“Você chama carne de proteína?”, provocou Rita Lobo, chef, apresentadora e empresária em um reels em seu perfil no Instagram sobre a indústria do bem-estar. A pergunta de Lobo chama atenção para um hábito crescente na rotina alimentar dos brasileiros: o de reduzir o alimento a um único nutriente, seja ele proteína, carboidrato, fibras etc.
O hábito já tem nome científico: nutricionismo ou reducionismo nutricional. Para a chef, defensora voraz da redução do consumo de ultraprocessados no cotidiano, esse tem sido um comportamento alarmante.
“Se o que você busca é a proteína, tanto faz se está comendo carne, arroz com feijão (que é fonte de proteína vegetal), um iogurte proteico cheio de adoçante, emulsificante e outros aditivos químicos ou mesmo um whey ultraprocessado”, explica em vídeo.
A crítica de Lobo aponta para algo que vai além da semântica: ao nomear os alimentos pelos seus macronutrientes, o consumidor passa a enxergar a comida como função, não como cultura.
É nesse terreno fértil que a desinformação se instala. “Há muita desinformação circulando, especialmente nas redes sociais, o que faz com que algumas escolhas sejam superficiais ou até inadequadas. Ainda assim, a popularidade desse mercado reflete uma mudança real de comportamento cultural e social em relação à alimentação e à saúde”, observa a nutricionista Lais Almeida.
Indo além dos reflexos na saúde, o nutricionismo descrito por Lobo é apenas um dos inúmeros sintomas da indústria do bem-estar, que já tem impacto no mercado de bares e restaurantes.
Rodízio Mounjaro e marmitas proteicas
A indústria do “bem-estar”, ou wellness, tem despontado com uma força comercial bilionária. Divulgado na revista EXAME, um relatório recente da Global Wellness Institute, grupo líder da indústria, destaca que em 2022 a receita foi de US$ 5,6 trilhões (R$ 27 trilhões).
Mas a expectativa até 2027 é de um crescimento adicional de 57%, atingindo US$ 8,5 trilhões (R$ 41,7 trilhões), cerca de duas vezes o Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha. Pesquisas da organização indicaram que, em 2013, esse faturamento era de apenas US$ 3,4 trilhões (R$ 16,8 trilhões).
Essa mudança de comportamento vem de uma onda gradual, mas rápida, da indústria do “bem-estar”, um mercado que oferece diferentes soluções para quem busca uma vida mais saudável.
Essa onda tem refletido no cotidiano dos empresários que notam uma demanda por refeições adaptadas a dietas específicas, que ajude seus clientes a baterem as metas de proteínas ou carboidratos, por exemplo.
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Em Volta Redonda (RJ), a empresária do ramo de marmitas saudáveis, Danielle Marques, destaca que essa crescente procura por refeições mais balanceadas foi extremamente positiva para o negócio. A empresária já deu início ao restaurante com a proposta de surfar no público que conta na balança a quantidade de cada porção.
“Nos adaptamos muito bem. Temos opções de marmitas individuais com os itens todos pesados (proteína, carboidrato e legumes)”, Danielle Marques.
No mesmo barco do nutricionismo, está a febre do uso de medicações para emagrecer, como é o caso das populares canetas emagrecedoras. Para Marques, essa é uma demanda que já chegou.
“A gente tem bastante o número de cliente que usa as canetas. E a gente se adaptou bem porque, como eu disse, a gente tem as marmitas que têm as quantidades delimitadas”, explica.
No restaurante pernambucano La Casa Recife, o chef Felipe Batista introduziu dentro da operação um rodízio voltado para clientes que fazem uso das canetas, a “Quarta do Mounjaro”. Segundo o empresário, a ideia surgiu já no final de 2025, período de confraternizações.
“A gente tem um menu ‘confra’ e que inclui bebida e comida por um preço único. Só que todo mundo da mesa precisa participar desse menu”, conta Batista.
Todos precisam consumir, mas para alguns clientes não fazia sentido arcar com o valor inteiro. “Ouvimos relatos de pessoas falando que no grupo tinha alguém tomando Mounjaro que não valeria a pena para ela. Foram vários relatos sobre isso”, continua.
Depois de conversar com a equipe, o La Casa Recife decidiu implementar uma opção de rodízio com um valor reduzido, voltado para clientes que tomam a medicação. Nas redes sociais, a divulgação do rodízio desperta reações diversas, entre haters e apoiadores, que se sentem atendidos.
“Como empresário, eu digo que a gente não tem que achar muito sobre algo, a gente tem que se adaptar ao mercado. Se enxergar um pouco antes do que a sua concorrência é melhor”, argumenta com sua perspectiva da relação polêmica.
Mas existem casos em que a necessidade de adaptação não foi tão confortável. “Para mim, em 2025, essa mudança de comportamento foi negativa porque reduziu o consumo no restaurante”, conta a proprietária do Restaurante Relicário, Sarah Rezende, também de Volta Redonda.
“Acho que as pessoas que estão utilizando a medicação reduzem a frequência de sair para consumir em bares e restaurantes”, expressa a empresária.
Mas a saída também foi redesenhar o cardápio e criar estratégias para não perder os clientes. A empresária reuniu os quatro principais pratos da casa e incluiu em um especial também apelidado de “Menu Mounjaro”.
“Depois que eu mudei o cardápio, vejo que os quatro pratos que eu selecionei para entrar no menu têm saído com mais frequência”, explica.
Em nota, o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, avalia em uma perspectiva parecida, dizendo que essa mudança “não significa que as pessoas estejam deixando de consumir nos restaurantes, mas sim mudando a forma como consomem”.
Solmucci avalia que, o cliente pode reduzir a quantidade no prato principal, mas talvez optar por sobremesas, bebidas ou outras experiências com um maior valor agregado.
Indústria do “Bem-estar” para quem?
Em termos nutricionais, essa mudança nos hábitos pode significar um risco à saúde. Para Almeida, a indústria vende soluções que reduzem o significado de um corpo saudável.
“Um dos principais equívocos da cultura do bem-estar (ou Wellness) é a simplificação excessiva da nutrição. Muitos hábitos são divulgados como soluções universais, sem considerar contexto, rotina e individualidade”, explica.
Assim como o conteúdo inicial publicado por Lobo, chamar a comida pelo macronutriente, seja proteína, carboidrato ou qualquer outro, abre espaço para o consumo de ultraprocessados, que tem cobrado seu preço na saúde dos brasileiros.
“O consumo de ultraprocessados está diretamente ligado ao aumento de doenças graves, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardíacas e até depressão. É por isso que eu sempre digo: coma comida, e não nutrientes”, reforça Lobo.
Até o momento, a indústria do bem-estar deve seguir popular e presente entre muitos brasileiros e por isso bares e restaurantes devem continuar sentindo os efeitos dessa transformação no comportamento do consumidor. A questão que se coloca para empresários não é mais se vale a pena se adaptar, mas como fazer isso de maneira sustentável e que faça sentido para o negócio.
