Fora do lar, dentro do negócio
Última edição

Turismo gastronômico e o fortalecimento do mercado de bares e restaurantes no Brasil

Especialistas apontam a identidade territorial e a hospitalidade como os pilares para transformar restaurantes em destinos turísticos. | Foto: Canva

Tempo de leitura 5

Com recorde de 9,3 milhões de turistas, setor de alimentação fora do lar tem a oportunidade de focar em identidade territorial e excelência no atendimento para transformar o negócio em um destino.

Brener Mouroli 02/04/2026 | 17:30

Não há uma conexão mais imediata do que pensar em viagem e logo pensar em lugares para comer. Essa ligação é algo forte, o turismo e a alimentação possuem uma relação intrínseca, por isso, para empresários do setor de Alimentação Fora do Lar, entender essa dinâmica e relação do turismo gastronômico é uma oportunidade grandiosa de vender e lucrar mais.

A história brasileira está recheada de pratos, ingredientes e técnicas culinárias que são reconhecidas internacionalmente. Tanto é, que em 2022, o Ministério do Turismo lançou o Programa Nacional de Turismo Gastronômico – Gosto Pelo Brasil, com o objetivo de desenvolver o setor.

O mercado de gastronomia e turismo no Brasil tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Para dimensionar, o Brasil registrou um recorde histórico de 9,3 milhões de visitantes estrangeiros em 2025 (um crescimento de 37% em relação ao ano anterior). Um fluxo considerável de pessoas que olham para a alimentação como um dos quesitos importantes na hora de decidir a viagem.

Segundo relatórios de demanda turística internacional da Embratur/Ministério do Turismo, a gastronomia é citada sistematicamente como fatores de decisão, com índices de aprovação que flutuam entre 93% e 95%. Além disso, no relatório "Tendências 2026" da Global Vision Access e dados do WTTC (World Travel & Tourism Council), a gastronomia aparece como o eixo central da "experiência" de viagem, que é a principal tendência para 2026, superando o antigo modelo de apenas "visitação".  

No setor de alimentação fora do lar, a potência pode ser percebida pelos números apresentados pela Abrasel, que, conforme publicação de março/2026, ao longo do ano de 2025 é retratado um faturamento consolidado em R$ 495 bilhões (contra R$ 455 bilhões de 2024). Esses dados demonstram que o turismo gastronômico é uma chave de crescimento significativo para empresários do segmento.

O que é o turismo gastronômico?

O turismo gastronômico vai muito além de "comer fora". Trata-se de uma modalidade de viagem onde a culinária é a motivação principal ou o pilar central da experiência. Como explica Sandro Belo, presidente da Abrasel no Amapá e turismólogo, a diferença entre um restaurante comum e uma referência turística é que o segundo se torna um motivo de deslocamento.

Ele explica que, enquanto o estabelecimento comum foca no público local e na conveniência, a referência turística constrói uma identidade territorial. Belo destaca que o prato deve comunicar a cultura e o território; quando não há essa narrativa, o restaurante torna-se genérico e perde relevância para quem vem de fora.

Para o turista, o estabelecimento deixa de ser apenas conveniência e passa a ser parte de toda a vivência turística. É o local onde ele "come a cultura" da região. Complementando essa visão, Rafaela Martins, garçonete e especialista em hospitalidade, reforça que essa modalidade se sustenta na excelência do serviço. Para ela, o turismo gastronômico acontece quando o "simples é bem-feito", transformando o atendimento na linha de frente que materializa o valor do destino, unindo uma boa administração de recursos à satisfação da equipe, o que reflete diretamente na forma como o turista é recebido e acolhido.

Principais erros em bares e restaurantes

Muitas vezes, o empresário de bares e restaurantes concentra toda a sua energia na cozinha e negligência o que os especialistas chamam de jornada do visitante. O erro capital, segundo Belo, é o foco exclusivo no sabor da comida, ignorando que o turista avalia a experiência como um todo.

Para quem visita uma cidade, comer é também uma forma de compreender o destinoSandro Belo.Quando um restaurante possui uma culinária técnica, mas carece de narrativa, ele perde sua relevância turística. "Para quem visita uma cidade, comer é uma forma de compreender o destino; sem história, o restaurante se torna genérico", pontua Belo. Essa "falta de alma" faz com que o estabelecimento não consiga justificar por que aquela comida só faz sentido naquele lugar específico.

