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“Ninguém quer trabalhar.” Será mesmo?

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André Datrato
André Datrato

Porta-voz do Burger Crew

1 hora, 35 minutos atrás
Existe uma frase que tenho escutado cada vez mais entre donos de restaurantes: “Hoje ninguém quer trabalhar.” E antes de simplesmente discordar dela, precisamos reconhecer que existe uma dificuldade real por trás dessa reclamação. Trabalhar com food service (Alimentação fora do lar) nunca foi simples, mas contratar e manter pessoas parece ter se tornado ainda mais difícil nos últimos anos.
 
Nosso mercado funciona justamente quando boa parte das pessoas está descansando. Trabalhamos à noite, aos sábados, domingos e feriados. Enquanto uma família comemora o Dia das Mães em volta de uma mesa, existe uma equipe trabalhando para que aquela experiência aconteça. No Natal, no Ano Novo, no feriado prolongado ou naquela sexta-feira à noite em que todo mundo quer sair para comer, alguém precisa estar do outro lado do balcão. Essa sempre foi uma característica do nosso setor. O que talvez ainda não tenhamos percebido completamente é que o mundo mudou, as pessoas mudaram e, consequentemente, a relação delas com o trabalho também mudou.
 
Durante muito tempo, contratar era quase um processo de seleção no sentido literal da palavra. Você anunciava uma vaga, apareciam vários candidatos e conseguia escolher aquele com mais experiência, melhor currículo, melhor postura ou maior potencial. Hoje, muitos empresários vivem uma realidade completamente diferente. A vaga fica aberta durante semanas e, quando finalmente aparece alguém interessado, muitas vezes a pergunta deixou de ser “Será que essa pessoa tem o perfil que eu procuro?” e passou a ser “Quando você consegue começar?”.
 
Isso muda completamente a lógica da gestão. Se antes conseguíamos procurar pessoas prontas, cada vez mais teremos que aprender a formar pessoas. Talvez uma das maiores competências das empresas nos próximos anos não seja encontrar excelentes profissionais no mercado, mas conseguir pegar pessoas comuns, identificar potencial, ensinar, acompanhar e transformá-las em bons profissionais.
 
O problema é que formar alguém exige uma coisa que nem todo empresário ou gestor está disposto a oferecer: tempo. É muito mais fácil reclamar que o funcionário não sabe do que ensinar. É mais rápido substituir do que desenvolver. É mais confortável dizer que “essa geração não quer nada” do que tentar entender o que essa geração espera da relação com o trabalho. E entender não significa concordar com tudo.
 
Esse ponto é importante porque humanizar a gestão não pode ser confundido com deixar de cobrar. Empresa precisa de regra, horário, padrão, meta, responsabilidade e consequência. Um restaurante não consegue funcionar se cada pessoa decidir quando quer chegar, como quer executar uma tarefa ou quais regras pretende seguir. Liderança humanizada não é passar a mão na cabeça. Pelo contrário: acredito que um ambiente saudável é justamente aquele em que as expectativas são claras. O funcionário precisa saber exatamente o que a empresa espera dele, mas também precisa saber o que pode esperar da empresa.
 
Salário, obviamente, faz parte dessa equação. Mas acreditar que dinheiro explica sozinho por que alguém fica ou vai embora é simplificar demais a gestão de pessoas. Existem profissionais que deixam empresas porque não enxergam futuro, porque não suportam mais o ambiente, porque trabalham meses sem receber um reconhecimento ou porque possuem líderes que só aparecem quando alguma coisa dá errado. Existe uma diferença enorme entre trabalhar muito e trabalhar em um lugar onde você sente que não importa.
 
 
E o food service já é naturalmente pesado. Existe pressão, cliente reclamando, horário de pico, cozinha quente, cansaço, sábado, domingo e feriado. Não conseguiremos eliminar essas características da operação. O que podemos fazer é não colocar uma liderança ruim em cima de um trabalho que já é naturalmente difícil.
 
Talvez por isso um dos maiores desafios do gestor moderno seja aprender a observar pessoas. Aquele funcionário que sempre foi comunicativo ficou quieto. A pessoa que nunca atrasava começou a chegar atrasada. Alguém extremamente cuidadoso começou a cometer erros básicos. É claro que existem casos de irresponsabilidade, desinteresse e falta de comprometimento. Mas nem toda mudança de comportamento significa preguiça ou má vontade. Às vezes existe alguma coisa acontecendo por trás daquele uniforme.
 
Isso não significa que o gestor tenha que se transformar em psicólogo. Significa apenas que cuidar de pessoas também é aprender a perceber pessoas. Existe uma diferença enorme entre cobrar alguém e conhecer alguém. Quanto mais conhecemos nosso time, mais rapidamente conseguimos perceber quando alguma coisa saiu do lugar e, muitas vezes, uma conversa no momento certo evita um problema muito maior no futuro.
 
Talvez, então, estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de repetirmos “Por que ninguém quer trabalhar?”, poderíamos começar a perguntar: “Por que alguém escolheria trabalhar comigo?”. Essa pergunta incomoda muito mais porque agora não estamos analisando apenas o comportamento do funcionário. Estamos colocando nossa própria empresa diante do espelho.
 
Qual ambiente estamos oferecendo? Como nossos líderes tratam as pessoas? Existe possibilidade de crescimento? Existe reconhecimento? As regras são claras? As pessoas entendem por que fazem aquilo que fazem? Quando alguém erra, ensinamos antes de simplesmente atacar? E quando alguém acerta durante meses, nós percebemos?
 
Durante muito tempo acreditamos que administrar um restaurante era controlar estoque, CMV, ficha técnica, escala, vendas e fluxo de caixa. Tudo isso continua sendo fundamental, mas existe uma variável que atravessa absolutamente todas as outras: gente. É gente que recebe seu cliente, produz seu produto, abre sua loja, fecha sua operação depois de um sábado exaustivo e protege — ou destrói — sua cultura quando você não está olhando.
 
Por isso acredito que o próximo grande salto de profissionalização do food service brasileiro não acontecerá apenas dentro das cozinhas ou através de novas tecnologias. Ele acontecerá na maneira como aprendemos a liderar.
 
Talvez realmente esteja cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a trabalhar no nosso mercado. Mas existe outra verdade que nós, empresários, precisamos ter coragem de encarar: bons profissionais também estão procurando bons lugares para trabalhar.
 
Então, da próxima vez que vier aquela vontade de dizer que “ninguém quer trabalhar”, talvez valha trocar a reclamação por uma pergunta.
 
Será que as pessoas querem trabalhar aqui?
 
Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade da autora. 
André Datrato
André Datrato

Porta-voz do Burger Crew

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