Talvez ainda não seja do seu conhecimento, mas o pedido de demissão do super renomado chef dinamarquês René Redzepi, que ficou por mais de duas décadas a frente do restaurante três estrelas Michelin, Noma, tido como um dos melhores do mundo, trouxe uma série de reflexões acerca da forma de como liderar nos tempos atuais.
Redzepi se afasta da linha de frente do restaurante após uma série de denúncias ligadas à abusos, assédio e até agressões perpetradas ao longo de mais de vinte anos, rendendo até uma matéria no New York Times. A pergunta que me faço frente a esse caso é o “por que agora”? Por que esse caso não explodiu há anos e em pleno 2026 chegou o momento desse chef ser afastado?
Fato é que o mundo mudou ao longo das últimas décadas, e com essas mudanças se transforma também o jeito de liderar. Líderes com postura militar, ríspidos, desrespeitosos, com voz imponente, instruções certeiras e legitimados de poder coercitivo para que àqueles que estão a sua volta façam o que lhes é ditado, estão sendo cada vez mais contestados.
Se essas figuras de autoridade eram antes respeitadas, atualmente viram piada e figurinhas no Whatsapp em questão de minutos. Liderar grupos grande e heterogêneos se tornou tarefa impossível, o que faz com que comandantes não consigam se legitimar, sendo então descartados rapidamente ou usem do poder e da força para se manterem em suas posições. Basta olhar para o crescente número de líderes autoritários no mundo para constatar isso.
Formar coesão em uma sociedade cada vez mais fragmentada se torna cada vez mais difícil. Moisés Naim, em seu livro “O fim do poder” aponta a tendência do crescimento do micropoder, em que a liderança está sendo exercida de forma cada vez mais segmentada, feita por pessoas cada vez mais não legitimadas formalmente (nas redes sociais, por exemplo), o que torna mais incerto para onde as pessoas serão guiadas nesses tempos complexos.
Essa tendência se repete nas organizações. O líder mão de ferro, com respostas para tudo, que coloca a qualquer custo seu contingente de trabalho na direção em que deseja está caindo em desuso. E por que isso?
Há uma mudança cultural, em que cresce a valorização da saúde mental de forma geral, mas principalmente entre as gerações mais jovens. Se antes o grande sonho era trabalhar na grande empresa, com o renomado gestor, por um enorme salário, mesmo que isso implicasse em altas taxas de estresse, casos recorrentes de assédio e noites mal dormidas, agora isso não vale tanto mais.
Pesquisas recentes apontam que a saúde vem pesando mais do qualquer tipo status ou salário no momento de escolher ficar no emprego ou aceitar uma nova oportunidade.
Outra questão importante ligada a essa crise da liderança é a falta de preparo desses líderes para lidar com essas mudanças. No Brasil, é possível observar um claro crescimento da educação para gestão. São várias e renomadas escolas e cursos ligados ao gerenciamento, e pouquíssimos correspondentes ligados à liderança.
Gerenciar e liderar são duas matérias completamente distintas. O gestor se ocupa da tarefa, dos tempos e movimentos, do controle e afins. Aprendemos a fazer isso muito bem por aqui. Já a liderança é outra história. Esta se faz na interlocução com pessoas, no diálogo, na construção conjunta, na influência e apontamento de direções. Nisso nós investimos muito pouco em nosso país.
Em um contexto de mundo em que os caminhos são muito complexos e incertos, faz muita falta pessoas que apontem caminhos plausíveis e mostrem as pessoas uma boa visão de futuro. E isso se aprende, é ensinado, mas ainda estamos presos em um modelo antigo, de comando e controle, do hard power em um mundo que pede cada vez menos isso.
Precisamos aprender a lidar com uma nova forma de liderar, e deixar os líderes das antigas, como René Redzepi, apenas como peça de entretenimento de reality shows, daqueles que o chef fica esperneando com sua equipe para que os pratos saiam da cozinha perfeitos e no prazo, enquanto o público dá risada em suas casas.
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