Mais do que sabor e preço, uma parcela crescente do público passou a considerar a experiência em bares e restaurantes como critério de escolha. Esse comportamento do cliente abre espaço para um modelo de negócio que une gastronomia e entretenimento: os restaurantes temáticos.
Segundo dados apurados pela Solvis, empresa de pesquisas de satisfação no ponto de venda do Brasil, mais de 50% dos clientes consideram importante que o restaurante seja "Instagram/TikTok-ável" e 54% estão dispostos a pagar mais por uma experiência com atmosfera única. Isso significa que a atmosfera do estabelecimento é, hoje, tão decisiva para o consumidor quanto o sabor do prato.
Mais de 50% dos clientes consideram importante que o restaurante seja 'Instagram/TikTok-ável' Solvis.
Licenciados a partir de marcas globais de alto reconhecimento, ou construídos em torno de universos ficcionais próprios, esses bares e restaurantes apostam em ambientes que reproduzem espaços narrativos para atrair um consumidor que busca, além da refeição, uma desconexão da rotina.
A busca por experiências gastronômicas
A ascensão dos restaurantes temáticos imersivos não é coincidência. Ela se apoia em pelo menos três movimentos simultâneos: a mudança no comportamento do consumidor, a consolidação da economia da experiência e o peso crescente das redes sociais como vitrine e motivador de escolha.
Segundo o relatório "Perspectivas e Cenários para o Foodservice – 2025" do Instituto Foodservice Brasil, a personalização das experiências gastronômicas é uma das tendências centrais do setor. Conceitos imersivos passaram a ser cada vez mais valorizados pelo público que busca não só uma boa refeição mas uma experiência completa.
Nesse contexto, bares e restaurantes que replicam cenários de universos ficcionais deixaram de ser curiosidade para se tornar proposta de valor competitiva dentro do mercado de alimentação fora do lar. E o licenciamento de marcas globais tem sido uma alternativa para investir nesse tipo de negócio.
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Como funciona o licenciamento de marcas
Guilherme Garcia, advogado especialista em licenciamento de marcas, aponta as principais características de um contrato desse tipo
“É um acordo pelo qual o titular de uma marca, chamado de licenciante, autoriza outra pessoa ou empresa (denominado licenciado) a utilizar essa marca, mediante o pagamento de uma contrapartida financeira chamada royalties. Esse contrato não transfere a propriedade da marca. O dono continua sendo o licenciante; o que é licenciado é apenas o direito de uso, para uma finalidade específica e por um período determinado.”
Esse modelo de negócio vai muito além da decoração temática. Envolve projetos de cenografia com fidelidade ao universo original e uma operação desenhada para entregar imersão sem abrir mão da eficiência do restaurante.
Garcia reforça que a negociação nesse tipo de contrato envolve definir condições de uso, territórios, prazos e royalties que podem ser fixados como percentual sobre o faturamento, valor fixo mensal ou uma combinação de ambos. Apesar da complexidade desse tipo de negócio, o advogado afirma que o cenário é atrativo para os donos de bares e restaurantes.
"Imagine incorporar ao seu estabelecimento uma marca já consolidada no mercado, seja de um personagem, de um universo pop ou de qualquer outro elemento que ressoe com o seu público. Isso agrega valor imediato ao negócio e pode alavancar vendas", afirma o especialista.
Desafios operacionais em bares e restaurantes temáticos
O investimento em restaurantes temáticos, sobretudo os licenciados, é um movimento que vem se consolidando no setor de alimentação fora do lar no Brasil. Entretanto, locais que oferecem uma experiência gastronômica imersiva já existem no mercado há alguns anos.
É o caso da Taverna Medieval, restaurante temático localizado em São Paulo, restaurante temático idealizado pelos sócios Ellen Lepiani e Nelson Ferreira que está em atividade desde 2016. De acordo com eles, a ideia de criar um restaurante com temática medieval foi uma aposta.
“Do ponto de vista de mercado, foi muito mais uma aposta do que a entrada em uma categoria já consolidada. Quando decidimos tirar o projeto do papel, em 2016, não havia no Brasil um modelo amplamente estabelecido de restaurante com essa proposta de imersão medieval aliada à gastronomia”, conta Ferreira.
Em contextos como o da Taverna Medieval e de outros restaurantes, que operam com temática própria, não há licenciamento de marcas. No entanto, segundo Ferreira, há desafios para transformar o universo da ficção em operação rentável.
"O maior desafio foi transformar esse universo em algo real, crível e acolhedor, sem que virasse apenas uma caricatura ou uma cenografia vazia. Desde o início, houve muito cuidado em pesquisar referências, construir ambientes com identidade própria e fazer com que decoração, atendimento, cardápio e atrações conversassem entre si”, detalha o empresário.
Além do cenário, traduzir o medieval para a gastronomia exigiu um equilíbrio delicado. O empresário finaliza explicando aqu "A proposta nunca foi reproduzir literalmente a alimentação da Idade Média, mas reinterpretar esse imaginário dentro de uma experiência gastronômica prazerosa, divertida e acessível". Tudo isso alinhando alimentação de qualidade, esperiências imersivas e estratégias de marketing.

