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O sucessão e a sucessão: uma jornada de evolução e propósito pessoal e profissional

Encontrar o equilíbrio entre a dedicação ao negócio e o desapego necessário para a sucessão é o verdadeiro "sucessão" para o empreendedor da alimentação fora do lar. | Foto: Canva

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Do dilema entre o trabalho exaustivo e a busca por sentido: entenda como a visão do trabalho como meio, e não fim, pode evitar o burnout e preparar o caminho para uma sucessão de sucesso no setor.

Paulo Jelihovschi 09/02/2026 | 17:35

Começamos esse texto com uma história que talvez seja familiar a você: o sujeito, por qualquer motivo que seja, abre seu restaurante. Realizado o sonho de ter o próprio negócio, vem à tona a vida real. Entre comprar insumos, cuidar do caixa, gerenciar pessoas, atender clientes (entre várias outras tarefas) ele trabalha, por baixo, insalubres 14 horas por dia. E passa por isso anos a fio buscando o sucesso, até o momento em que o trabalho preenche todo o seu tempo: sua vida é o trabalho e o trabalho é a sua vida, sem relacionamentos, lazer ou prazeres fora do ambiente do negócio.

Passado o tempo, ele não aguenta mais trabalhar e sente que está adoecendo. Então chega o momento de se olhar no espelho e encarar a dura realidade, na qual o dilema é lidar com um trabalho que o adoece ou encarar uma vida sem sentido fora do trabalho. Em outras palavras, mergulhar no pragmatismo de uma vida guiada por um trabalho estressante, ou encarar a luta na busca por sentido em ambientes que nunca foram explorados?  

Nesse ponto, questionamos o leitor: essa é uma jornada profissional pela qual vale a pena se dedicar? Em que momento essa história tão comum poderia ser melhorada? Neste ensaio, pretendemos passar por alguns pontos, alguns mais pragmáticos e outros mais filosóficos, que podem ajudar na compreensão dessa jornada e buscar focos de reflexão e melhoria. 

O sucesso  

A primeiro questionamento parte do que seria esse tal sucesso. Em termos sociais, desenvolvemos um modelo no qual o trabalho é valor, e o ócio é algo a ser combatido. O sujeito aplaudido é aquele que trabalha horas e mais horas diariamente, a ponto de se sentir culpado por não estar trabalhando. Somos incentivados a trocar saúde por labuta dia após dia.

Nesse sistema de recompensas, o sucesso talvez seja o próprio ato de trabalhar, e não o que se constrói com esse trabalho. O sujeito escravo do próprio trabalho (cuja empresa depende do seu suor para funcionar), por vezes é exaltado frente àquele que está em sua casa, realizando outras atividades, pois o seu negócio não precisa tanto da sua presença. E isso cria distorções. 

Recentemente a discussão sobre o propósito do trabalho vem se tornando mais comum. Artigos exaltam a busca da Geração Z, formada pelas pessoas com 25 anos ou menos, por propósito no trabalho. Logo falaremos um pouco mais sobre esses jovens profissionais, mas, por hora, o que vale trazer à luz é o tanto que a presença deles no ambiente de trabalho aumentou a discussão sobre a busca de algo que é maior do que o próprio trabalho. E aqui há uma enorme dificuldade enfrentada por qualquer profissional: a baixa reflexão sobre o que o seu trabalho está construindo. 

Então cabe uma pergunta para o leitor: o trabalho é meio para algo ou um fim em si mesmo? Ao entender o trabalho como fim, gera-se a dificuldade de enxergar o que se busca com o trabalho, deixando-o repetitivo e sem sentido, levando a uma desconexão entre o sujeito que trabalha e a obra que ele está construindo. Podendo, inclusive, ocasionar em doenças como o cada vez mais famoso burnout. Já ao entender o trabalho como meio para algo, a ponte estará construída e sólida para vencer os desafios da carreira, uma vez que é possível ver a finalidade e propósito pelo qual se acorda todos os dias para enfrentar os problemas da vida.  

O fim, portanto, se torna a obra que está sendo construída, e não os esforços empreendidos para tal.

Agora, a reflexão sobre meio para o que exatamente é o trabalho, ou seja, qual é a obra que está sendo construída, é estritamente individual. Não é possível trazer essa reflexão para o âmbito coletivo. É responsabilidade de cada um chegar a sua conclusão individualmente.  

A conclusão para essa reflexão definitivamente não se dá da noite para o dia, mas a busca por essa construção deve sim ser diária, seja por meio da autorreflexão ou a reflexão guiada em conversa com amigos, pessoas de confiança ou até terapeutas. Como dito, a falta de reflexão mais cedo ou mais tarde gera uma desconexão entre o sujeito e o trabalho, ocasionando em falta de sentido para o que se faz e levando ao adoecimento. Ao leitor que não vê a construção que o seu trabalho está gerando, sugerimos focar nisso imediatamente. Essa conexão, que te dá a visão de longo prazo do que está sendo construído, seguramente dará mais sentido ao árduo trabalho, te ajudará a dimensionar esforços e não te fará sofrer enquanto desfruta das várias belezas que a vida proporciona.  

O sucessão: a sucessão 

E o sucesso no trabalho dentro disso tudo? Basicamente, o sucesso consiste em entregar aquilo que se propõe, com o esforço necessário para tal, independentemente do volume de horas trabalhadas. O empresário que está mais focado no propósito do seu trabalho e naquilo que está a construir, talvez esteja menos suscetível a visões sociais que pregam que ele deve trabalhar incansavelmente, e que o descanso e o ócio são pecados quase que imperdoáveis. 

