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Gerente de restaurante: como formar bons líderes e evitar problemas na operação

O proprietário deve atuar como diretor e mentor, dando autonomia para a gerência liderar a rotina do restaurante. | Foto: Pexels

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Como recrutar, treinar e manter gerentes de restaurantes que impulsionam os resultados e reduzam os problemas operacionais em negócios de alimentação.

Maria Eduarda Collares 1 hora, 55 minutos atrás

Promover o melhor garçom ao cargo de gerente pode ser o início do fim da lucratividade de um restaurante. Equilibrar a exaustiva rotina que divide o salão e a cozinha exige muito mais do que competência técnica: demanda inteligência emocional, processos blindados e liderança adaptável. Afinal, em um mercado onde a rotatividade de funcionários dita a sobrevivência do negócio, quem comanda a operação precisa saber traduzir a estratégia em resultados.   

Para entender a linha tênue entre o sucesso operacional e o colapso da equipe, a B&R destrincha os deveres diários da gerência, o papel do dono como diretor estratégico e os indicadores cruciais para blindar a sua casa contra rotatividade. 

O que um gerente de restaurante faz? 

Um gerente de restaurante pode executar diversas funções, coordenando tanto as operações do salão quanto as da cozinha para manter um serviço eficiente e consistente, além de manter o controle estratégico do crescimento do negócio junto ao dono do negócio. 

A depender dos modelos de negócios de alimentação, tanto a tipo quanto a porte, e das especificidades da função, o trabalho de um gestor de restaurante pode incluir responsabilidades como: 

Área de atuação 

Responsabilidades do gerente de restaurante 

Liderança de equipe 

Liderar equipes de garçons, cozinheiros e demais funcionários do negócio de alimentação. 

Contratação e desenvolvimento 

Contratar, integrar e treinar novos funcionários; elaborar escalas de trabalho; realizar avaliações contínuas de desempenho; e promover o desenvolvimento de habilidades específicas. 

Gestão de conflitos 

Gerenciar conflitos e demandas interpessoais, solucionando problemas entre funcionários ou entre clientes e equipe. 

Estoque e compras 

Monitorar o inventário e as compras, supervisionar os níveis de estoque, solicitar suprimentos e trabalhar com fornecedores para garantir a qualidade e evitar falhas no abastecimento. 

Gestão financeira 

Apoiar a gestão financeira por meio do controle de custos e do acompanhamento das receitas, além de elaborar relatórios objetivos de vendas e despesas. 

Segurança, saúde e conformidade 

Garantir que as operações do estabelecimento atendam às normas relacionadas à segurança dos alimentos, à higiene e à segurança no trabalho. 

Operação e atendimento 

Supervisionar diretamente a operação e os padrões de serviço no salão, incluindo a gestão de mesas, o serviço de bebidas e os eventos especiais. Também deve assegurar a resolução rápida de problemas, proteger a reputação do negócio e manter a satisfação dos clientes. 

Alinhamento estratégico e qualidade 

Trabalhar em estreita colaboração com os proprietários para alinhar as operações aos objetivos da marca, mantendo um controle rigoroso da qualidade e do custo-benefício dos produtos e fornecedores. 

 

Com tantas funções sob sua tutela, a gerência de um negócio de alimentação deve trabalhar para manter padrões de operação e, ao mesmo tempo, contribuir para o crescimento sustentável do negócio, estando em uma posição mais direta com a rotina do negócio. 

Para isso, é preciso lidar com um elo em comum: pessoas. Algo que Alessandro Brito, dono de restaurante há mais de 12 anos e professor da Escola de Bares e Restaurantes – ESBRE no curso de formação de gerentes, observa e destaca. Dentro de uma operação Brito evidencia que o guia para que tudo possa acontecer dentro de um padrão de qualidade são as pessoas que ali trabalham e como um líder consegue direcioná-las. 

O papel de uma boa gerência de restaurantes 

Na visão de Brito, bons líderes geram resultados quando este cargo é ocupado por um profissional altamente qualificado em mais de um aspecto. Afinal, gerenciar um restaurante com sucesso exige equilibrar a liderança do dia a dia com a visão de longo prazo necessária para bater metas e fortalecer a reputação da marca. 

A gente sempre fala que 80% da função de um gerente é o gerenciar pessoas e 20% é a operação.  Alessandro Brito

Ou seja, nem sempre ótimas habilidades técnicas suprirão uma falta de gestão emocional e humana com a equipe e vice-versa. “Aquele funcionário que era o melhor garçom, ele pode virar o pior gerente. Porque não quer dizer que ele é um bom garçom, um bom cozinheiro, um bom sushiman, que ele vai ser um bom gerente.”, comenta o professor. 

Segundo pesquisa da Bad Boss Index 2025, 53% dos entrevistados afirmaram que já deixaram empregos por conta de lideranças ruins, causadas por características como comportamentos antiéticos, críticas severas ou mal colocadas e falta de comunicação quanto a expectativas e metas. 

