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Chefs ensinam como aplicar a comunicação não violenta à gestão

Chefs contam que alinhar comunicação não violenta e assertiva é uma boa alternativa para a melhora organizacional do negócio e auxilia na redução da rotatividade de colaboradores. | Foto: Canva.

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Em um setor marcado pela alta rotatividade, bares e restaurantes que investem em diálogos mais saudáveis colhem equipes mais estáveis e oferecem um serviço de melhor qualidade.

Clara Lua 15 horas, 30 minutos atrás

A taxa de rotatividade no setor de bares e restaurantes chegou a 73,49% entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, segundo o publicado pelo Monitor Mercantil. Dados de 2024 apontam a falta de qualificação da mão de obra e a baixa produtividade dos trabalhadores como fatores determinantes para esse movimento.

No entanto, há também uma causa menos mensurada por trás desse fenômeno: a forma como as pessoas se falam dentro da cozinha. Segundo o chef Raphael Vasconcellos, “a gente vem de uma escola antiga da gastronomia onde o chef era visto como alguém que precisava gritar, pressionar, humilhar para ter resultado. E isso, para mim, é uma mentalidade ultrapassada”, analisa.

Nesse cenário, a Comunicação Não Violenta (CNV) entra na operação com a proposta de substituir a agressividade e falta de escuta por diálogos construtivos, incentivando que todos expressem necessidades e sentimentos de forma clara e não violenta.

Para o chef e especialista em saúde mental e liderança na cozinha, Caio Gomes, "a base da comunicação não violenta é toda a comunicação que, se fosse direcionada a nós, não nos faria sentir mal, mas, ao contrário, nos faria sentir maiores”. Ou seja, uma comunicação próxima, clara, sempre com respeito e escuta. 

Chef Raphael Vasconcellos e Chef Caio Gomes (Kaká Gomes). | Foto: Arquivo Pessoal

O que é comunicar sem violência na cozinha

Definir a CNV dentro da gastronomia exige uma percepção clara: não se trata de abrir mão da firmeza, mas sim de entender que ambientes saudáveis produzem resultados melhores.

[A CNV] não quer dizer sempre agradar, mas quer dizer que quando o outro fala conosco, seja para corrigir ou para uma crítica, nos faça crescer sem desrespeitoKaká Gomes.Essa mudança na maneira de se comunicar representa uma ruptura com determinados padrões, como pressão desnecessária e pouco direcionamento. E o primeiro passo nessa direção é reconhecer o problema.

Os sintomas de uma comunicação adoecida seguem uma progressão bastante previsível e o primeiro deles é o silêncio. "Depois disso vêm as intrigas, as conversas lateralizadas, as panelas e as disputas entre cargos. [...] por fim, começa a aumentar a rotatividade e outros indicadores de gestão de pessoas também piorarem", aponta Gomes.

Nesse contexto, a rotatividade elevada é, na maioria das vezes, o estágio final de um processo de deterioração que começou muito antes e que pode ser evitado com uma gestão baseada em respeito e escuta.

Como aplicar a comunicação não violenta no seu negócio?

Em um setor com altos números de rotatividade, tratar a comunicação interna como estratégia de negócio passou a ser uma necessidade. Equipes que se comunicam melhor erram menos e entregam um serviço mais consistente. Além disso, a forma como a cozinha conversa impacta diretamente no serviço que chega na mesa do cliente.

“Se existe ruído, tensão ou falta de alinhamento, isso aparece seja no tempo, na qualidade ou até na experiência final. Agora, quando existe um ambiente organizado, com comunicação clara e respeitosa, o serviço flui melhor”, conta Vasconcellos.

Na prática, aplicar a Comunicação Não Violenta no dia a dia de um bar ou restaurante é estar atento aos detalhes. Mesmo quando não há a linguagem violenta direta, a comunicação entre a brigada pode não estar boa.

“Eu oriento todos os líderes operacionais que comecem a tratar desse tema e elevar as oitavas da comunicação. Maior respeito, menor nível de palavrões, abaixar o tom para falar”, encerra Gomes

É um desafio que exige tempo e paciência. A pressão faz parte do trabalho na gastronomia, isso é fato. Na experiência de Vasconcellos, desafios como quebrar a ideia de que a cozinha precisa ser um ambiente tóxico para funcionar são parte de uma mudança necessária. No entanto, segundo o chef: “quando a equipe entende que existe um modelo de gestão baseado em respeito, escuta e presença, tudo muda.”

A CNV é uma resposta prática a um problema antigo do setor: cozinhas que adoecem os colaboradores e por consequência, podem prejudicar o negócio. Tratar a comunicação interna como estratégia de gestão cria mais chances de reter equipes e entregar resultados consistentes. Tudo começa com uma escolha simples: observar como as pessoas se falam na própria cozinha.

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