A alta gastronomia, tradicionalmente marcada pela reverência à técnica e à autoria, começa a experimentar uma inflexão provocada pela tecnologia. O restaurante Next, em Chicago, comandado pelo chef Grant Achatz, três estrelas Michelin e referência mundial em cozinha conceitual, incorporou assistentes de inteligência artificial ao processo de criação de seu novo menu — e o resultado é um convite à reflexão.
Para utilizar a IA na cozinha, Achatz desenvolveu cinco personagens virtuais com perfis distintos, cada um treinado com repertórios de mestres como Ferran Adrià, Auguste Escoffier e Massimo Bottura.
Entre eles estão o Chef Pierre, uma francesa clássica, e Maria, uma chef experimental. A proposta não é substituir o humano, mas tensionar seus limites criativos. “Criei esses assistentes justamente para provocar vícios criativos”, afirmou o chef em entrevista ao jornal The New York Times.
“Eles me oferecem ideias que eu jamais teria sozinho. A partir disso, escolho o que faz sentido e construo algo novo. Tudo é gerado pela IA, exceto o ato de cozinhar”, disse.
O resultado é um menu de nove etapas inteiramente concebido com apoio da IA, mas executado com a técnica e o olhar humano. A inteligência artificial não dita o prato — ela sugere caminhos. O chef, com sua bagagem e sensibilidade, decide o que seguir. É uma colaboração, não uma delegação.
Busca pela produtividade ou apenas uma jogada de marketing?
Esse experimento levanta questões relevantes para bares e restaurantes. Em um mercado cada vez mais pressionado por produtividade, diferenciação e consistência, a IA pode ser vista como uma ferramenta estratégica. Mas até que ponto ela preserva — ou compromete — a autenticidade de uma proposta gastronômica?
A provocação de Achatz não é apenas estética. Ela toca em dilemas profundos da gestão contemporânea: como escalar criatividade sem perder identidade? Como manter a singularidade de um negócio em um ambiente cada vez mais automatizado? E, sobretudo, como usar a tecnologia para ampliar — e não diluir — o valor da experiência oferecida ao cliente?
Para empresários que já superaram os desafios iniciais da operação e buscam formas de consolidar sua marca, a iniciativa do Next pode servir como ponto de partida para uma discussão madura sobre inovação. Não se trata de replicar o modelo, mas de entender como a inteligência artificial pode ser integrada de forma crítica e estratégica ao negócio.
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