Bares e restaurantes são um registro social. É neles que muitas das representações das camadas da sociedade se apresentam e se projetam, por isso, eles se destacam quando o assunto é incluir pessoas. Tanto é que neste cenário pensar a acessibilidade em restaurantes, bares, padarias, lanchonetes e demais estabelecimentos de alimentação é assunto importante para o fortalecimento do mercado de alimentação fora do lar.
Segundo censo do IBGE, o Brasil conta com 18,6 milhões de pessoas com deficiência (PCD), uma grande parcela da população do país, sendo maior do que o número de habitantes da cidade de São Paulo (desconsiderando a região metropolitana). Esse número mostra a representatividade das pessoas com deficiência na sociedade brasileira.
Desta forma, pensar a inclusão é mais que uma ação ASG, é também ampliar o mercado, acolher e dar lugar à diversidade. Conforme a pesquisa Mais Valor, da Ticket, em 2024, cerca de 71% dos bares e restaurantes já contavam com algum recurso de acessibilidade para receber seus clientes.
Mas, a pergunta que fica é: o seu negócio está apto a receber pessoas com deficiência de verdade ou apenas tenta ser inclusivo?
O que é acessibilidade?
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Acessibilidade Possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, dos espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem com os outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida. - Lei Brasileira de Inclusão (LBI) / Lei 13.146/2015 |
De forma clara, a LBI prevê com obrigatoriedade o amplo acesso a atividades comuns, espaços públicos ou privados de uso coletivo, através de adaptações estruturais, como a construção de rampas para pessoas com mobilidade reduzida, adaptação de banheiros e a inclusão de piso tátil, por exemplo, de modo a facilitar o acesso de pessoas com deficiência em qualquer espaço.
Acessibilidade para além das rampas
O professor e escritor Romeu Kassumi Sassaki, que dedicou sua vida ao universo das pessoas com deficiência, descreve seis dimensões da acessibilidade:
- Arquitetônica, (sem barreiras físicas);
- comunicacional (sem barreiras na comunicação entre pessoas);
- metodológica (sem barreiras nos métodos e técnicas de lazer, trabalho, educação etc.);
- instrumental (sem barreiras em instrumentos, ferramentas, utensílios etc.);
- programática (sem barreiras embutidas em políticas públicas, legislações, normas etc.); e,
- atitudinal (sem preconceitos, estereótipos, estigmas e discriminações nos comportamentos da sociedade para pessoas que têm deficiência).
Segundo a ativista e pesquisadora Aline Castro, diretora do projeto AcessibiliBar, muitas deficiências são ocultas, e não interferem necessariamente na mobilidade da pessoa, mas demanda outros tipos de cuidado.
“Por isso, antes de falar de recursos específicos, gosto de reforçar algo essencial: tudo começa na atitude. Independente do tipo de deficiência, estamos falando de cidadãos. Pessoas com direitos. Pessoas que querem ocupar os espaços, viver as experiências, celebrar, encontrar amigos, trabalhar, consumir”, ressalta a pesquisadora.
Para dar dimensão, dos entrevistados pelo censo do IBGE:
- 7,9 milhões de pessoas tinham dificuldades de enxergar;
- 5,2 milhões, para andar ou subir degraus;
- 2,7 milhões, para manusear objetos;
- 2,6 milhões, para ouvir.
Além disso, 1,4 milhão de entrevistados possuíam limitação mental.
Os números indicam que o desafio da inclusão social vai muito além de uma arquitetura inclusiva, que pensa seus espaços para a melhor mobilidade. É preciso ampliar a noção que deficiência para uma realidade muito mais ampla, que por muitas vezes está relacionada à visão, à coordenação motora fina, à comunicação ou mesmo pensamento, e compreender que cada deficiência demanda uma atenção específica.
Para um bar ou restaurante, a inclusão aparece nos pequenos gestos e em toda a capacidade de atender um cliente e oferecer a todos uma experiência agradável, independentemente de quem seja.
Por isso, tanto Castro quanto o professor Sassaki trazem à tona o conceito de acessibilidade atitudinal, que, segundo a Cartilha de Formação do Governo do Ceará, trata-se “[...] das atitudes, atendimentos, tratos sensíveis e atenções que removem o peso das barreiras da exclusão”.
