Manter a essência de um negócio construído por uma geração anterior é um grande desafio, ainda mais quando esse legado carrega o peso de ter revolucionado todo um setor. É o caso do Templo da Carne Marcos Bassi, que completa quase 48 anos e hoje é conduzido pela segunda geração da família, seguindo o que o fundador chamava de "arroz e feijão": qualidade e padrão que não se negociam.
Quem enfrentou esse desafio foi Tatiana Bassi, filha mais velha de Marcos Bassi, que faleceu há 14 anos. Desde então, ela lidera o restaurante com a missão de expandir o legado do pai, sem perder a identidade da casa.
O universo da carne ainda é majoritariamente masculino, o que torna esse desafio ainda maior para Tatiana. Assumir a linha de frente desse negócio significou provar um domínio que muitos colocaram em dúvida.
Na entrevista, com a proprietária, ela fala sobre sucessão familiar, credibilidade em um mercado dominado por homens, os novos hábitos de consumo, e as experiências que fazem o cliente voltar.
Confira o episódio #139 de O Café e a Conta:
Neste episódio, Tatiana Bassi, sócia-proprietária do Templo da Carne Marcos Bassi, conta como assumiu o negócio da família e construiu uma liderança própria. A conversa aborda sucessão familiar, preservação do legado, inovação, liderança feminina no mercado de carnes e estratégias para atrair novos públicos sem perder a essência da marca.
B&R: Como começa a história do Templo da Carne Marcos Bassi e quais foram os principais marcos dessa trajetória?
Tatiana Bassi: Eu sou a segunda geração, sou filha mais velha de uma família de duas meninas. Apesar de nós termos já um mercado bem receptivo para as meninas, tanto na pecuária quanto nos restaurantes, nas churrasqueiras e nas churrascadas, ainda tem um pouquinho de resistência, digamos assim. Mas aos poucos vamos conseguindo mostrar que a gente não está aqui para brincar.
Nós temos esse restaurante há quase 48 anos e já passamos por diversas fases, tanto econômica, quanto de costumes. Marcos Bassi, para quem não conhece, é um ícone. Não é porque eu sou filha dele, pode pesquisar no Google. É o cara que realmente revolucionou o consumo final da carne.
Como é assumir essa responsabilidade e conduzir o negócio na segunda geração?
É realmente uma responsabilidade imensa. Meu pai é falecido, infelizmente, há 14 anos, e desde o primeiro dia que ele não estava mais aqui, eu pus como meta de vida levar comigo esse legado adiante e fazer com que todos os brasileiros, paulistanos, quiçá o mundo, conhecesse esse legado que ele deixou.
Ele ajudou a desenvolver a qualidade do animal, do produto, até chegar ao consumidor. Foi a ponte entre restaurante, supermercado, dona de casa, frigorífico e pecuarista.
Foi ele quem introduziu o conceito da carne porcionada e transformou o mercado tanto operacional quanto economicamente.
- Novos campos de IBS e CBS se tornam obrigatórios em notas fiscais
- Benefícios flexíveis para pequenos negócios de alimentação fora do lar com a Alelo
- Salão Abrasel abre inscrições para o palco Comanda Aberta
- Como credenciar seu negócio com a Ticket: portal, vantagens e passo a passo
- Nova edição da revista B&R traz brasilidade e gestão aplicada
Como o Templo da Carne se mantém relevante diante das novas ocasiões de consumo e do avanço das canetas emagrecedoras?
Eu vou voltar um pouquinho nessa história. Meu pai costumava dizer, “filha, o arroz e feijão está pronto”. O arroz e feijão, ele queria dizer que era padrão e a qualidade, que isso não se mexe. Em qualquer momento da nossa jornada, ou de qualquer negócio que exista, acredito que esse é o cerne do sucesso de qualquer produto.
Meu pai costumava dizer, “filha, o arroz e feijão está pronto”. O arroz e feijão, ele queria dizer que era padrão e a qualidade, que isso não se mexe.As outras partes são o floreio, onde você pode mexer, mas sempre seguindo o ponto primordial, que é qualidade e padrão.
