Após mediar um painel muito especial no 38º Congresso Nacional da Abrasel sobre comparativos entre os cenários de alimentação fora do lar nos Estados Unidos e na Europa, vários pontos mostraram como cada região desenvolveu modelos próprios de operação, muito influenciados por sua cultura, infraestrutura e comportamento de consumo. Ao mesmo tempo, algumas macrotendências são globais: saúde, valorização dos ingredientes, tecnologia e, principalmente, a consolidação do delivery.
E, conversando com um amigo que atua em relações governamentais para uma das plataformas líderes de entregas no país, falamos sobre a importância de olhar esse movimento do delivery definitivamente como um mercado, com relevância, características e demandas únicas.
Um canal vende. Um mercado tem sua linguagem, tecnologia aplicadas, indicadores, fornecedores, investimentos, profissionais especializados, eventos e até carreiras que só existem dentro dele. O delivery já possui tudo isso.
Para muitos, já é o principal vetor de vendas. E, na prática, estamos diante de um novo paradigma do food service, com lógica própria, competências específicas, cadeia exclusiva e modelos de negócio que, muitas vezes, nem estão vinculados em um restaurante tradicional. No Brasil, as plataformas movimentam centenas de milhões de pedidos todos os meses, enquanto nos Estados Unidos o consumo fora do salão (off-premise) já é apontado como um dos principais motores de crescimento do setor.
Muitas marcas existem apenas digitalmente com presenças fortíssimas perante o cliente, nascendo com produtos específicos para entrega, sem fachada, mesa ou um garçom sequer. São negócios inteiros pensados exclusivamente para levar comida onde o cliente estiver, desde a criação do nome (para ser autoexplicativo ou memorável), passando por embalagens inovadoras até produtos pensados para performarem em seu máximo de sabor considerando o tempo de transporte até o consumo.
Muitos empresários ainda gerenciam nesse mercado como se fosse apenas um puxadinho do restaurante. Enquanto isso, outros estão construindo negócios inteiros sem nunca abrir um salão. Não é um restaurante que mudou. Toda a cadeia produtiva está mudando e se adaptando para esse universo. Muitas indústrias já criam produtos específicos
para o delivery.
Um exemplo: batatas fritas com cobertura extra de amido para ficarem quentes e crocantes após 30 minutos, permitindo que o cliente receba em casa com a mesma experiência que se tem no momento do preparo.
Sem falar nas indústrias de pães para hamburguer que tem receitas exclusivas que permitem que o pão não amasse no transporte. Ou nas pizzarias que alteram a hidratação da massa para que ela transpire durante o transporte e chegue com a mesma textura e sabor do salão na casa do cliente.
Importante mencionar que o potencial para escalar e crescer é muito maior e mais rápido, pois o investimento de uma chamada “dark kitchen”, como é conhecida uma cozinha de preparo voltada para operações de delivery, é consideravelmente menor do que o custo de um restaurante convencional com salão para clientes.
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Vamos falar sobre os aspectos operacionais?
Entre em uma dark kitchen durante o pico do almoço. Não existe música ambiente, não tem cliente esperando mesa, hostess ou atendente. Foco é performance, rentabilidade, otimização e agilidade máxima. Não tem preocupação estética, é uma zona de guerra. Sai a cozinhashow, entra linha de produção. Saem os garçons, entram entregadores, algoritmos, integração entre sistemas, controle de tempo, gestão de pedidos,
monitoramento de performance e inteligência operacional.
Os indicadores deixam de ser apenas ocupação de salão e tíquete médio. São: tempo de preparo, taxa de cancelamento, ranking nas plataformas, custo logístico, conversão, recompra e avaliação do consumidor. Um sistema de gestão
para entregas colapsou em duas das principais datas do ano (Dia do Hamburguer e Dia dos Namorados) e milhões de reais em faturamento foram pela janela em questão de horas. Nunca foi tão fácil conquistar um cliente. E nunca foi tão fácil perdê-lo.
O sucesso ou fracasso de um restaurante aqui é muito mais sensível e delicado, pois o cliente tem milhares de opções na ponta dos dedos. No salão, quem define boa parte da experiência é a equipe. No delivery, quem decide se o cliente vai encontrar sua marca muitas vezes é um algoritmo.
Todo detalhe importa. Aqui o cliente não vê a cozinha. Mas percebe imediatamente quando a experiência é boa ou ruim.
Em vez de debater como vender mais no delivery, talvez devêssemos discutir como administrar um negócio que nasceu para esse mercado. Porque é exatamente isso que ele se tornou.
Não estamos mais falando de um canal. Estamos falando de um mercado inteiro. De bilhões de reais.
Concorda comigo?
