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Saber cozinhar não credencia ninguém a ter um restaurante

O conflito entre a arte de cozinhar e a ciência da gestão: quando o talento culinário não é suficiente para enfrentar a complexidade administrativa do negócio. | Foto desenvolvida por inteligência artificial

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Confundir talento culinário com gestão é a causa de muitas falências. Entenda por que saber cozinhar não basta para empreender e como transformar esforço em um negócio de alimentação sustentável.

André Datrato 21/01/2026 | 11:57

Existe uma confusão recorrente, e perigosa, no setor de Alimentação Fora do Lar: a ideia de que saber cozinhar é, por si só, um passaporte para empreender. Não é. Nunca foi. E os números de restaurantes que fecham antes de completar dois anos estão aí para provar.

Cozinhar bem é um talento. Administrar um restaurante é uma profissão completamente diferente.

O problema começa quando essas duas coisas são tratadas como sinônimos. Quando o domínio da técnica culinária vira, automaticamente, autorização emocional para abrir um negócio. É aí que muita gente boa de panela se perde, e leva dinheiro, saúde, relacionamentos e sonhos juntos.

Um restaurante não quebra porque a comida é ruim. Ele quebra porque falta gestão, método, controle e maturidade para lidar com pressão constante. E isso não se aprende apenas na cozinha.

Quem vive a operação sabe: o restaurante é um ambiente de alta complexidade. Margem curta, custo variável, equipe rotativa, legislação pesada, fornecedores instáveis, clientes emocionalmente exigentes e uma rotina que não respeita feriado, fim de semana ou cansaço pessoal. Nada disso aparece na receita.

Saber cozinhar resolve o produto. Ter um restaurante exige dominar o sistema.

É comum ver excelentes cozinheiros afundando em decisões básicas: preço mal formado, CMV descontrolado, estoque invisível, folha inchada, escala mal pensada, compras emocionais, promoções sem cálculo e uma relação quase romântica com o próprio esforço. Trabalham muito, sofrem muito e ainda assim não entendem por que o caixa não fecha. Porque esforço não substitui processo.

Outra armadilha comum é achar que “amar o que faz” compensa a falta de gestão. Não compensa. Amor não paga imposto, não cobre desperdício, não negocia aluguel nem segura turnover. Amor ajuda a aguentar, mas não sustenta um negócio sozinho.

Restaurante não é extensão da casa. É empresa. E empresa exige decisões racionais, mesmo quando o coração quer outra coisa.

Existe também o peso emocional pouco falado: o dono que sabe cozinhar costuma se sentir indispensável. Se não está na cozinha, acha que tudo vai desandar. Isso cria um negócio dependente, frágil, impossível de escalar e extremamente cansativo. O restaurante vira uma prisão operacional disfarçada de vocação.

Quando o negócio depende do talento individual do dono para sobreviver, ele já nasceu doente.

Empreender em alimentação exige saber contratar, liderar, cobrar, treinar, demitir, negociar, planejar e, principalmente, dizer “não”. Dizer não para cliente, para colaborador, para fornecedor e, muitas vezes, para si. Isso não se aprende no fogão.

Outro ponto pouco honesto no discurso do setor é a romantização da dor. Trabalhar 14 horas por dia não é medalha de honra. É sinal de desequilíbrio. Sacrifício contínuo não é estratégia; é alerta. Normalizar o caos só perpetua negócios frágeis e empresários adoecidos.

Quem confunde resistência com sucesso acaba quebrando em silêncio.

Saber cozinhar é importante? Claro que é. Produto ruim não se sustenta. Mas produto bom em gestão ruim também não sobrevive. A diferença é que o segundo costuma durar menos, porque gasta mais rápido o recurso mais escasso do empreendedor: energia emocional.

Talvez a conversa mais madura que o setor precise ter seja essa: nem todo bom cozinheiro precisa ter restaurante. E nem todo dono de restaurante precisa ser cozinheiro. Separar essas funções é sinal de inteligência, não de fraqueza.

Quando o empresário entende isso, ele para de tentar provar valor com suor e começa a construir valor com estrutura. Para de ser o herói exausto da própria história e vira gestor de um negócio sustentável.

Cozinha é arte. Restaurante é sistema. Misturar os dois sem preparo é receita para frustração. O setor não precisa de mais gente apaixonada abrindo portas sem plano. Precisa de empresários conscientes, que entendam que cozinhar bem é apenas o começo, nunca o suficiente. Porque, no fim das contas, talento sem gestão não vira legado. Vira lembrança.

 
Este texto tem caráter opinativo. As ideias e conceitos expressos no artigo são de inteira responsabilidade do autor. 

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