Historicamente, as mulheres representam a força de trabalho que sustenta a gestão doméstica e as cozinhas. No entanto, o exercício dessas atividades é marcado por embates sociais que evidenciam o abismo entre a realidade e o ideal de equidade. Apesar disso, o papel feminino é um pilar do desenvolvimento econômico, o que se reflete de forma expressiva nos números do mercado de alimentação fora do lar.
Segundo dados de 2026, da Receita Federal, em levantamento realizado pela Abrasel, as empreendedoras são a maioria na liderança nos negócios de alimentação fora do lar. Conforme apresentado, 52,7% dos negócios são comandados por mulheres, enquanto 47,3% são liderados majoritariamente por homens, apresentando uma diferença de 75,8 mil empresas.
Para Rosane Oliveira, presidente do Conselho de Administração da Abrasel, os números representam uma mudança significativa e permanente no setor. “As mulheres estão imprimindo um novo ritmo ao setor. Elas inovam, cuidam de perto da operação e exercem uma liderança que qualifica os bares, restaurantes e serviços de alimentação no país. Não é apenas uma tendência: é uma mudança definitiva”, afirma Oliveira.
Liderança feminina é maioria
Além da representação geral, o levantamento também apresenta números importantes sobre a representatividade das lideranças femininas nos estados brasileiros. Como o divulgado, "a distribuição regional reforça que essa representatividade está presente em grande parte do território nacional", veja a seguir o ranking dos cinco estados que registram proporção feminina superior à masculina à frente dos negócios de alimentação:
- Rio de Janeiro (52,86%)
- Espírito Santo (52,02%)
- Bahia (50,86%)
- Rio Grande do Sul (50,68%)
- Minas Gerais (50,14%)
Em São Paulo, cidade com a maior população do país, o índice chega a 49,13%, apontando um cenário muito próximo à paridade.
Apesar do cenário promissor, as mulheres ainda seguem lutando pelo espaço de equidade no mercado. Valéria Henriques, proprietária do Restaurante Mari Mariá, em São Paulo, conta que sua visão do setor é promissora, pois acredita que o mercado mudou e hoje não possui tantas dificuldades.
"Particularmente, adoro atuar nesse setor e não vejo problemas em relação à questão de gênero. No entanto, evidentemente existem diferenças entre os nichos: o setor de padarias, por exemplo, é mais complexo, predominantemente masculino e apresenta maiores desafios para a atuação feminina. No geral, acredito que as barreiras nas oportunidades são de natureza econômica, e não necessariamente pautadas por gênero", afirma.
Henriques aconselha as mulheres que desejam atuar no setor: "hoje apenas saber cozinhar não basta. É indispensável ter conhecimento em gestão e relacionamento, tanto com colaboradores quanto com clientes. Todas as frentes devem ser muito bem exploradas, incluindo as redes digitais", ensina. Para ela o essencial é não fazer "mais do mesmo", pois a exclusividade no que se propõe a entregar é de fundamental importância. "É muito melhor fazer o simples com excelência do que o sofisticado com decadência", encerra.
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Setor na contramão
O mercado de alimentação fora do lar apresenta um cenário que está na contramão do cenário de estagnação do restante do país. Em publicação, o LinkedIn Notícias aponta que "a representação feminina na liderança estagnou e o ritmo das contratações começou a retroceder no país em 2025". A publicação indica que apesar da força de trabalho feminina representar 45,2% no país, as mulheres ocupam apenas 32,2% dos cargos de decisão.
Esse dado sinaliza a estagnação do índice visto que após anos de progresso constante, ele se estagnou. Os dados mostram que "as contratações para postos de liderança atingiram um pico de 34,1% em 2022, mas têm diminuído desde então e, no último ano, chegaram a 32,4%, uma queda acumulada de 1,7 ponto percentual".
Ao LinkedIn Notícias, a especialista em liderança feminina e cofundadora da Todas Group, Dhafyni Mendes, pontua que para mulheres estarem em locais de liderança é necessário olhar as estruturas.
"O desafio está em estruturas organizacionais que ainda distribuem de forma desigual as oportunidades de progressão, o acesso às experiências que levam ao topo e as condições de permanência. E consertar o primeiro degrau é a estratégia mais rápida para elevar a qualidade das decisões da companhia."
