Em nosso país, não raras vezes, debates da mais alta importância são substituídos por disputas políticas. Temas hiper-relevantes na vida de todo brasileiro, que deveriam ser discutidos de forma profunda pelos respectivos especialistas, são cooptados por pautas ideológicas e acabam reduzidos a debates absolutamente rasos, pautados por influenciadores e frases de efeito.
Esse foi o caso do debate acerca do fim da jornada 6x1. A discussão sobre algo tão sério, que afeta a vida de milhões de brasileiros, ficou resumida a um bobo embate entre esquerda e direita. E, no meio dessa captura ideológica, o assunto da saúde mental veio à tona. Um dos principais argumentos a favor do fim da referida jornada é o de que a pessoa que trabalha menos terá maior saúde mental. Eu truco e explico.
Imagine você trabalhando seis dias por semana em um local no qual sua saúde mental é atacada diariamente por gestores que não o respeitam, por uma carga de trabalho acima daquela que você é capaz de suportar e por um trabalho que não parece fazer sentido.
A tendência, claramente, é a do adoecimento no contexto de trabalho. Agora, mantenha essas mesmas condições de trabalho e tire apenas um dia: em vez de estar sujeito a essas mesmas (e adoecedoras) condições de trabalho em seis dias da semana, você estará sujeito a elas por cinco dias na semana.
Qual é a tendência da sua saúde mental? Também a da deterioração.
Trabalhar menos não vai fazer o problema sumir. Pode ajudar minimamente na recuperação do trabalhador, mas não elimina a clara tendência de piora quando se está exposto a ambientes doentes, independentemente da frequência da exposição.
A grande questão aqui, quando se analisa esse tema à luz da saúde mental, é a necessidade de melhorar os ambientes de trabalho, e não diminuir o número de dias trabalhados. Soluções massificantes, que não contemplam a complexidade e a individualidade do ser humano na resolução de questões de saúde mental, geralmente não funcionam.
Acredito que um olhar mais próximo ao da atualização da NR-1, focado na melhoria do contexto de trabalho, e não no afastamento do sujeito do trabalho, como prevê o fim da jornada 6x1, possa ser muito mais efetivo para a resolução de questões de saúde mental.
Aprofundar esses debates e fazê-los longe das luzes políticas e ideológicas é fundamental para chegarmos às respostas corretas para os problemas postos. No caso do fim da 6x1, vários argumentos podem ser utilizados para sustentar seu fim, mas colocar a melhoria da saúde mental nesse bolo me parece mais proselitismo político do que uma medida realmente eficaz.
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