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Entenda como bares e restaurantes viraram refúgios contra a hiperconectividade

Aromas, texturas e cores transformam o ato de comer em uma experiência multissensorial que busca reconectar o consumidor com o momento presente. | Foto: Shutterstock

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Com telas virando base na operação, a fome sensorial ganha força e reposiciona bares e restaurantes como espaços de presença, conexão e experiência multissensorial.

Duda Gomes 10/03/2026 | 11:34

Na era da hiperconectividade, passar mais de 9h diárias envolvido em telas e tecnologia é, possivelmente, comum para uma parcela considerável da população brasileira. De acordo com um levantamento feito pela plataforma Eletronics Hubs, a partir da pesquisa Digital 2023: Global Overview Report da DataReportal, o Brasil é o segundo país com mais pessoas em frente a uma tela – em um recorte de 45 países.  

Essa realidade chegou nos bares e restaurantes brasileiros. Cardápios através de tablets ou QR-Codes e totens de autoatendimento, por exemplo, levaram as telas e a tecnologia ao alcance dos consumidores. Além de, claro, a utilização da Inteligência Artificial na automação de processos que dizem respeito a hospitalidade.  

Embora a hiperconectividade não seja, por si só, negativa — afinal, a automação tecnológica pode fortalecer a operação —, o consumidor vem mostrando um impulso claro de “nadar contra a maré”. Nesse sentido, surge um termo crucial para quem quer acompanhar as mudanças de postura dos clientes no mercado de alimentação fora do lar: fome sensorial.  

O que é fome sensorial?  

De acordo com a chefe de previsão de comportamento do consumidor e apresentadora do podcast Create Tomorrow na WGSN, Cassandra Napoli, em entrevista a B&R, a partir de um mundo onde a hiperconectividade virou “regra”, vem ocorrendo uma espécie de ruptura nas escolhas do consumidor. Agora, o comportamento gira em torno da reconexão com os sentidos.  

“Reacender os sentidos será uma estratégia essencial no futuro, e a tangibilidade vai se tornar um novo marcador de valor. Por quê? Porque os consumidores estão cada vez mais famintos por estímulos sensoriais em um mundo movido pela tecnologia”, afirma Napoli.  

Nesse contexto, a ideia é que vivências norteadas pelos sentidos e iniciativas de comunidade se apresentam como estratégias de diferenciação e sobrevivência dos negócios, inclusive, no mercado de alimentação fora do lar.  

Os restaurantes oferecem oportunidades para o consumidor se conectar e sentir que faz parte de algo em meio ao caosCassandra Napoli.  

Nessa visão, a CEO e co-fundadora da TANJERIN, Cristina Souza, explica que a fome sensorial se manifesta em locais que priorizam experiências multissensoriais, ou seja, bares e restaurantes que evocam memórias afetivas por meio de texturas e aromas. “Esses ambientes atraem consumidores que valorizam estímulos visuais, táteis e olfativos, levando a escolhas baseadas mais na emoção e no impacto sensorial do que no preço ou conveniência”, pontua Souza.  

A fome sensorial destaca os estabelecimentos do mercado de alimentação fora do lar como opções para a descompressão em um mundo que gera exaustão através da hiperconectividade. 

Bares e restaurantes já acionam, por natureza, os sentidos: sabor, cheiro e toque; o diferencial agora é a presença. Divulgação/ Amazonas Peixaria.  

O equilíbrio do refúgio offline  

Tendo em vista a perspectiva da fome sensorial, como encontrar um equilíbrio em transformar bares e restaurantes em um refúgio offline para os clientes em uma era onde a conexão virtual/tecnológica se apresenta como base de operações?  

