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Como uma gestão humanizada pode transformar o seu negócio?

Empreendedores tem apostado em uma gestão humanizada para reter e engajar funcionários. | Foto: Pexels

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Cases de sucesso mostram que processos claros, escuta ativa e valorização do colaborador são a chave para engajar equipes e superar a crise de mão de obra

Yasmim Paulino 20/01/2026 | 18:03

Um dos maiores gargalos do mercado de bares e restaurantes é a contratação de mão de obra qualificada. Em pesquisa, publicada em março de 2025, a Abrasel revelou que 90% dos donos de negócios de alimentação entrevistados consideram difícil ou muito difícil contratar novos funcionários.  

Esse cenário conturbado se acumula nos desafios diários e rotineiros da cozinha, principalmente quando o negócio está em expansão ou já possui uma grande demanda de profissionais.  

Alta rotatividade, jornadas extensas, dificuldade para construir e engajar uma equipe. A pergunta que ecoa é: como construir e motivar uma equipe de profissionais em grandes operações? 

Gestão humanizada na prática 

Em uma nova geração de donos de bares e restaurantes, Jessica e Leandro Kniphoff apostam em práticas de treinamento que envolvem uma escuta ativa e o cuidado com os funcionários da rede. O casal é proprietário da JSK Burguers, a mais popular rede de hamburguerias de Manaus, que faturou cerca de R$60 milhões em 2025. 

Após a falência de um negócio de comida japonesa, Jéssica e Leandro decidiram começar uma hamburgueria dentro do próprio apartamento para vender por meio do delivery. Com o crescimento do público, migraram para um food truck e, com uma alta demanda, abriram o primeiro salão em 2019. Em entrevista ao podcast O Café e a Conta, Jessica compartilha que: 

“A gente tinha 30 funcionários em 2020, o que já era muito. A gente sempre entendeu que precisava de equipe para crescer, o que foi acontecendo de acordo com a necessidade do público”. 

Agora, são cerca de 370 colaboradores, nove operações em funcionamento – com a expectativa de abrir a décima no início de 2026 – os empresários se tornaram um caso de sucesso de gestão de equipe em larga escala. 

Além das unidades, a empresa construiu uma Arena Esportiva para os funcionários, aberta para locação, mas com foco em momentos de lazer entre a equipe. A Arena JSK, segundo Leandro "nasceu para os funcionários". 

"Hoje a gente rentabiliza porque durante o horário de funcionamento das lojas eles não usam e a gente aluga os campos. É uma arena de futebol society, beach tênis e vôlei de praia. E lá funciona um projeto social para os filhos dos nossos colaboradores”, explica Leandro. 

A equipe é essencial para o sucesso e a expansão de uma operação, como aconteceu na ascensão da JSK, e foi reconhecendo a necessidade de uma equipe alinhada que os empresários se debruçaram em definir processos. 

Processos e treinamento são chave  

Dentro da operação, Jessica compartilhou treina os gerentes e supervisores das unidades, que repassam de maneira padronizada os processos dentro de cada rede.  

“Por exemplo, se cada loja tem 50 pessoas, eu trato com o gerente ou o supervisor que recebem o treinamento. A partir daí, a mensagem vai ecoando”, diz. 

A empresária compartilha que se reúne semanalmente com a equipe e que é por meio da escuta ativa em conjunto que consegue encontrar possíveis erros, incluindo aqueles erros de responsabilidade dos donos.  

“Tem semana que pula, mas a gente tem que tirar a nossa hora para se reunir. Quando a gente encontra esses erros, a gente se concientiza da autorresponsabilidade, essa palavra é muito forte entre a gente", explica. 

Porque se acontece alguma coisa no processo ou na gestão, o erro é inicialmente nossoexplica Jessica

Estabelecer uma rotina de escuta com os funcionários e oferecer um treinamento adequado e claro podem soar como medidas básicas, mas é o ponto fraco de muitos empreendedores.  

 Ainda na entrevista, Jéssica diz que isso esbarra em um erro comum: a dificuldade de comunicar processos e os valores da empresa. Segundo ela: 

“Em muitos lugares – e a gente já cometeu esse erro também – querem que você tenha a cultura da empresa, que você obedeça aos processos. Mas os seus processos estão claros? Hoje os nossos processos estão claros. Existe um manual que deve ser seguido em todas as lojas”. 

Em paralelo, Leandro diz que, muitas vezes, "organização" está clara apenas para o dono. Segundo o sócio da JSK Burguers, para o dono "esse caos faz sentido, mas não tem padronização que, caso aconteça alguma coisa, outra pessoa possa pegar esse bastão e dar continuidade à corrida". 

Um desafio geracional 

Ezio Giannino Librizzi, chef de cozinha italiana, tem mais de 40 anos de trajetória no mercado gastronômico e destaca que “está cada vez mais difícil encontrar colaboradores hoje em dia. Dificilmente, alguém quer ascender no setor de bares e restaurantes”.  

A fala ressoa em um dos principais fatores que pesam nessa conta. Ainda de acordo com a pesquisa da Abrasel, os motivos para a dificuldade de contratação são dois: a escassez de profissionais bem qualificados (64%) e a falta de interessados nas vagas (61%). 

Para Librizzi, essa é uma questão diretamente impactada pelas mudanças geracionais, que envolvem novos hábitos de consumo e expectativas da nova geração para o mercado de trabalho. 

“Já passou aquele momento do interesse pelas escolas de gastronomia e de pessoas que queriam fazer gastronomia. Não tem mais gente que vem procurar o setor como porta de entrada para acesso ao trabalho ou a vaga é desinteressante devido, principalmente, ao salário”, explica. 

A questão da remuneração não é o único problema. O chef e empresário destaca ainda a escala de trabalho exigente. Segundo Librizzi, "além de não ter salário adequado, ter que trabalhar sábado e domingo feriados, realmente aprisiona as pessoas nessa escala".

A observação do chef tem respaldo em um comportamento geracional, já que essa é uma geração de jovens que valoriza cada vez mais o equilíbrio entre a vida no trabalho e pessoal.  

O “propósito” de vida ganha espaço 

Segundo o levantamento do estudo Workmonitor 2025, da empresa de RH Randstad, cerca de 92% dos trabalhadores brasileiros querem mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A pesquisa ouviu mais de 26 mil trabalhadores em 35 mercados da Europa, Ásia-Pacífico e Américas. 

Ainda reconhecendo as mudanças desafiadoras, Librizzi acumula 4 operações, entre restaurantes e fornecedoras, e funcionários com mais de 30 anos de casa. E para alcançar esse lugar, a receita pede uma gestão que cuida do colaborador, humaniza a rotina árdua e valoriza o papel da liderança.  

“Acho mais interessante saber como fazer com que elas se sintam integradas. Criar um ambiente bonito entre eles. Eu deixo que eles criem um ambiente familiar ali dentro", explica. 

Em 40 anos de profissão, o chef observou que o que realmente ajuda a engajar e construir uma boa equipe de funcionários está relacionado a um conjunto de fatores base, que começa com uma gestão humanizada. 

E, apesar do intervalo que separa as duas gerações de empreendedores, Librizzi e o casal da JSK Burguers, dispor de um ambiente de trabalho digno, potencial de profissionalização e processos claros na rotina ainda são elementos que constroem e engajam profissionais. 

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