Nessa lógica, gerentes de restaurantes mal preparados ou sem as competências necessárias vão “impactar em rotatividade de funcionários, em satisfação de funcionários e de clientes. É uma bola de neve que, por fim, acaba numa lucratividade reduzida também.”, conclui Brito. 

O que é preciso para ser um gestor de negócios de alimentação?   

Saber a rotina de um negócio de alimentação, ter experiência com atendimento ao cliente e já conhecer a equipe no qual irá trabalhar podem parecer os principais motivos para promover ou contratar um gerente de bar ou restaurantes. Porém, para o Culinary Institute of America, o segredo está em equilibrar competências técnicas com qualidades interpessoais. 

Para o instituto, um bom gerente de restaurantes precisa: 

  • Ter espírito de liderança e experiência em gestão de equipe; 
  • Possuir experiência no atendimento ao cliente; 
  • Ser um bom comunicador e ouvinte para cliente e funcionários; 
  • Boa inteligência emocional sob pressão; 
  • Saber lidar com desentendimentos e gerir conflitos de interesse/problemas
  • Controle de gestão de tempo operacional; 
  • Ser organizado e adaptável
  • Possuir conhecimento sobre segurança alimentar e normas regulamentadoras
  • Conhecimento tecnológico para realizar planilhas e análise de dados e recursos financeiros. 

Um gerente qualificado pode chegar de fora de uma operação e precisar exaltar ainda mais sua habilidade de adaptabilidade, como também pode já estar presente na equipe e apenas precisar entender seu novo papel dentro do negócio.  

Por isso, um primeiro passo para promover funcionários ao cargo de gerente do negócio de alimentação, de acordo com Brito, começa com o exercício de observar quem a equipe procura organicamente para resolver problemas na ausência do dono de restaurante, em vez de se basear apenas em tempo de casa. 

“A equipe tem que falar. Se você quer saber como subir um líder, você tem que saber na sua ausência quem é que está sendo acionado. Ali a equipe já está dando sinais de quem vai ser o líder”, reitera o professor. 

Nesses casos, Brito também alerta os riscos. Em gerências já familiarizadas com o ambiente, uma grande tendência é de que a tentativa de ser próximo e confiável confunda-se com os limites de construir uma amizade com a equipe. Para Brito, esse “é o primeiro erro que acontece dentro de um restaurante” ao promover lideranças internamente que destroem culturas de trabalho. 

Como é o dia a dia de um gestor em bares e restaurantes? 

Para além da exaustiva rotina operacional que envolve a abertura e o fechamento das portas, o cotidiano de uma gerência de alto nível é ditado pela consistência de processos e pela comunicação estratégica.  

Segundo Alessandro Brito, o dia a dia de um gerente de sucesso não deve ser pautado no improviso, mas sim em ferramentas claras de controle de operação, como o uso rigoroso de checklists de abertura e fechamento. "Quantos restaurantes aí pegam fogo por causa de fritadeira que ficou ligada ou ar-condicionado?", alerta o professor, reforçando que a segurança e o padrão preventivo nascem dessas rotinas.   

O Culinary Institute of America reitera que a rotina ideal exige do profissional uma sólida capacidade de gestão do tempo operacional e adaptabilidade. Na prática de mercado, isso se traduz no conceito de "Fórum Diário": reuniões rápidas e cirúrgicas com a equipe, de 5 a 10 minutos no máximo, realizadas antes do início do serviço. Brito esclarece que esse momento serve para realizar uma "ativação" do time, que muitas vezes chega disperso por problemas externos.  

A grande destreza do gerente no cotidiano é a capacidade de filtrar as demandas da diretoria e traduzi-las em melhorias práticas. "Se o diretor aponta que estão ocorrendo muitos erros no delivery, o gerente não deve apenas repassar a bronca dizendo que a equipe está errando muito", exemplifica Brito. Para o professor, o papel diário do líder é ir à raiz do problema, focando o discurso sempre nos processos e nunca na exposição de nomes. 

Quais são as diferenças dos papéis de gerente e de dono do negócio de alimentação? 

Um dos nós mais complexos na gestão de negócios de alimentação reside na linha que divide (ou deveria dividir) as atribuições do proprietário e do gerente. De acordo com Brito, a mentalidade do mercado precisa evoluir para que os donos passem a se enxergar e a agir como "diretores" estratégicos, deixando a operação direta sob a responsabilidade da gerência.   

A primeira grande falha apontada no ambiente corporativo é a falta de clareza nas funções. É comum que proprietários sobrecarreguem o gerente com demandas operacionais desordenadas sem antes definir um escopo claro de evolução. "O dono coloca o gerente na operação, larga, e aí depois quer resultado", critica o professor.   

