A ascensão da brasilidade no cenário gastronômico e cultural tem aberto portas para a valorização de ingredientes e saberes genuínos do país.
Em alta no cenário internacional, o Brasil atrai olhares por sua cultura, cinema, música e comida. A diversidade e a força criativa do país criam um ambiente fértil para novos mercados. Como aponta a reportagem “Tá quente Brasil!”, do Futurebrand, a estética nacional ganhou tração global, vide a expansão da Farm Rio para a Europa e EUA com foco nas estampas de fauna e flora brasileiras.
Contudo, para além do entusiasmo e das tendências de mercado, aplicar essa identidade de forma consistente exige técnica, pesquisa e respeito à história de cada produto.
Para isso, especialistas e empreendedores mostram, na prática, como transformam a riqueza cultural em criações autênticas e explicam os caminhos para quem deseja incorporar a brasilidade aos negócios sem cair em clichês.
Mão na massa
Questionados sobre como o hype brasileiro têm se feito presente no dia a dia de seus negócios, os entrevistados contaram como vêm desenvolvendo seus produtos e criações neste cenário.
Produtos e empresas que nasceram de um contexto totalmente ligado a raízes culturais ou se desenvolvem em prol de não tornar a "tendência" em algo caricato, mas autêntico.
Eduardo Tristão Girão, jornalista gastronômico e especialista em queijos, explica que a ‘’Só Queijo Cura’’ trabalha com conhecimento em queijo, percebendo o crescimento desse mercado e entendendo que só é possível gerar valor se o saber andar junto.
“Atuamos com comunicação, ensino, consultoria e eventos, buscando fazer o brasileiro comer cada vez mais e melhor o seu próprio queijo. Pela natureza da nossa atuação, ocupamos uma posição privilegiada e estratégica, conectando produtores, lojistas e consumidores”, afirma.
E continua: “No momento, estamos desenvolvendo novos projetos voltados para o fortalecimento da cultura queijeira nacional junto ao público brasileiro. O mais recente é o Atlas do QMA, mais completo e atualizado mapeamento do Queijo Minas Artesanal e suas 10 microrregiões, em formato dobrável e com belíssimo trabalho de design gráfico para tornar o acesso à informação de qualidade ainda mais atraente”, conclui.
Já Fábio Sicilia, chef e chocolatier da Gaudens Chocolate, conta que a marca não nasceu a partir de uma tendência, reforçando que desde a sua criação, a ideia sempre foi construir produtos conectados ao entorno e potencial dos ingredientes brasileiros, especialmente amazônicos, mas sem transformá-los em estereótipo.
“Temos desenvolvido criações que trabalham cacau, cupuaçu, bacuri, castanhas e outros ingredientes da floresta com uma linguagem contemporânea e técnica de alto padrão, buscando mostrar que a Amazônia também pode dialogar com sofisticação internacional”, explica ele.
E prossegue: “Mais do que seguir um movimento de mercado, nosso interesse é ajudar a construir uma nova percepção de valor sobre o Brasil: um país capaz de exportar não apenas commodities, mas também conceito, experiência, identidade e valor agregado”, acrescenta.
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O "made in Brazil" sempre existiu
Dados da pesquisa Terra Insights apontam que o país atravessa um momento de exaltação em 2026 quanto a visibilidade focada em sua identidade e impulsionado pelo senso de comunidade. Além de questões ligadas a força da cultura pop, da música e da estética brasileira no exterior.
Mas para quem trabalha e pesquisa sobre brasilidade, o "hype" nunca deixou de existir e de estar conectado as suas trajetórias profissionais.
Néli Pereira explica que seu trabalho sempre esteve intrinsecamente ligado ao Brasil, seja como pesquisadora, mixologista ou jornalista há 25 anos. Ao total, fez dois mestrados em cultura brasileira e identidade cultural.
“A coquetelaria foi uma das formas que eu encontrei para falar sobre o Brasil e trazê-lo para o meu trabalho. Ela é uma delas, não é a única, e se tornou importante por causa do livro da ‘Da botica ao boteco’, já que foi uma referência para novas gerações que trabalharam com coquetelaria brasileira. Uma pesquisa que agora já tem 14 anos. O Brasil sempre estará no norte do meu trabalho”, garante.
Irina Cordeiro também ressalta que apesar do recente boom da brasilidade, o país e sua cultura sempre estiveram ligados às suas criações. Natalense (RN), Cordeiro é empresária, criadora de conteúdo e chef por trás dos restaurantes Cuscuz da Irina e Irina Beira de Praia.
“O Cuscuz da Irina, por exemplo, surgiu como um negócio que explora o monoproduto mais presente nas casas brasileiras e aliado a esse ingrediente, temos uma história de valorização ancestral que não vem apenas para mostrar que somos do Nordeste, mas como uma base verdadeiramente estrutural, cultural e de exaltação verdadeira das minhas raízes”, conta.
Segundo ela, trata-se de uma história que parte desde o plantar do milho, da dignificação de vidas, de uma cadeia produtiva que é estrutura econômica que sustenta o país.
“É a minha história, são as receitas que a minha avó fazia pra mim e esse é o desejo atual que gera busca, as pessoas precisam sentir emoção e verdade naquilo que consomem”, finaliza.
Brasilidade autêntica ou caricatura? Veja como aplicar na gastronomia
Mas, como aplicar essa alta nos negócios? Seguindo as experiências de Girão, por exemplo, é preciso oferecer produtos e serviços que satisfaçam o perfil exigente do consumidor atual.
O primeiro passo para isso é olhar ao redor: entender o seu bairro, sua cidade, seu estado, sua região, seu bioma, seus ingredientes, seus hábitos, sua cultura.Eduardo Tristão Girão
"Para ser bem-sucedido, um trabalho baseado em brasilidade deve passar por esse caminho de entendimento. Só assim se oferece algo que interessa tanto ao morador quanto ao turista. Representatividade, pertencimento e autenticidade são as palavras”, orienta.
Sicilia, por sua vez, enxerga oportunidades para empreendedores neste momento, mas alerta que não é recomendável ser somente um “surfista de hype”.
“Vejo uma oportunidade muito forte para profissionais que consigam trabalhar ingredientes brasileiros com profundidade técnica, respeito à origem e linguagem contemporânea", aponta.
Não basta utilizar um ingrediente amazônico; é preciso compreender sua cadeia, sua história e o contexto humano que existe por trás deleFábio Sicilia
Por fim, Pereira reforça que é perigoso utilizar produtos brasileiros só pelo hype, sem o manejo correto, mas celebra a adoção destes ingredientes, já que isso gera valorização, que se reflete na preservação daquele insumo e movimentação da economia local.
“É preciso de pesquisa, na gastronomia e coquetelaria não dá pra viver da moda, do ingrediente ou técnica do momento. Existe uma proliferação de técnicas que parece uma monocultura. De repente todos os estabelecimentos estão trabalhando com a mesma coisa. É preciso que alguém olhe e pense ‘vou fazer diferente, pensar em outra coisa’. Tem que tomar cuidado para não fazer parte de uma manada que pensa igual e faz tudo igual”, conclui.
