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Como bares e restaurantes estão criando os destinos mais descolados do mundo?

Na Rua do Senado, chefs e empresários analisam como a ocupação estratégica do espaço e a valorização da identidade local criam destinos mais vibrantes no setor de alimentação fora do lar. | Foto: Divulgação

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Entenda como o conceito de "terceiro lugar" e a hospitalidade transformam ruas comuns em destinos globais, impulsionando a revitalização urbana e o lucro de bares e restaurante, à exemplo, a Rua do Senado, RJ.

Maria Eduarda Collares 24/03/2026 | 17:32

Na última edição do ranking “The coolest streets in the world in 2025” (As ruas mais legais do mundo em 2025), promovida pela revista britânica Time Out, pela primeira vez no topo da classificação um destino brasileiro foi selecionado: a Rua do Senado, no centro do Rio de Janeiro, graças ao epicentro cultural e à gastronomia brasileira que pulsa nas paredes da região, transformação gerada pelos seus bares e restaurantes. 

História e acolhimento se misturam e formam uma experiência que vai além da comida. Nesse contexto, uma esquina,  se tornam a extensão de casa. Os estabelecimentos viram convivência e cartão postal de uma região por conta do seu serviço. Como consequência, o reconhecimento vem através dessa mistura, focada em reconhecer comunidades em espaços gastronômicos. 

O bar, a cafeteria, a padaria, todos podem se tornar lugares de conforto para sair da rotina e lembrar que viver é mais do que a vida doméstica e as atividades do trabalho. Espaços onde podemos aproveitar uma boa refeição e o que o ambiente pode nos oferecer. A isso, O sociólogo Ray Oldenburg, lá nos anos 1980, já dava nome: nosso terceiro lugar. 

No setor de alimentação fora do lar (AFL), esse terceiro lugar representa os pontos de respiro urbanos: espaços sociais onde a experiência do pertencimento precede o consumo. São bares, cafés, restaurantes e outros negócios do setor que vão além da função de servir comida para se tornarem destinos onde o cliente pode simplesmente "ser”. A conversa despretensiosa no balcão, o café que transforma o cliente em vizinho e o hábito que converte o consumo em vínculo comunitário, tudo isso é raro e fala mais de um estabelecimento do que a maioria pensa. 

Quem já reconhece essas vivências como vantagem transforma rota em narrativa, como é o caso dos negócios de alimentação da Rua do Senado, bairro Centro, RJ,e dos bairros Barra Funda, em SP, e Rio Vermelho no centro de Salvador.

Com boa comida e espaço, tudo é possível! 

Referência quando se fala de uma cena boêmia vibrante no Brasil, a Rua do Senado é palco de uma cultura gastronômica que cresceu junto ao investimento urbano no centro da capital fluminense. Casarões históricos juntam-se aos bares tradicionais, às rodas de samba e aos restaurantes para contar a reinvenção desse espaço, que equilibra o turismo gastronômico com a vontade contínua dos cariocas que se reconhecem no local. 

Na perspectiva do chef Lúcio Vieira, responsável pelos estabelecimentos cariocas Braseiro Labuta e Restaurante Lilia, “a Rua do Senado é o eixo central que une essas operações em uma jornada de evolução urbana” 

Conforto no espaço e pratos que transmitem a essência da comunidade revelam sobre criações de comunidades na Rua do Senado. Bar Braseiro Labuta. | Foto: Tadu Arquitetura 

No Lilia, a alta gastronomia é exaltada junto ao cotidiano dos antiquários que ali estão, já no Braseiro Labuta, restaurante especializado em carnes e cervejas, onde os clientes se misturam ao conforto da rua e do calor da comida. Lógica que ancora os demais estabelecimentos da região, responsáveis não só pelo título de rua mais “cool” do mundo, mas por revitalizar a região com comida e pessoas. 

Enquanto o Lilia é destino de contemplação, o Braseiro é a energia do balcão e da culturaLúcio Vieira 

Foi graças à ocupação de espaços, antes inutilizados, abandonados ou sem estrutura, que diversos empreendimentos – principalmente os alimentícios - moldaram essa nova perspectiva para a Rua do Senado. Segundo Vieira, essa ocupação estratégica altera a percepção de segurança e viabilidade da região, atraindo um público atento a tendências e ávido pelo equilíbrio entre a casa e o trabalho, onde o pertencimento precede o consumo. 