É uma forma de acessibilidade que parte, antes de mais nada, do tratamento humanizado, indiscriminatório e baseado no respeito mútuo entre as pessoas. Independente da deficiência, visível ou não, todos merecem respeito. Para Castro, implementar esses pilares em bares e restaurantes é “garantir permanência com dignidade, não apenas acesso físico”.
Outro ponto de atenção importante está na acessibilidade comunicacional, que garante que toda e qualquer informação e comunicação seja feita sem barreiras.
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Como criar um ambiente inclusivo?
Para ir além de reformas estruturais e organização acessível do salão é preciso investir também no acolhimento.
Um time capacitado, treinado e paciente oferece para a clientela uma recepção calorosa e respeitosa, tornando o restaurante um ambiente acolhedor e desejável. O conforto e bom atendimento são responsáveis por fidelizar a clientela e aumentar o “boca a boca” sobre o estabelecimento. Uma reputação positiva traz novos clientes, novos consumidores e novas pessoas interessadas em compartilhar a experiência do seu restaurante.
Primeiro, é preciso entender que acessibilidade é um processo. Não é uma reforma pontual. Não é uma placa na porta. É uma construção contínuaAline Castro.
Por isso, é essencial investir em bom atendimento, bem como em treinamento para que a equipe consiga lidar com pessoas com deficiência, entendendo boas maneiras e como se dirigir à elas, independente de sua deficiência.
Isso significa trazer para a cultura do negócio visibilidade sobre as nuances de cada deficiência. Saber auxiliar com pessoas de baixa mobilidade, como apoiar alguém com cegueira total ou parcial, ou mesmo se comunicar com pessoas com deficiência comunicacional.
Para ajudar gestores que desejam investir na acessibilidade como um dos pilares para o ASG, a Abrasel lançou no começo de 2026 uma cartilha sobre acessibilidade que reúne diversas práticas sustentáveis de inclusão no mercado de bares e restaurantes. Confira a seguir alguns dos itens para melhorar a acessibilidade em negócios de alimentação:
Estrutura física e mobilidade
- Manter circulação interna que permita passagem de cadeiras de rodas e andadores;
- Distribuir mesas de forma que haja espaço livre para manobra;
- Disponibilizar ao menos uma mesa com espaço inferior livre (altura média de 75 cm);
- Evitar banquetas altas como única opção de assento;
- Adaptar balcões de pagamento ou oferecer atendimento na mesa;
- Instalar barras de apoio, vaso elevado e campainha de emergência no banheiro;
Comunicação e sinalização
- Disponibilizar cardápio acessível em braille, fonte ampliada ou versão digital compatível com leitores de tela;
- Identificar QR Code em alto-relevo ou braile;
- Sinalizar acessos e saídas com recursos visuais e táteis;
- Informar nas redes sociais e no site quais condições de acessibilidade o local oferece;
- Sempre que possível, contar com funcionário capacitado em Libras;
Atendimento e cultura inclusiva
- Treinar a equipe para atendimento respeitoso e inclusivo;
- Dirigir-se diretamente à pessoa com deficiência, não apenas ao acompanhante;
- Perguntar como pode ajudar, sem presumir limitação;
Mais que atender, é preciso empregar
A contratação de pessoas com deficiência também deve ser compreendida como parte estruturante da cultura inclusiva do restaurante. Profissionais com deficiência contribuem para identificar barreiras que muitas vezes passam despercebidas pela gestão, além de fortalecer a coerência entre discurso e prática.
Eu, como pessoa com deficiência, não espero perfeição. Eu espero respeito. E respeito se demonstra quando alguém diz: ‘Obrigado por sinalizar, vamos corrigir’Aline Castro
Também é importante reconhecer que, ao longo do processo, erros podem (e provavelmente vão) acontecer. Para lidar com eles, o gestor precisa manter a calma e entender que um erro não é catastrófico e não significa falência.
Mais do que adaptação, investir em acessibilidade trata-se de posicionamento. Estabelecimentos que compreendem isso tendem a gerar fidelização, ampliar o boca a boca positivo e consolidar vantagem competitiva no médio e longo prazo.
