma memória afetiva, carinhosa, de um gesto de amor.

Seja quando preparamos algo para alguém que gostamos ou para um cliente que nunca vimos, a busca por sabor, por hospitalidade e por bem receber estão na raíz, são premissas do nosso ofício. Mas, apesar de parecer bom senso, é muito raro ver alguém que conta essa história.

Mas, durante muito tempo, restaurantes foram vistos pelo consumidor apenas como pontos de venda. Lugares onde o produto final era o protagonista e tudo o que estava por trás ficava escondido na cozinha. Mas essa lógica não se sustenta mais.

É comum o dono do negócio comentar em uma roda de amigos o cuidado que tem com seus parceiros, equipamentos e insumos. “Aqui só uso requeijão da marca X, porque esse é de verdade”, “Minhas fritadeiras são da marca Y porque são as melhores” ou “Todas as minhas carnes são da marca Z, não sirvo nada aos meus clientes que eu não use na minha casa”.

O operador comenta com amigos, com fornecedores, com o time. Mas não comunica isso para quem realmente importa: o consumidor. E aqui está um dos maiores desperdícios de valor do nosso mercado.

Quando você escolhe um bom ingrediente, você não está apenas comprando insumo. Você está comprando marca, história, credibilidade. E isso precisa ser transferido para o seu cliente. Marcas investem milhões para construir reputação, confiança e desejo. E o restaurante, que é o ponto final dessa jornada, paga mas na maioria das vezes não se aproveita desses ativos para benefício próprio.

Em tempos de competição cada vez mais acirrada, em ambientes digitais onde todos os pratos parecem iguais, esse é, sem dúvida, um caminho importantíssimo para se destacar dos concorrentes. O ditado “o que os olhos não veem, o coração não sente” não se aplica apenas às coisas ruins, mas também às boas.

Se sua empresa vende um prato executivo padrão no almoço, assim como vários concorrentes, na mesma plataforma de delivery ou em uma praça de alimentação, como seu prato de arroz, feijão, bife e salada, custando R$ 30, vai se destacar do prato do vizinho, aparentemente igual, que custa R$ 29,99?

Se você usa um molho reconhecido, diga qual é.

Se sua carne é artesanal de um fornecedor específico, mostre isso.

Se sua batata tem origem, destaque.

Isso não diminui sua marca. Isso fortalece. Porque, ao fazer isso, você está dizendo ao cliente: eu escolho o melhor para você.

Não estamos falando de marketing vazio. Estamos falando de verdade. De transparência. De mostrar o que já é feito, mas que ainda não está sendo comunicado. E mais do que isso: estamos falando de construção de valor percebido.
Quando o cliente entende o que está por trás do prato, ele deixa de comparar apenas preço. Ele passa a comparar escolha, critério, cuidado. E isso muda completamente o jogo.

O seu cardápio precisa contar essa história. Sua equipe precisa saber contar essa história. Suas redes sociais precisam amplificar essa história. Chega de usar o Instagram apenas para promoção, que só corrói sua margem e nivela seu negócio por baixo. Ele tem que mostrar todos os detalhes, todos os cuidados, todos os caprichos que você, sua equipe e seus parceiros dedicam para oferecer o melhor para seu cliente, deixando claro porque é tão bom e, mais importante, porque você merece o sucesso que tem (e porque você cobra mais que seu concorrente!)

E existe um outro ponto estratégico aqui: fornecedores querem estar ao lado de quem valoriza suas marcas. Querem aparecer onde seus produtos são bem utilizados, bem apresentados, bem comunicados. Seja uma plataforma de excelente visibilidade para seus fornecedores. Ao se posicionar como uma vitrine de qualidade, você deixa de ser apenas cliente e passa a ser parceiro. E isso abre portas para relações mais fortes, apoio, investimento e crescimento conjunto.

O bom operador não é apenas aquele que executa bem. É aquele que constrói valor ao redor do que executa. E esse é um chamado que eu faço aqui.

Se você é um operador que investe em qualidade, que escolhe o melhor, que se preocupa com cada detalhe, está na hora de parar de esconder isso.

Está na hora de assumir seu papel como protagonista.

De transformar seu negócio em uma plataforma de valor.

De dar nome aos ingredientes, rosto aos parceiros e história ao seu produto.

Porque, no final, quem conta melhor sua história não apenas vende mais.

Constrói marca. Constrói margem. Constrói futuro.

E em um mercado cada vez mais competitivo, isso não é diferencial.

É sobrevivência.

Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor. 

Diego Senra
Diego Senra

Consultor em food service

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