Na época do meu pai, anos 80 até o começo dos 2000, ele priorizava a fartura. Então, tinha um ojo de bife com 500 gramas. Como precifica isso? Hoje é impossível vender um ojo de bife de 500 gramas, as pessoas não compram. Nas esperas de domingo, ele também dava aquelas tortilhas espanholas, com batata e ovo. Se eu fizer isso hoje, o cliente come a cortesia e vai embora.
A fartura foi substituída pela experiência e preço. Agora a gente já está em 2026, com canetas emagrecedoras, e mais do que isso, o desejo de uma vida mais saudável comendo carne.
Sobre cardápio e estoque: o que mudou nesse tempo?
Hoje em dia temos uma diversidade imensa em todos os sentidos. Muitas vezes, na mesma família, tem uma pessoa vegana, uma carnívora, aquela que gosta de carne, mas come só um pedacinho, e tudo bem.
A gente tem um palmito pupunha que é sucesso entre todos os meus clientes, principalmente os que não comem carne. Como tudo aqui, ele é feito na brasa, na casca, por três horas. A gente tem os legumes na brasa, que vem no rechaud, que é uma delícia. Nas saladas, temos vários tipos, que inclusive eu precisei melhorar porque eram poucas opções.
Como vocês conseguem manter esse equilíbrio entre inovar e, ao mesmo tempo, preservar o conceito, a qualidade e a consistência?
Vou bater na tecla do arroz e feijão, porque pra quem tá empreendendo agora é importantíssimo. Então, em tempos de char broiler, o Templo da Carne Marcos Bassi continua com a churrasqueira a carvão e não se mexe nisso.
E nós abrimos o delivery, estamos com duas unidades de dark kitchen e caminhando para a terceira. E, nessas unidades nós precisamos utilizar o char broiler, porque garante a padronização do churrasco, já que permite um controle preciso da temperatura.
Quais dicas você pode dar pra quem também empreende com carne no delivery?
Falando da minha experiência: nós jamais poríamos um corte do dianteiro no delivery, porque ele é extremamente marmorizado, tem muito colágeno e a hora que ele esfria, fica ruim.
Tem que ter conhecimento do produto que você tá comercializando.Eu nasci dentro de um açougue, então passei a vida inteira ouvindo sobre isso e experimentando.
No delivery, a escolha do corte e da gramatura faz toda a diferença. Um bife ancho entre 250 e 300 gramas, por exemplo, é ideal porque permite acertar o ponto com facilidade. Depois de sair do char broiler, ela continua cozinhando levemente dentro da embalagem durante o transporte, chegando à casa do cliente exatamente no ponto esperado.
Então, existem carnes que você vai você vai vender no seu delivery e outras não.
Como o Templo da Carne atrai novas gerações e cria experiências que fazem o cliente voltar?
Diferente do consumidor de antigamente, hoje, eles buscam combinações com preço melhor, sem abrir mão da qualidade e da padronização. Uma estratégia é criar combos com porções menores e mais possibilidades de escolha: dois cortes de carne em tamanhos menores, acompanhamentos, bebida, sobremesa e algum elemento que torne a experiência memorável.
É aí que entram os detalhes. Em datas especiais, como Dia das Mães e Dia dos Pais, por exemplo, o cliente recebe uma faca Marcos Bassi, desenhada por ele próprio e produzida especialmente para essas ocasiões. Durante a refeição, ele utiliza a faca e, ao final, pode levá-la para casa em um estojo próprio. Esse tipo de brinde traz também um senso de comunidade.
É possível crescer e profissionalizar a gestão sem perder o "olho do dono"? Como você mantém essa proximidade com o salão, a equipe e os clientes?
A casa anda de acordo com o movimento do dono. Você pode ter certeza de que aquele garçom que te atende com arrogância, displicência, não tem atenção da diretoria, não tem o cuidado de um RH e não está sendo visto.
Eu tenho funcionário, aliás, a maioria deles, está aqui há mais de 30 anos. Eles vestem a camisa. Mas o meu cliente quer ser chamado pelo nome, então eu não posso jamais esquecer desse funcionário que está aqui comigo há anos. Ele tem os clientes dele que trazem o neto, o bisneto.