Essa desconexão entre o prato e o território é agravada por falhas invisíveis na comunicação oferecida pelo negócio. O turismólogo alerta que a jornada do turista começa muito antes dele se sentar à mesa. Informações desatualizadas em plataformas digitais, fotos que não condizem com a realidade e a ausência de um cardápio online criam barreiras que afastam o visitante ainda na fase de decisão. Além disso, a falta de conhecimento cultural no atendimento — quando a equipe não consegue explicar a origem de um ingrediente ou a técnica de um prato — quebra a imersão que o turista de lazer tanto busca.

Complementando essa análise, Martins traz o foco para a gestão de recursos e pessoas, áreas onde o erro operacional se torna um "repelente" de clientes. Ela defende que, embora a comida seja o produto, o atendimento de alta qualidade é indispensável: "Sem comida boa o cliente não volta, mas sem atendimento bom também não".

Outro ponto de atrito levantado por Martins é o desequilíbrio do ambiente. A poluição sonora, a iluminação inadequada e a falta de espaços versáteis, que consigam acomodar desde um jantar romântico até um grupo de negócios sem que um interfira no outro, são falhas que comprometem o conforto. Essa inconstância, somada à falta de padrão no serviço citada por Belo, é o que impede um negócio de se tornar um destino atrativo.

Como ambos concordam: o turista raramente concede uma segunda chance. Uma falha na hospitalidade ou na narrativa hoje pode significar a perda definitiva de um embaixador da sua marca para o mundo.

Como ser referência turística e gastronômica?

Para que um estabelecimento deixe de ser apenas um local de passagem e se transforme em um destino obrigatório, o "dever de casa" imediato é a adaptação inteligente ao fluxo recorde de visitantes. Segundo Belo, a excelência no cenário atual não se resume à rapidez, mas à capacidade de gerenciar tempos distintos de consumo sob o mesmo teto. O restaurante que se torna referência é aquele que entende as nuances: o turista de negócios exige previsibilidade e agilidade, enquanto o de lazer busca uma imersão que justifique sua jornada.

Tudo o que se faz com excelência é destacado, inclusive o simples.Rafaela Martins.Essa visão de processos é complementada pela sensibilidade de Martins, que coloca a hospitalidade e a gestão de pessoas como o grande divisor de águas. Para ela, a diferenciação nasce no preparo da equipe para acolher a diversidade, tratando o atendimento como uma ferramenta estratégica de marketing. Quando um restaurante investe em inteligência cultural e infraestrutura, ele para de competir por preço e passa a ocupar um lugar emocional na memória do visitante.

Para trilhar esse caminho e aproveitar o crescimento do setor de bares e restaurantes, os especialistas sugerem algumas diretrizes fundamentais para o seu negócio:

  • Identidade territorial clara: utilize ingredientes locais de forma consciente e crie pratos que contem a história da sua região;
  • Inteligência cultural no atendimento: treine sua equipe para explicar origens, técnicas e ingredientes, além de investir no inglês como um facilitador universal;
  • Equilíbrio de ambiente: planeje espaços versáteis que minimizem a poluição sonora e ofereçam pontos de luz adequados para diferentes perfis, como áreas reservadas para executivos ou espaços para famílias;
  • Gestão de processos e pessoas: mantenha uma cozinha organizada por estações e uma em sintonia, garantindo que o padrão do serviço não oscile com o aumento do fluxo;
  • Conexão com o ecossistema: dialogue com hotéis, participe de festivais e integre-se aos roteiros turísticos locais para ser reconhecido como um patrimônio vivo da gastronomia.

Ao final, como destaca Belo, o restaurante que se torna referência não apenas serve comida, mas representa o lugar que o visitante veio conhecer. É a união entre a narrativa do território e a excelência operacional de uma equipe satisfeita que transforma o turismo gastronômico em uma chave para o crescimento do negócio.

tags

Assine gratuitamente nossa newsletter

E descubra os segredos dos melhores bares e restaurantes!

Ao enviar seus dados, você concorda com os Termos e Condições e Políticas de Privacidade do Portal B&R.

Relacionados