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Produtos com contagem de fibras são a nova tendência: burrice ou necessidade?

Brillat-Savarin (prazer), Bourdain (desejo) e Oldenburg (terceiro lugar): a defesa do restaurante como palco social e antítese do mero abastecimento funcional.

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Na era do Ozempic, o fibermaxxing ameaça transformar o restaurante em um mero posto de abastecimento nutritivo. É preciso então repensar o conceito de hospitalidade.

Danilo Viegas 02/02/2026 | 17:13

Estou lendo Ao Ponto, do chef e apresentador Anthony Bourdain. Em determinado momento do livro, ele defende que o negócio de bares e restaurantes não se resume apenas à hospitalidade. É também sobre desejo.  Achei genial.

Em tempos de explosão no uso de medicamentos para fins estéticos, como Mounjaro e Ozempic, cardápios que chamam carne de proteína e agora produtos com contagem de fibras, onde fica o desejo/prazer de comer e beber sentar-se à mesa com os amigos? Na história da humanidade, toda celebração ou ritual girava em torno da comida, não me lembro de na festa de pentecostes, por exemplo, aparecer um povo cigano com marmita fitness.
 
Brincadeiras à parte, convém a reflexão: qual é a barreira entre entender os novos comportamentos dos consumidores e transformar um restaurante em uma farmácia de manipulação de fibras e proteínas?

Fibermaxxing: o que é? 

A última novidade da indústria do “bem-estar” é o fibermaxxing. O termo descreve a obsessão em quase converter o prato de comida em uma espécie de planilha de Excel, onde a meta é atingir níveis estratosféricos de fibras. 

Esta tendência do fibermaxxing é um exemplo clássico de como a internet transforma necessidades fisiológicas básicas em comportamentos de otimização radical. É no mínimo irônico o quanto essa compulsão extrema por comer de forma "correta" pode se tornar um hábito não saudável. Esquecemos o prazer do desejo?

Quando se transforma o jantar em uma contagem obsessiva de macros e micros, estamos matando a experiência de restaurante antes mesmo de cruzar a porta. O estabelecimento deixa de ser um palco de hospitalidade para se tornar um mero posto de abastecimento funcional. 

Nessa quase ditadura do bem-estar, a comida é apenas um insumo para a validação pessoal e a estética do corpo otimizado. É a vitória do algoritmo sobre o apetite.

O que diria o gastrônomo francês Brillat Savarin que, no século XIX, já defendia que diferente da simples nutrição, o “prazer da mesa” é uma experiência que envolve circunstâncias sociais, tempo, companhia e qualidade? 

Afinal, mais que templos desse prazer gastronômico, cafés, bares e restaurantes são também componentes vitais da infraestrutura social urbana. Em seu livro The Great Good Place, o sociólogo norte-americano Ray Oldenburg divide o cotidiano em três esferas: o cotidiano se organiza em três esferas: o primeiro lugar: a casa (vida privada). O segundo lugar: o trabalho (produtividade e hierarquia). O terceiro lugar: espaços públicos e semipúblicos — como bares, cafés, livrarias e restaurantes — que permitem o convívio social informal, a conversa e a construção de senso de comunidade.

Este terceiro lugar surge como uma zona de descompressão onde o indivíduo deixa de ser apenas morador ou funcionário para se tornar um cidadão em diálogo. Para bares e restaurantes, essa teoria fundamenta a ideia de que o negócio não vende apenas comida ou bebida, mas pertencimento, desejo e hospitalidade. Não seria esse o verdadeiro bem-estar?

Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor. 

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