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A Veja acertou. Mas esqueceu de falar sobre o verdadeiro futuro dos bares de vinho no Brasil

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Diego Bertolini
Diego Bertolini

Especialista em vinhos

1 hora, 4 minutos atrás

A capa da Veja São Paulo, na edição de 17 de julho, confirmou algo que, aqui no Grupo Venda Mais Vinho, já vínhamos observando de perto há alguns anos: os bares de vinho estão em franca expansão pelo país. O vinho deixou de ser reservado a datas especiais e virou parte da rotina de quem busca uma experiência diferente para o happy hour, o encontro com amigos ou até um jantar a dois.

Ambientes descontraídos, curadoria bem pensada, vinhos servidos em taça e uma gastronomia mais enxuta mudaram a forma como o brasileiro se relaciona com a categoria.

A reportagem está certa. Mas, na nossa visão, ela conta só metade da história.

O movimento não é só de São Paulo

A primeira coisa que precisa ficar clara: esse crescimento não é um fenômeno paulistano. Estamos vendo bares de vinho nascerem em capitais, em cidades médias e até em praças que, até pouco tempo atrás, ninguém apostava como mercado para vinho.

O consumidor brasileiro amadureceu. Ele busca experiência, quer aprender enquanto bebe, e perdeu o receio de entrar em um lugar especializado achando que "não vai entender nada do cardápio". Isso é ótimo. É a democratização de um universo que, por muito tempo, pareceu reservado a poucos.

A pergunta não feita: abrir um bar é suficiente?

Aqui está a segunda observação, é ela a mais importante de todas: será que apenas abrir um bar de vinhos garante um negócio sólido e rentável?

Na nossa experiência, a resposta é não.

Ao longo dos últimos anos, o Grupo VENDA+VINHO já analisou, mentorou ou acompanhou de perto quase cinco mil negócios ligados ao mercado de vinhos - lojas, importadoras, vinícolas, distribuidores, supermercados, restaurantes e bares. E existe uma conclusão que se repete quase sem exceção: os negócios mais consistentes são os que não dependem de um único canal de receita.

O bar de vinhos, isoladamente, é um ótimo ponto de partida. Ele aproxima o consumidor, estimula a experimentação, cria vínculo e entrega uma experiência que o supermercado nunca vai oferecer. O problema começa quando toda a operação fica presa a esse único formato. Depender só do consumo dentro do estabelecimento significa depender do número de mesas ocupadas, da sazonalidade do movimento, dos custos crescentes de operação (aluguel, equipe, insumos) e da capacidade física do espaço, que não cresce junto com a demanda.

Um bar lotado numa sexta-feira e vazio numa terça não é um problema de marketing. É um problema de modelo de negócio.

O bar como centro de um ecossistema

É por isso que defendemos algo diferente: o bar não precisa ser o negócio inteiro. Ele pode (e deve) ser o centro de um ecossistema.

A mesma operação que serve uma taça hoje à noite pode, ao mesmo tempo:

  • Vender garrafas para consumo em casa
  • Operar uma loja física complementar
  • Ter um e-commerce próprio
  • Realizar eventos temáticos e degustações
  • Oferecer cursos e vivências sobre vinho
  • Criar um clube de assinatura
  • Construir uma comunidade de clientes apaixonados pela categoria

Cada uma dessas frentes amplia a recorrência de compra, aumenta o tíquete médio do cliente ao longo do tempo e, o mais importante, reduz a dependência de uma única fonte de faturamento. Se uma semana o movimento no salão cai, o e-commerce, o clube de assinatura ou um evento fechado seguram o resultado do mês.

Vender vinho é fácil. Construir relacionamento é o diferencial

Aqui está o ponto que separa um bar de vinhos qualquer de um negócio de vinhos que dura:

Quando um cliente participa de uma degustação, aprende sobre uma região produtora ou conhece a história por trás de uma uva, ele deixa de comprar apenas uma garrafa. Ele passa a comprar confiança, conhecimento e experiência. E o cliente que vive uma experiência volta com muito mais frequência do que aquele que apenas consumiu um produto.

É essa diferença entre vender um item e entregar uma experiência que explica por que alguns bares de vinho enchem todo mês e outros vivem na corda bamba.

FIGIÊNCIA: físico, digital e experiência como um só sistema

No Grupo VENDA+VINHO, chamamos esse conceito de FIGIÊNCIA: a integração entre o físico, o digital e a experiência.

Na prática, funciona assim: o cliente conhece o seu negócio no bar. Compra uma garrafa para levar para casa. Continua sendo impactado pelo seu conteúdo nas redes sociais durante a semana. Recebe uma oferta pelo e-commerce. É convidado para um evento. Participa. Volta para uma nova experiência.

Cada ponto de contato fortalece o seguinte. O físico alimenta o digital, o digital traz o cliente de volta ao físico, e a experiência é o fio que costura tudo isso, transformando um consumidor ocasional em um cliente fiel, que gasta mais e indica seu negócio para outras pessoas.

O começo de um movimento, não o fim dele

A matéria da Veja mostra que os bares de vinho estão em alta agora. Nós acreditamos que isso é apenas o começo.

O crescimento real do setor não vai acontecer apenas pela abertura de novos endereços. Vai acontecer à medida que os empresários entenderem que o futuro não está simplesmente em abrir um bar, mas em construir modelos de negócio integrados, capazes de gerar relacionamento, recorrência e rentabilidade ao mesmo tempo.

O vinho deixou de ser apenas uma bebida. Hoje, ele é uma experiência e essa mudança abre espaço para negócios muito mais completos do que aqueles que dependem exclusivamente do consumo dentro de quatro paredes.

Os bares de vinho têm, portanto, uma oportunidade enorme pela frente. Mas os que realmente vão se destacar não serão necessariamente os que tiverem mais mesas, mais rótulos ou o ambiente mais bonito. Serão aqueles capazes de transformar cada taça em uma porta de entrada para um relacionamento que continua depois que o cliente vai embora.

Porque o futuro dos bares de vinho não está apenas no salão. Está em tudo o que pode acontecer antes, durante e depois dele.

Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor. 

Diego Bertolini
Diego Bertolini

Especialista em vinhos

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