O Piccoli Cucina nasceu de uma necessidade da própria chef Kamili Piccoli. Vegana há 20 anos, sempre esteve acostumada a explorar a culinária sem ingredientes de origem animal. Ela começou organizando jantares secretos dentro da própria casa, projeto que cresceu e se tornou o restaurante de sucesso que é hoje.
À frente do negócio, Kamili e sua sócia, Roberta Pompone, ambas atletas amadoras, enxergaram no esporte uma forma de fortalecer a comunidade em torno do restaurante. Dessa aproximação nasceu o Vegan Sport Club, plataforma criada para aproximar atletas veganos do público e desconstruir o estigma de que dieta vegetal e alto desempenho físico não andam juntos.
Em meio à ascensão das canetas emagrecedoras e a uma nova onda de paranoia alimentar, Kamili também comenta os rumos do mercado plant-based no Brasil, a relação de esporte e comunidade, e a diferença dos consumidores brasileiros em relação a outros países
Confira o episódio #141 de O Café e a Conta:
B&R: Como o Piccoli começou e como vocês estão criando senso de comunidade, principalmente em relação ao esporte?
Kamili Piccoli: O Piccoli começou dentro da minha casa, há mais de 10 anos, onde eu fazia jantares secretos. Organizava pelo Facebook, sinalizava o tema, as pessoas reservavam por e-mail e só descobriam o menu quando chegavam lá. Comecei fazendo uma vez por mês, e esses jantares foram crescendo e eu fui aumentando a frequência. Quando eu vi tinha um restaurante acontecendo dentro da minha casa.
Então eu me mudei e deixei a casa para o restaurante, fui fazendo adequações e a coisa foi tomando uma proporção cada vez maior. O restaurante começou a ter o brunches, jantares, almoços e aí veio a pandemia. A gente estava no auge e passou a funcionar só com delivery e encomendas de rotisseria, bolos, cestas, e etc.
Depois da pandemia o restaurante estava bombando muito e a gente sentiu a necessidade de um espaço maior. Foi quando passamos a procurar uma casa com espaço de restaurante mesmo, porque até então era só uma casa adaptada. E viemos para a Francisco Leitão, 272, em Pinheiros, a nossa casinha de agora.
E entramos nesse momento com o esporte porque eu e minha sócia praticamos esporte, ela é boxeadora e eu corredora, e entendemos que fazia muito sentido porque uma coisa está totalmente conectada à outra. A alimentação saudável é a base pra fazer qualquer esporte em qualquer nível.
Você criou o Vegan Sports Club. Pode explicar o que é o projeto e qual é a proposta dele?
A ideia do Vegan Sport Club é ser uma plataforma para compartilhar informação e criar essa comunidade mesmo. Então, eu comecei apresentando alguns atletas e nutricionistas que eu conheço e são do meu convívio para dar exemplos da vida real. Porque eu acho que ainda existe muito um estigma de que a pessoa vegana é aquela triste, anêmica e sem energia. Não, existem várias pessoas que são atletas e veganos.
Nesse momento que estamos vivendo, com canetas emagrecedoras, o que você está enxergando de ocasião de consumo e comportamento dos consumidores? Como o Piccoli está se adequando a isso?
Não estamos nos adequando. A gente segue fazendo o que sempre fez: vendendo comida de verdade. O que eu tenho adequado é a comunicação, para mostrar que estão ficando malucos. A gente precisa falar sobre comida de verdade, porque houve uma onda da comida de verdade e veganismo e, do nada, as pessoas não querem mais comer fruta, tofu, carne, só proteína e fibra. Precisamos voltar para a realidade. Sim, vamos praticar esportes, vamos nos alimentar bem, mas sem paranoia e sem hiperfoco em macronutrientes.
Ainda é necessário educar o público e explicar que uma comida pode ser boa sem carne, ou essa ideia de que a gastronomia vegana precisa provar sua qualidade já está ultrapassada?
A gente continua precisando educar esse público, é uma missão para sempre. E eu falo para a minha equipe que aqui a gente não tem só a obrigação de fazer uma comida boa, mas uma comida extraordinária. Porque a maior parte do meu público é uma pessoa vegana que traz a família ou amigos que não são veganos, e eles confiam no Piccoli e confiam que aqui essas pessoas vão gostar da comida.
Quando alguém vai em um restaurante qualquer e não gosta, tudo bem, não vai ser uma grande questão. Mas se vai a contragosto em um restaurante vegano, porque o amiguinho vegano levou, e não gosta da comida aí com certeza é porque comida vegana é sem graça. Então eu tenho a obrigação de surpreender.
Vocês já pegaram clientes de surpresa? Que comeram sem saber que era vegano?
Sim, nós somos veganos discretos, não temos uma grande placa sinalizando e nem ficamos reforçando nas redes sociais. Nosso menu é todo descrito com as palavras "carne", "queijo", etc., só lá no finalzinho que tem um asterisco dizendo que é vegano. Então já pegamos pessoas de surpresa, que comeram e gostaram, e tem gente que nunca nem percebeu, porque é realmente muito parecido.
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Como você enxerga esse momento do mercado de produtos plant-based, considerando que grandes marcas, como a Fazenda do Futuro, que tiveram uma ascensão muito forte, hoje parecem estar com menos oferta e espaço nos mercados?
Aqui no Brasil a gente tem um perfil de público vegano muito diferente de outros países. Nos Estados Unidos e na Europa as pessoas comem muito industrializado. Quando dizem que esses lugares são um sonho para veganos, é sempre se referindo à comida industrializada encontrada em mercados. E aqui no Brasil, as pessoas que vão para esse lado da cozinha plant-based querem distância de ultraprocessados e buscam alimentos mais in natura.
Ao mesmo tempo, entendo a importância desses produtos, principalmente pelo alcance das grandes indústrias. O que vejo de interessante em marcas como a Vida Veg é justamente uma adaptação ao perfil brasileiro, com produtos industrializados, mas com listas de ingredientes mais simples.
Como você enxerga a evolução do mercado nos últimos anos, com cada vez mais restaurantes incluindo opções sem carne no cardápio? Esse movimento também tem a ver com o poder de influência desse público nas escolhas de onde os grupos vão comer?
Eu enxergo como uma evolução. Apesar de estarmos vivendo uma queda do mercado plant-based, isso não significa que exista uma queda no número de pessoas veganas ou vegetarianas. O boom do veganismo serviu para educar muito o público. Hoje, é muito mais fácil falar que você é vegano e as pessoas entenderem o que isso significa.
E os restaurantes também passaram a oferecer alguma opção. Às vezes não é a melhor, pode ser só um palmito ou uma salada, mas existe. Acho importante continuar esse trabalho de educação, quanto mais lugares tiverem boas opções, mais fácil fica para veganos comerem bem em qualquer lugar do Brasil.
