Sair de casa para comer fora tem se tornado uma escolha repensada pelos consumidores brasileiros. Um destes indícios é o comportamento dos clientes nos últimos anos. Em levantamento realizado pela Pluxee, sobre consumo em delivery e fora do lar em São Paulo, a maior cidade da América Latina, entre 2020 e 2025 e divulgado pela Times Brasil, “o canal de delivery, que viveu seu auge em 2021 com 16,66% de participação, vem se estabilizando e registra 7,73% em 2025. Mesmo assim, o hábito se consolidou: o número de consumidores que pedem comida mais de três vezes por mês quase dobrou, passando de 24% para 45%”.
Apesar do delivery se popularizar e trazer o comodismo, um modelo de negócio tem desafiado esse sistema e se tornado cada vez mais popular no Brasil: os estabelecimentos que alinham alimentação e entretenimento.
O movimento que recebe o nome em inglês de eatertainment é a junção das palavras eat (comer) e entertainment (entretenimento). A proposta destes negócios vai além de trazer ambientes temáticos — que também são parte importante da experiência. A ideia é oferecer alimentação, atrações, sensações e cenários que conquistem e atraiam os clientes para os salões, para o contato mais humanizados, interativo e mais distante das telas.
Diante desse cenário, como donos de negócios de alimentação fora do lar pode reagir e atrair mais clientes para o seu estabelecimento? A resposta parece estar na capacidade de oferecer o que nenhuma tela ou entregador consegue replicar: a vivência presencial, a interação e o pertencimento.
Entretenimento como âncora
A integração entre o prato e o lazer não é apenas uma estratégia de marketing, mas uma resposta à necessidade humana de socialização. Na Shelf Bar, em Belo Horizonte, o foco é o "olho no olho". Lucas Ribeiro, proprietário do estabelecimento, identifica que o entretenimento atua como um antídoto ao isolamento digital.
"A gente continua sendo ser humano e, na nossa essência, a gente precisa de socialização. O entretenimento é pessoalidade. O ser humano precisa dessa socialização para se nutrir também, não só o corpo, mas a mente", afirma o empresário.
Nesse modelo, o entretenimento não é um acessório passivo, mas uma operação ativa que impulsiona a experiência dos consumidores. Isso reflete diretamente nos indicadores de negócio: a permanência média salta de duas horas (em bares tradicionais) para mais de quatro horas e meia, explica o empresário.
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Comunidade e curadoria
Se de um lado o entretenimento foca na dinâmica interna da mesa, de outro ele serve como o "gancho" que retira o cliente do sofá. Tatiane Panizzi, do Spoiler Bar, em Porto Alegre, vê o eatertainment como uma ferramenta de construção de comunidade. Em um mercado onde o delivery se tornou o padrão de conveniência, o estabelecimento precisa oferecer um "evento inegociável", ser como um imã de consumidores interessados em se divertir.
O entretenimento no salão é o caminho para fugir das telas. É a oportunidade de ter uma experiência em que o digital não alcança: a interação humana pura Lucas Ribeiro.
"O desafio hoje é convencer o consumidor a sair de casa. Se pararmos de fazer eventos e trazer novidades, estaríamos decretando o final do projeto", pontua Panizzi. A técnica no Spoiler Bar envolve a criação de uma agenda cultural robusta: transmissões de premiações como o Oscar, campeonatos de videogame, noites de karaokê e até clubes de leitura e arte.
O cliente não vai apenas pela comida, mas pelo compromisso social com aquele grupo, conta a empresária durante entrevista à B&R.
Administrar um segmento já é desafiador, mas unir dois, a gastronomia e o entretenimento, dobra os desafios e os torna mais intensos. A operação torna-se mais complexa, exigindo treinamentos que vão além do serviço de mesa, alcançando a didática e a comunicação não violenta.
Ribeiro conta que no Shelf Bar, antes de ir para o atendimento ao cliente, os colaboradores passam por uma série de treinamentos para se comunicarem de maneira correta, entenderem os jogos e saber como replicar a cultura do negócio.
Além disso, há o risco do "hype": como manter a relevância após o impacto inicial da temática?
A solução apresentada pelos empresários é o uso atualizações de atrações, como no caso da Shelf Bar, que possui mais de 1200 jogos disponíveis e recebe semanalmente novos jogos, e de métodos ágeis, como o MVP (Mínimo Produto Viável), utilizado no dia a dia do Spoiler Bar.
Se o bar não se transformar em um evento, ele se torna apenas um ponto de entrega física. O objetivo é criar o desejo de estar presenteTatiane Panizzi.
O MVP visa testar eventos em escala menor antes de grandes investimentos e permite que o negócio se adapte ao gosto do público sem comprometer a saúde financeira. "Bar e restaurante você vende hoje para pagar a conta de amanhã. É instável, por isso nos agarramos em fazer coisas diferentes e trocar produtos constantemente para provocar o desejo de descoberta no cliente", explica Panizzi.
Delivery versus eatertainment
Em certo ponto, o conceito de eatertainment surge como um contraponto necessário à popularidade do delivery. Enquanto o serviço de entrega leva o conforto (e o isolamento) para dentro de casa, o movimento busca o caminho inverso: a reunião presencial.
O proprietário do Shelf Bar recorda que, durante a pandemia, foi preciso levar não apenas a comida, mas também os jogos e a monitoria dos recreadores via videochamada para as residências, provando que o desejo pela interação já existia, mas estava limitado pelas circunstâncias.
Hoje, porém, os bares que unem entretenimento e alimentação caminham no contrafluxo dessa comodidade. O intuito é promover a interação real e o "desmame" das telas. O negócio que une o bar ao entretenimento prova que o cliente quer mais do que apenas consumir; ele busca uma experiência de lazer que equilibre o desejo de se alimentar com o de se divertir. Neste modelo, a comida é o meio, mas a interação humana é, definitivamente, o prato principal.
