“Hype”, uma expressão cada vez mais comum, especialmente entre o público mais jovem, que significa, basicamente, aquilo que está em alta. “Bombando”, especialmente para quem é dos anos 1980 e 90. E a despeito da palavra em inglês, a “brasilidade” tem sido a grande tendência, o boom, do momento. Incluindo o cenário gastronômico.
O Brasil está em alta e atrai olhares de todo o mundo. A pluralidade do país e o potencial criativo do povo englobam vários mundos e apresentam solo fértil para, praticamente, quem quer que seja e o que quer que busque.
Para Eduardo Tristão Girão, um dos grandes especialistas em queijo do Brasil e também jornalista gastronômico, a tendência teve início nos anos 1970, quando chefs europeus vieram trabalhar em capitais brasileiras e trouxeram consigo uma filosofia de produção baseada no uso de ingredientes locais.
“Nas décadas seguintes, o amadurecimento da produção artesanal no país possibilitou que mais ingredientes brasileiros fossem incorporados pela restauração, notadamente queijos, méis, azeites, chocolates, charcutaria e doces”, afirmou Girão.
Segundo ele, esse processo de “descoberta” culminou com a valorização de técnicas culinárias regionais e, por consequência, levou ao crescimento do número de pessoas que entendem a gastronomia como uma das formas de expressão cultural de um povo.
“Ao procurar um estabelecimento gastronômico, seja qual for, essas pessoas buscam mais do que qualidade, mas também experiência, autenticidade, aprendizado. Não há mais lugar para conceitos fracos, copiados ou ultrapassados”, explica.
Fabio Sicilia, chef de cozinha, chef chocolatier e sommelier, e criador da Gaudens Chocolate, rótulo que nasceu em Belém (PA), no coração da Amazônia, entende que o mundo esteja vivendo uma saturação da padronização.
“Hoje existe uma busca crescente por origem, identidade e verdade cultural. O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta, mas durante décadas exportou matéria-prima e importou valor agregado. O que começa a mudar agora é justamente isso: o entendimento de que nossos ingredientes carregam território, memória, cultura e sofisticação sensorial”, destaca ele.
O ‘poder sutil’ da gastronomia brasileira
Néli Pereira, especialista em brasilidades, ressalta que esse hype existe, mas que não surgiu em um passe de mágica. Segundo ela, trata-se de uma conjectura que envolve a geopolítica mundial.
“Primeiro, há um incentivo diplomático de uma abertura maior do país. Depois, um incentivo cultural do Ministério da Cultura, para produtos culturais nacionais, que fazem esses produtos circularem, o turismo, isso tudo ligado a um momento em que os supostos centros de cultura e de poder estão cedendo, caso dos Estados Unidos e Europa. Há uma busca global por outros centros inspiracionais”, explica.
Pereira aponta que o poder bélico, militarizado, está perdendo espaço para o poder sutil, muito relacionado à cultura, mais constante e intenso, e que o Brasil e a América Latina estão despontando nesse cenário.
“Não é a primeira vez que acontece. Já houve momentos da história em que o Brasil esteve em destaque internacionalmente. Espero que essa procura pela brasilidade permaneça depois que esse hype passar, porque passará. Então haverá separação de quem está realmente interessado e de quem só está surfando nessa onda. Eu tenho chamado de 'brazil washing' essa lavagem em verde e amarelo, que bota ali um negócio ‘de Brasil’ só para pegar bem. Precisamos de lastro, contrapartida, de um interesse genuíno sobre esse lugar”, completa ela.
Em dado momento da entrevista, após uma das perguntas, Néli, bem-humorada e categórica, reforçou, indiretamente, seu ponto: “Não é made in brazil, é feito no brasil, né?”.
O que tornou o Brasil um hype no mundo?
A diversidade cultural do Brasil, como dito anteriormente, é uma das particularidades que o torna tão especial. Afinal, trata-se de um país com dimensões continentais. Isso faz com que o potencial criativo nacional orbite o infinito.
Fabio Sicilia entende que o “hype brasileiro” permite que o restante do mundo olhe com mais atenção para as regiões Norte e Nordeste sem exigir que elas se descaracterizem para serem aceitas.
“O Norte e o Nordeste sempre tiveram potência cultural. Existe uma riqueza estética, gastronômica e humana muito própria nesses territórios. São regiões que preservaram repertórios sensoriais únicos, ingredientes ancestrais, técnicas tradicionais e formas diferentes de relação com o alimento e com o tempo”, argumenta.
O desafio será evitar que essa valorização transforme cultura em caricatura ou apenas em exploração estéticaFabio Sicilia.
Eduardo Tristão Girão explica que atuar com o queijo, alimento mais icônico de Minas Gerais, possibilita uma série de abordagens sobre o produto. Para ele, o conhecimento adequado permite “conduzir o cliente por infinitas viagens à mesa”.
“Isso se deve ao fato de que a produção mineira está apoiada em quatro pilares: tradição, qualidade, diversidade e volume. São cerca de 300 anos de atividade. Pratos, degustações, viagens, experiências e produtos de formatos mil, para todo tipo de público. Para isso, claro, é preciso estudo teórico e bastante prática para aperfeiçoamento do que será oferecido”, aponta.
Culinária brasileira busca fugir dos clichês
A chef e empreendedora Irina Cordeiro, proprietária do Cuscuz da Irina, na capital paulista, entende que o protagonismo brasileiro vem como espelho da força de mergulhar nas próprias raízes e apresentá-las ao mundo como verdadeiramente são.
“O que está no centro do protagonismo são as narrativas reais e histórias individuais de cada um que tem ocupado esses lugares, e não uma construção imaginária artificial sobre o que pensam que é”, explica.
Ainda que entenda que a brasilidade sempre esteve presente, Cordeiro acredita que o que fez a virada de chave geral nesse cenário para maior difusão foi o entendimento do povo sobre si, sobre quem são, sobre suas tradições e origens.
“A partir disso, o movimento começa a tomar outros rumos com mudanças de comportamentos, como a escolha de matérias primas nativas valorizando a sazonalidade, os territórios, os fazeres e a singularidade que cada um carrega”, afirma Cordeiro.
Outro ponto destacado por ela é a necessidade de fugir dos clichês. “Rainha do cuscuz” e potiguar, a chef vê o protagonismo das regiões Norte e Nordeste como exemplo de autenticidade e ancestralidade, se afastando de uma construção imaginária artificial sobre o que pensam que é.
Não cair no clichê e em lugares caricatos é entender a potência desses polos e saber que sempre foram amplos. Irina Cordeiro.
Ivan Ralston, chef do prestigiado restaurante Tuju, também na capital paulista, defende que é preciso buscar uma identidade real e não querer criar um discurso nacional, o que considera “uma grande bobagem”.
“Não existe um discurso que unifique o Brasil como um todo. Existem diferentes maneiras de enxergar e viver esse país. Acho que para vender para o mundo, de maneira honesta, é preciso vender as regiões, cada uma com seu jeito de ser, sem buscar uma identidade única, que na verdade vai acabar mascarando a complexidade que esse país tem”, aponta.
Ele acrescenta que um bom caminho é unir isso com operação, não ficar só na história, representatividade em cenário, sabores. “É importante entender realmente qual é o nosso jeito de servir. Precisa ser igual ao jeito europeu? Eu entendo que não. Então, como é a hospitalidade brasileira? É preciso começar a fazer esse tipo de questionamento e transmitir isso para o cliente também”, pontua.
*Texto produzido por Maic Costa e adaptado da edição #171 da Revista B&R
