Tem uma palavra que faz Gero Fasano virar os olhos: experiência. À frente do Grupo Fasano, composto de 26 restaurantes e nove hotéis, o restaurateur explica: quando você começa a chamar tudo de experiência, deixa de olhar para o que realmente importa.
A indústria se perdeu em conceitos, enquanto deveria estar observando o que as pessoas realmente querem quando abrem a porta de um bar ou restaurante.
Vamos imaginar uma cena: um homem chega ao bar, quer conversar com um amigo, deseja uma bebida boa e uma comida que cumpra suas expectativas. Quando esse lugar vira um cenário excessivamente performático (exige ser fotografado, compartilhado, certificado) seu propósito muda. A questão é: pra melhor ou pior?
Gero defende que a experiência tem um valor subjetivo e está ligado principalmente às artes e a tecnologia. Em seu canal no Youtube, ele brinca: “eu adoraria entrar numa câmara sem gravidade, para ter a experiência de um homem que foi à lua, mas não posso dizer que gostaria de acordar de madrugada para ver um leão no safari. Às 3h30 a experiência que gosto é dormir”. Fazer o essencial com excelência.
Quando parte da indústria gastronômica mira na inovação, pode acabar acertando em um status vazio. São palavras até bem intencionadas, mas que não significam quase nada: “verdadeira imersão”, “explosão de sabores”, “experiência inenarrável”. “Odeio tudo aquilo que é over”, disse Gero em uma excelente entrevista à revista Forbes. A busca deveria ser sempre por qualidade.
Vale lembrar que hospitalidade é também leitura de contexto e para isso não precisamos reinventar a roda. É o garçom que percebe quando o cliente quer quietude, a bartender que “sente o clima” e sabe conversar para sugerir o drinque certo ao cliente certo sem necessariamente fazer um discurso inchado e performático sobre ele.
Essa hospitalidade, quando genuína, “desaparece” na execução. Isso porque ela vive no comportamento das pessoas que trabalham no lugar. É a tal da “cultura da marca”.
Talvez por isso Fasano rejeita os rankings de “melhor restaurante disto ou daquilo”. Bares e restaurantes não são competições desportivas: não há critério universal! Uma marca compete com a qualidade do seu próprio trabalho, não com outra casa. Se você faz um prato simples bem, as pessoas voltam. Isso é vitória, e não a colocação em nenhuma lista.
Tudo isso que Fasano fala aponta para uma coisa: voltar ao básico feito com excelência. Um bar é um lugar. As pessoas chegam lá para conversar, beber, comer. Se consegue oferecer tudo isso bem, sem drama, sem viralidade obrigatória, sem chamar nada de imersivo, funciona. Isso é suficiente. Isso é tudo.
Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade da autora.