Para que a engrenagem funcione com segurança, o diretor precisa munir seu gerente com ferramentas de descentralização e total transparência de dados. Uma das estratégias propostas é a divisão da operação em quatro pilares fundamentais de gestão:   

  • Gestão de Recursos Humanos (RH)    
  • Gestão Financeira (incluindo a abertura de dados essenciais, como o faturamento da casa)   
  • Gestão de Marketing    
  • Gestão da Operação    

A partir deste mapeamento, o proprietário deve realizar um exercício de autocrítica para identificar suas próprias fraquezas e contratar uma gerência com habilidades complementares. Se o dono possui forte inclinação financeira, mas peca em vendas, o papel do gerente deve suprir com excelência essa lacuna comercial, evitando o erro comum de clonar o perfil do patrão e gerar conflitos de gestão.   

Por fim, o dono assume o papel indispensável de guia e mentor dessa liderança através de alinhamentos semanais. Nessas reuniões, deve vigorar o que Brito defende como o "erro pedagógico": dar autonomia para o gerente decidir e testar. "Ele só não pode vender a loja. Se ele não errar, ele não aprende. E o dono tem que estar junto para mostrar como ele cresce", sintetiza. 

Deveres do Diretor / Dono 

Deveres da Gerência 

Dar clareza e gerenciar o gerente, acompanhando sua evolução.  

Focar em pessoas e na operação como um todo.  

Fazer reunião semanal de alinhamento com a gerência.  

Fazer fórum diário (5 a 10 min) com a equipe.  

Abrir os dados estratégicos, como o faturamento da empresa.  

Controlar os indicadores: Faturamento, CMV, CMO e Turnover.  

Organizar o quadro de atividades em RH, Financeiro, Marketing e Operação.  

Transbordar conhecimento e treinar a equipe para criar sucessores.  

Investir em treinamentos em vez de reter conhecimento.  

Traduzir as ordens da diretoria em metas diárias para a operação.  

Liderar pelo exemplo e conhecer os sonhos dos colaboradores.  

Resolver conflitos, dar feedbacks e fazer conversas difíceis. 

 

Menos rotatividade e mais clareza 

Na rotina agitada de bares, restaurantes e demais estabelecimentos ligados à alimentação fora do lar, gestores não devem esquecer que cada pessoa responsável por algo na operação trabalha em prol de desejos, ambições e da busca do equilibro entre necessidade, talento e crescimento dentro do mercado de trabalho. 

Para Brito, “a empresa é uma troca de sonhos”, ou seja, “você, como dono, trabalha para poder realizar o sonho dos seus funcionários. E os seus funcionários trabalham para poder realizar um sonho seu.” E para que o time trabalhe alinhado e de maneira eficiente, essa descoberta e entendimento parte de gerências bem treinadas e que promovam uma cultura de time que valorize as necessidades da equipe, incluindo até onde ela pode chegar. 

De acordo com levantamento brasileiro da Loved Companies 2025, da ILoveMyJob, para 20,42% dos pesquisados, a possibilidade de crescimento e a existência de um plano de carreira é o principal elemento associado a um emprego ideal e na retenção de talentos.

Qual é a importância de treinar gerentes de restaurantes? 

O treinamento contínuo de gerências frequentemente enfrenta a resistência de empresários temerosos quanto à rotatividade de pessoal. No entanto, os especialistas são unânimes: o custo de manter uma liderança despreparada é imensamente superior ao investimento em capacitação. No setor de restaurantes, onde "processos administram pessoas", a falta de treinamento reflete diretamente no estouro de indicadores críticos.   

Para avaliar a eficiência de uma gerência e a saúde do negócio, Alessandro Brito destaca os KPIs (Indicadores-Chave de Desempenho) vitais que todo líder treinado deve dominar: 

  • Faturamento: a base que sustenta todos os demais índices.   
  • CMV (Custo da Mercadoria Vendida): controle absoluto do desperdício e insumos.   
  • CMO (Custo de Mão de Obra): indicador que, se estiver excessivamente alto, denuncia a ausência de processos bem estruturados.   
  • Prime Cost: a soma crucial do CMV e do CMO, que determina o limite de sobrevivência da operação.   
  • Turnover (Rotatividade): o termômetro do clima organizacional.   

A perda de um gerente treinado gera um "custo invisível" severo para a marca. Como aponta Brito, ao perder um profissional, esvai-se também toda a bagagem de relacionamento e os resultados que ele construiu até ali.  

O treinamento atua, portanto, como a principal ferramenta de retenção, mas precisa estar atrelado a um fator humano mais profundo: o "alinhamento de sonhos". O verdadeiro papel da empresa moderna transcende o pagamento de salários; ela deve figurar como um ecossistema de intercâmbio de objetivos pessoais e profissionais.  

A máxima da liderança em negócios de alimentação se resume à capacidade do próprio investidor em olhar para o espelho antes de cobrar excelência de seus subordinados. Como reflexão final, Alessandro Brito lança a pergunta de ouro que todo proprietário deveria se fazer: "Você seria seu próprio gerente? Você trabalharia para você mesmo se você fosse o seu líder?". A resposta para essa pergunta dita o sucesso ou o fracasso de qualquer restaurante.

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