Tendo em vista então que o sucesso está ligado mais ao que se constrói e ao bom dimensionamento de esforços e menos no ato de trabalhar, o que fazer quando a obra é concluída? E se não concluída, pois a conclusão final não existe, o que fazer quando se atinge um estágio de satisfação pelo que se construiu até o presente momento? 

Esse grande sucesso ou – na liberdade de escrita informal dos autores que gera o jogo de palavras – o sucessão, só virá após a sucessão. Ou seja, o sucesso é terminar algo e passar para alguém que dará continuidade à jornada. A sucessão é um processo que envolve dois aspectos importantíssimos: a pragmática preparação e o filosófico desapego

A preparação é pragmática, pois se dá em fases claras. É importante identificar alguém que dará continuidade a sua obra, seja um parente que acompanhou a jornada da construção do negócio, um funcionário que esteve ao lado do dono por anos a fio, algum sócio que compre a sua parte da empresa ou até uma pessoa do mercado que possa continuar o que foi feito. Após essa identificação vem o desafio de preparar o sucessor para construir a sua jornada, baseado nas suas vontades e valores. Cursos, mentorias, mão na massa e afins são fundamentais nesse processo, fazendo com que, entre erros e acertos, o trabalho seja continuado.  

Já o desapego é filosófico, pois demanda uma forte reflexão interna do ex-dono do projeto, no sentido de entender que ele não é mais o protagonista da jornada, e nem o dono da obra. Se despir das antigas posses e vaidades é sempre difícil, mas é fundamental para o sucesso e a sucessão. Para se iniciar uma nova jornada e construir uma nova obra, é fundamental deixar a jornada antiga, e deixar que outros deem continuidade àquilo que você construiu. 

Quanto tempo demora? 

O tempo é algo relativo. O que demora para alguns, para outros é muito rápido, e vice-versa. Empresários de sucesso frequentemente relatam como fatores fundamentais para essa condição o foco, a perseverança, paciência e afins. Agora, voltando à Geração Z, como colocar pessoas absolutamente impacientes para serem o foco da sua sucessão? 

Afirmamos e reafirmamos: essa geração é incrivelmente desfocada e impaciente. Estudos sociológicos e extensa prática empresarial comprovam isso. A percepção dos autores coloca esses jovens não como buscadores de propósito no ambiente de trabalho, mas sim como pessoas que precisam ter recompensas cada vez mais complexas e de curto prazo. O sistema de recompensas é muito mais complexo do que era antes. Se antes a perseverança era a grande competência, e o dinheiro a grande recompensa, entre os jovens isso muda. As recompensas sim extrapolam o erário, e vão para questões ligadas ao reconhecimento público, curtidas em redes sociais e resolução de desafios estimulantes. E precisam ser diárias.

trabalho vira quase um jogo, com pequenas recompensas após a resolução de desafios estimulantes

Não dá para recompensar somente uma vez por mês, com o salário na conta. O trabalho vira quase um jogo, com pequenas recompensas após a resolução de desafios estimulantes, que possam ser compartilhados com os demais e que liberem pequenas e estimulantes doses de dopamina. Isso não conversa com os valores de quem ficou anos e anos construindo uma bela obra por meio do seu trabalho. E isso é problema não que quem vai receber o trabalho pronto para continuá-lo, mas de quem o construiu. 

Skinner, um dos criadores da psicologia comportamental, dizia que um dos grandes desafios do ser humano seja suportar pequenos estímulos punitivos em troca de um grande estímulo reforçador no longo prazo. Acreditamos que isso se conecta fortemente com essa nova geração que entra no ambiente de trabalho.

Querer um trabalho divertido e estimulante não pode ser confundido com propósito, e essa geração precisa ser educada a esperar a recompensa. Isso é fundamental para que o empresário tenha pessoas ao seu lado que possam estar ao seu lado na construção de sua obra ou até sucedê-lo nessa construção. Conectá-lo ao real sentido do trabalho, e tirando a visão apenas do trabalho em si, é um enorme desafio, e é o que precisa ser feito para o sucessão da sucessão. Tarefa incrivelmente desafiadora, que envolve tempo e esforço daquele que a deseja fazer, sendo um trabalho artesanal. O que conecta o sujeito ao trabalho não pode ser massificado. Não é treinamento coletivo. É sim uma construção absolutamente individual.

Fecha a conta 

O trabalho, assim como a empresa, pode ser fonte de saúde ou doença, fonte de estresse e desalento ou orgulho e realização. O sucesso desse processo deve estar mais ligado a uma clara conexão com o que se deseja construir. Dessa forma se tira a culpa dos momentos de lazer, das atividades que não são produtivas, e se proporciona uma vida mais equilibrada e saudável, com sentidos que extrapolam o ato de trabalhar e tiram a enorme dependência do empresário desse ato. 

Por fim, é necessário entender o sucessão e a sucessão. Alguém deve continuar a obra e precisa ser preparado para tal, por mais difícil que isso seja. Cabe então ao empresário olhar para dentro de si, se conhecer da melhor forma possível, e assim se conduzir para uma vida mais plena e permeada pelo propósito e realização. 

 

Este artigo foi produzido por: Paulo Jelihovschi e Célio Salles, empresário e membro do Conselho de Administração da Abrasel. 

Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor. 

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