Independente do negócio que se decida abrir no ramo de alimentação fora do lar, empreender é sempre um movimento de fé (que vai dar tudo certo) e de coragem, especialmente em um país onde, reconhecidamente, muitos empreendimentos não ultrapassam o primeiro ano de vida.
Do ponto de vista burocrático, o Brasil até surpreende. Abrir um CNPJ, elaborar contrato social, abrir conta em banco e colocar a empresa de pé se resolve em poucos dias. Talvez isso seja até positivo, porque nessa fase inicial o entusiasmo costuma falar mais alto do que o bom senso. Aqui nessa fase o dinheiro corre solto entre obras, mobiliário, equipamentos, estoque inicial, contratações, licenças e uma infinidade de detalhes que parecem pequenos, mas custam muito.
E todos nós precisamos concordar em um ponto: qualquer operação nesse segmento é extremamente complexa. Começando na estrutura, que vai desde o piso da área molhada até salas de lavagem, coifas, bancadas, áreas de preparo, descanso, gestão de resíduos e segurança.
Aí entra a armazenagem e o preparo, com uma gama de equipamentos que parece não ter fim: geladeiras, freezers, fatiadoras, moedores, seladoras, processadoras, fornos dos mais variados tipos, tachos, fritadeiras, defumadores, churrasqueiras, grelhas, panelas de todos os tamanhos, pistas quentes, cubas e GN’s. E isso porque ainda não falamos do salão e nem chegamos perto do bar. Jesus amado, é muita coisa.
Mas espera que ainda tem mais!
Soma nessa lista: definição do cardápio, precificação, compras, controle de estoque, perdas, desperdícios, fornecedores, logística, delivery, experiência do cliente, marketing, redes sociais, avaliações online, legislação sanitária, fiscal e trabalhista. E para completar, o combustível que faz esse motor girar: a mão de obra. Só esse tema já daria uma série de artigos para o ano todo; gestão de pessoas, treinamento, cultura, escala, motivação, rotatividade e liderança.
Nos últimos anos, a caneta e a caixa registradora deram lugar aos sistemas, que controlam desde notas de entrada até desperdícios, permitindo acompanhar cada centavo que circula no negócio. A tecnologia ajuda, mas também exige conhecimento, disciplina e tomada de decisão constante.
Obviamente, o empreendedor é um ser inquieto e o mercado já desenvolve e oferece formações, cursos, consultorias e outros que ajudam muito, de forma estruturada e educativa, a encontrar formas de resolver problemas e melhorar o dia a dia do negócio. O governo tem várias iniciativas nesse sentido e a própria Abrasel, que está começando as comemorações de 40 anos, faz um trabalho brilhante oferecendo várias ferramentas para capacitar e municiar o empreendedor com ferramentas para seu negócio, além de acompanhar e amparar ao longo da caminhada.
Portas abertas, aí, sim, o jogo começa de verdade. A inauguração passa, os amigos dão os parabéns, a festa acaba, limpa-se o salão e, no dia seguinte... o empreendedor está por conta própria. A partir dali, é ele com seus pensamentos, dúvidas, angústias e decisões. Só ele e ele mesmo. Às vezes tem um sócio, a esposa, o pai ou algum familiar por perto, mas, no fim das contas, as decisões mais duras acabam recaindo sobre uma única pessoa.
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Tudo isso para te perguntar: como alguém consegue dar conta de tudo isso sozinho? E mais: com quem essa pessoa pode dividir seus dilemas? Para quem ele pode perguntar se aquilo que ele está fazendo é certo ou errado? Tem jeito melhor, mais barato ou mais eficiente de fazer? Tem acesso a muito conhecimento, mas não com que maturar sobre o
que vive.
Na minha opinião, depois de anos conversando com donos de bares e restaurantes, é impossível não afirmar algo que todos sentem, mas poucos falam: empreender no food service é, muitas vezes, profundamente solitário.
Mas algo vem ganhando força e relevância: as comunidades segmentadas por tipo de culinária e perfil de operação. Grupos e encontros pensados para quem vive a mesma realidade. Projetos exclusivos para donos de pizzarias como o Pizza Masters, para hamburgueiros, como Burger Tour e Burger Crew e para pasteleiros, como o Pasteleiros do Brasil e a Expo Pastel. Mais do que conteúdo técnico, esses eventos criam ambientes de troca genuína.
Neles, o empreendedor encontra conhecimento prático, se aproxima da indústria que orbita sua operação e, principalmente, encontra seus pares. Antes eram vistos como concorrentes, mas passam a ser vistos como colegas e aliados unidos pelo mesmo objetivo. São empresários com as mesmas dores, desafios, erros, acertos e objetivos.
Criam-se comunidades fortes, conexões genuínas e relações de confiança que geram aprendizado contínuo, parcerias e prosperidade para todos. Empreender continuará sendo desafiador. As decisões difíceis não vão desaparecer. Mas elas não precisam mais ser tomadas no isolamento. Quando o empreendedor se conecta com outros que vivem a mesma jornada, encontra também pessoas que se ajudam, remando na mesma direção.
No fim, talvez a maior força de um negócio não esteja apenas na cozinha, no salão ou no caixa, mas na rede de pessoas que caminham juntas, trocando experiências, aprendendo umas com as outras e provando, na prática, que empreender não precisa ser solitário.
Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor.
