Aconteceu comigo ontem: um amigo me enviou pelo Instagram o link de um restaurante. É bem perto de casa, aqui na rua Major Sertório, no centro expandido de São Paulo. Lugar simples, preço atraente e comida gostosa.
Eis que nos comentários da postagem (o umbral da internet contemporânea). um comentário me assustou: “ah não, esse restaurante não pode ficar hypado”.
A pessoa estava declaradamente torcendo contra o sucesso do lugar. Como assim? É medo de outras pessoas descobrirem o lugar, ficar sempre cheio, os preços inflarem, e o dono - com dinheiro no bolso - perder a humildade?
É como vovó já dizia: “compartilhe os brinquedos com seus coleguinhas”. Faltou isso para o sujeito do comentário: olhar além do umbigo. Cá entre nós, é muito mesquinharia você guardar tesouros só pra você.
Me lembrei de uma entrevista antiga que fiz com Daniel Neto, o Nenel da Baixa Gastronomia, para o podcast O Café e a Conta. Nenel, jornalista de formação e com mais de 900 mil seguidores no Instagram, sempre soube da responsabilidade de seu conteúdo e do impacto que um elogio pode render para o sucesso de um boteco. (e consequentemente o poder de uma crítica para o fracasso de outros bares).
Um bar ou restaurante faz parte do imaginário coletivo das cidades: os restaurantes que íamos quando éramos pequeninos, os bares que vamos depois do trabalho, o título do seu time que você viu no bar do seu bairro. Tudo isso é divino e maravilhoso, mas um bar também é um negócio, e como todo negócio precisa ser financeiramente sustentável, ninguém vive só de memória.
Imagine só você ganhar o concurso O Quilo é Nosso e ser reconhecido como o melhor restaurante a quilo do Brasil, um prêmio com a chancela da Abrasel e da revista Prazeres da Mesa. As possibilidades de ações de marketing são muitas.
Imagine também o seu bar ganhar uma foto no feed do Instagram do Baixa Gastronomia? As possibilidades de ganho também são muitas; seu estabelecimento “rompe bolhas” e é apresentado pra uma gama de público diferente dos habituais. Você pode vender mais, melhorar o cardápio, empregar mais profissionais, reformar o banheiro do restaurante e quem sabe talvez até pagar uma aula de natação ou um curso de inglês pro seu filho.
Mas tem gente que acha que isso é um sacrilégio. O seu estabelecimento merece estar fadado a ser eternamente um copo sujo, como você deseja. Afinal, o que vale é o capricho de ter um bar “de estimação” só seu e de mais ninguém.
É como diria Tom Jobim: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal".
E assim seguimos.
Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade da autora.