“O que vimos no entorno foi um efeito de simbiose: a presença de operações gastronômicas encorajou a abertura de cafés, livrarias, ateliês e galerias de arte. A rua deixou de ser um corredor de passagem para se tornar um organismo vivo, onde a vizinhança de negócios se complementa em vez de competir.”, complementa Vieira. 

Esse comportamento se reflete em diversas regiões, mostrando que tornar uma região procurada e “descolada” pode ser possível em qualquer lugar. Afinal, para o chef Daniel Park, um dos sócios do restaurante oriental Komah, até uma zona industrial, como era a Barra Funda, em São Paulo, pode ser o reduto para negócios de alimentação crescerem.  

Atendimento e conexão 

“O atendimento é um dos pilares principais de um restaurante, apesar de estar localizado num bairro fora da rota, é através do atendimento que os restaurantes devem receber os clientes e fazê-los se sentirem em casa.”, comenta Park sobre o fator acolhimento dentro das operações do Komah. Ser o “terceiro lugar” de alguém depende de um conjunto de elementos – ambientes, comunidade, negócios parceiros e uma operação logística consistente. Mas, para o chef, nada fala mais sobre sua relação com o público do que o atendimento

Restaurante Komah, referência na gastronomia coreana contemporânea, aposta na hospitalidade para tornar sua região e espaço atraentes. | Foto: Lais Acsa

Localidade, estrutura e pertencimento 

Ao resgatar a história do bairro da Barra Funda (SP), o Komah mantém o design do salão principal no estilo industrial, aproveitando da construção que o imóvel possuía antes de ser reformado, transformando em uma atmosfera propícia para boas memórias e descontração em uma região, agora, residencial. 

Os arredores de um negócio de alimentação podem falar muito sobre o que ele busca, além de vender comida. Por isso, mapear a região e o que outros estabelecimentos fazem ou como se relacionam, pode demonstrar o potencial que essas regiões possuem para alcançar o status de procurada, tudo isso a partir de vínculos ao invés de competitividade

É nessa lógica que restaurantes como o Solar nascem e se mantêm. Localizado na orla marítima de Salvador, o bairro Rio Vermelho é conhecido como um dos destinos mais boêmios da cidade. Exemplo de convívio entre tradição e comunidade na gastronomia, é ali que o Solar, gerido pela chef Andrea Nascimento, faz da sua comida uma carta de amor a cultura da região.  

Vemos o entorno como um grande salão a céu aberto, onde a colaboração entre os negócios é o que mantém o bairro atraenteAndrea Nascimento

A chef expõe que “o Rio Vermelho deixa de ser um bairro comum quando nós, donos de restaurantes, abraçamos a arte urbana e a ocupação criativa das ruas. Vemos o entorno como um grande salão a céu aberto, onde a colaboração entre os negócios é o que mantém o bairro atraente”, analisando a importância do sentimento de pertencimento do lugar que está inserida. 

Nascimento faz questão que seus ingredientes sejam de produtores locais, principalmente da colônia de pescadores perto do restaurante, onde a culinária baiana é respeitada e sua essência destacada do prato ao atendimento. Para ela, “sentar-se aqui (no Solar) é sentir o conforto de uma casa baiana que valoriza o tempo, a conversa e o prazer de ser bem servido”. 

Terceiros lugares surgem do acolhimento que transcende o cardápio. Redomas de conforto e prazer que se formam na mente de clientes, em forma de restaurantes, bares, cafeterias. Possibilidades infinitas a partir do que sua região e aqueles que a habitam têm a ensinar. 

“Meu conselho é sempre honrar o seu território. Para fazer do seu negócio um destino, você precisa valorizar o que a região já oferece. Compre do pescador vizinho, apoie o artista de rua local, peça a benção às tradições do bairro. Quando o empresário entende que ele faz parte de uma engrenagem cultural e não é apenas um CNPJ, o negócio ganha alma e o público percebe essa verdade.”, encerra Nascimento. 

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