A NRF Retail’s Big Show 2026, um dos maiores eventos de varejo do mundo, reuniu, entre 11 e 13 de janeiro, em Nova York, líderes globais para discutir os rumos do consumo, da operação e da experiência do cliente. A feira, que funciona como um termômetro das próximas tendências do mercado, deixa claro que o varejo vive uma mudança estrutural: a tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser base, enquanto o humano e o sensorial ganham um valor que nenhum algoritmo consegue substituir.
Para o mercado de alimentação fora do lar, o desafio não é escolher entre inovação ou humanização, mas entender como usar tecnologia para ganhar eficiência sem perder aquilo que sustenta o negócio: a hospitalidade.
As aplicações da IA na operação
Em apresentação, Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, dividiu o palco com John Furner, presidente e CEO do Walmart EUA, para mostrar como a inteligência artificial deixou de ser promessa para se tornar base estrutural da operação no varejo.
Pichai destaca que essa transformação muda a forma como marcas e consumidores se comunicam. O modelo tradicional, baseado em buscas por palavras-chave, dá lugar a um atendimento assistencial e orientado por intenção.Em vez de procurar itens isolados, o cliente conversa com a plataforma como se estivesse diante de um atendente experiente, que entende contexto, restrições e objetivos antes de sugerir uma solução.
Na realidade de bares e restaurantes, essa lógica se traduz de forma direta: o cliente deixa de “escolher pratos” para resolver situações - um jantar rápido, uma refeição leve, um pedido para a família ou uma comemoração. Sistemas inteligentes passam a sugerir combinações, orientar escolhas, prever demanda e apoiar a equipe no atendimento, tornando a jornada mais simples para o consumidor e mais eficiente para a operação.
A ideia é que na prática, a IA não substitui a hospitalidade, mas organiza o backstage do negócio. Ao assumir tarefas repetitivas e analíticas, ela libera tempo e energia da equipe para o que pode diferenciar um bar ou restaurante: o cuidado, a experiência e a relação humana.
Menos discurso, mais verdade
Uma das discussões que também pauta a feira gira em torno de um desafio comum a todos os setores, inclusive bares e restaurantes: como conquistar a atenção do consumidor em um mercado saturado de mensagens, estímulos e promessas.
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No painel com Noura Sakkijha, CEO da Mejuri, marca de joias global; Jess Jacobs, CEO da Coterie, empresa de bens de consumo premium; e Katie Babineau, CMO da Beyond Yoga, marca de moda esportiva e lifestyle, o recado foi direto: marcas vencedoras abandonam o discurso puramente comercial para construir conexões emocionais reais, baseadas em valores, verdade e identificação.
Essa lógica aparece de forma ainda mais clara na apresentação de Ryan Reynolds, ator, produtor e empreendedor com atuação consolidada nos setores de bebidas e marketing, por exemplo. Reynolds mostra como autenticidade e humor podem transformar marcas comuns em fenômenos. Segundo ele, o sucesso não nasce de grandes orçamentos ou campanhas impecáveis, mas de envolvimento emocional, velocidade e da coragem de errar antes de acertar.
Para bares e restaurantes, o aprendizado é especialmente relevante. Em um setor onde a experiência é vivida no contato direto, marketing pode não ser o que se posta nas redes, mas o que se vive no balcão, no salão e na relação cotidiana com o cliente. Comunicação rápida, íntima e honesta, tende a gerar mais identificação do que campanhas excessivamente produzidas.
Escapismo e fome sensorial
Ainda, durante sessão de perguntas e respostas conduzida por Cassandra Napoli, especialista em tendências na consultoria WGSN, o debate avança para um ponto relevante no mercado atual: como os negócios podem prosperar em um cenário econômico instável sem disputar apenas atenção, mas conquistando consideração real do consumidor. Segundo a especialista, em um ambiente marcado por excesso de estímulos, o diferencial deixou de ser quem “grita mais alto” e passou a ser quem oferece experiências capazes de gerar vínculo, conforto e significado.
Cassandra destaca a urgência de simplificar operações e desenhar experiências que entreguem alegria e escapismo no cotidiano.Em um mundo saturado pelo digital e por conteúdos artificiais, o toque humano e a experiência sensorial emergem como o novo luxo, e como vantagem competitiva concreta para o varejo e os serviços.
Esse movimento se conecta ao conceito de “fome sensorial”, apresentado pela especialista como resposta direta aos anos de hiperconectividade. O consumidor, cada vez mais cansado das telas, passa a buscar vivências que envolvam paladar, olfato e toque, além de ambientes que funcionem como refúgios offline.
Para bares e restaurantes, isso representa uma mudança profunda de papel: mais do que vender comida, essas casas passam a vender desaceleração, presença e conexão humana.
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Aplicações no mercado brasileiro
Os aprendizados da NRF 2026 mostram que há uma janela clara de oportunidades para bares e restaurantes brasileiros que consigam aplicar esses conceitos de forma gradual, inteligente e consistente. O uso da tecnologia como base operacional, a valorização da experiência sensorial, a comunicação mais humana e a construção de vínculos locais não exigem rupturas imediatas, mas sim ajustes contínuos na gestão, no atendimento e na proposta de valor.
Em um mercado pressionado por custos, margens estreitas e consumidores mais criteriosos, quem conseguir usar inovação para ganhar eficiência, sem abrir mão da hospitalidade, tende a construir negócios mais consolidados. O desafio da alimentação fora do lar brasileira está em traduzir essas tendências para a sua própria realidade, respeitando cultura, escala e contexto local.