Para Souza, a reposta gira em torno em transformar o ambiente do bar ou restaurante é um espaço que remeta conforto emocional. Ela afirma que “criar a sensação de ‘refúgio offline’ exige um equilíbrio entre ambiente, serviço e experiência geral”. Assim, a consultora evidencia que elementos como luz suave, cores quentes, paredes que absorvem ruídos e a presença de aromas agradáveis podem ser a chave para criar a conexão sensorial e de escapismo entre os consumidores. Souza ainda reforça a necessidade de um destaque para a atenção e hospitalidade. 

O serviço precisa se destacar pela atenção e disponibilidade, sem apressar o cliente e sem forçar desconfortos tecnológicos desnecessáriosCristina Souza.  

Ainda, o toque humano tão vislumbrado pelos consumidores na premissa da fome sensorial, se torna ativo principal para bares e restaurantes que desejam acompanhar o comportamento do cliente. Para Souza, transformar a essência humana em algo consistente e replicável depende de rotinas bem desenhadas, treinamentos contínuos e a criação de uma forte cultura de hospitalidade dentro da equipe. “É importante que o time entenda e aplique padrões claros, mas tenha espaço para improvisar e adaptar-se às necessidades únicas de cada cliente”, destaca.  

Na prática, Souza explica que essa estratégia pode ser reforçada por rotinas diárias de checagem da capacidade de atendimento, além de práticas constantes de reconhecimento e feedback para manter os colaboradores engajados.  

Mas, se o caminho é a conexão humana e sensorial, em que ponto a tecnologia é benéfica ou prejudicial? O fato é que a tecnologia, quando usada estrategicamente, ajuda a liberar a equipe para interações verdadeiramente humanas, resolvendo problemas operacionais ou reduzindo tarefas repetitivas. É o que expõe Souza.  

A consultora explica que o risco mora quando a tecnologia é mal gerenciada; nesse cenário, ela pode se tornar um ruído, sobrecarregando a operação e afastando os clientes. “Isso acontece, por exemplo, quando clientes mostram resistência ao uso de sistemas excessivamente complexos ou quando a automação substitui completamente o calor humano”, destaca a especialista.  

O encontro entre a fome sensorial e a prática  

No Amazonas Peixaria, servir peixe virou servir território: memória, identidade e pertencimento em cada detalhe da experiência. Divulgação/Amazonas Peixaria.

Antecipando esse novo comportamento do público, interessado menos por novidade e mais por sensação, presença e pertencimento, o proprietário do Amazonas Peixaria, em Macapá (AP), Andreo Bastos, se aprofundou em uma pesquisa de mercado durante a pandemia e encontrou um vazio: faltavam, na região, negócios capazes de transformar a comida em imersão sensorial e conexão humana.  

Foi ali que ele nomeou a virada do próprio projeto. “O peixe é produto, mas a cultura é posicionamento”, resume. A partir dessa leitura, decidiu que era preciso servir território, memória e identidade, criando um ambiente em que o cliente se conecta com sentido e pertencimento.  

Quando o cliente dizia: ‘eu vivi algo diferente aqui’, ficou claro que estávamos entregando mais do que gastronomiaAndreo Bastos.  

Bastos conta que ao entrar em seu estabelecimento, o cliente tem contato sensorial direto com o território amazônico; “madeira, fibras, artesanato, iluminação quente, nada no restaurante é aleatório”.  

Ainda, o atendimento é ponto central da operação de Andreo. Além das roupas características – que o empreendedor deixa claro que não são figurino -, os atendentes também mantêm preservado o vocabulário regional. “Nós treinamos a equipe para entender o porquê de cada detalhe. Quando a pessoa entende a história por trás do prato, da expressão, da cultura, ela deixa de atuar e passa a viver aquilo”, afirma o proprietário da Amazona Peixaria.  

Andreo exemplifica o afirmado por Napoli e Souza. Em sua operação, a tecnologia é a base invisível, presentes em sistemas de gestão, controle de estoque, integração de pedidos, reserva digital, o que gera eficiência. Mas, o protagonista da casa é outro. “O protagonista continua sendo o olho no olho. Tecnologia organiza. O humano encanta”, resume.

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