No último ano, duas gigantes do mercado mundial de delivery fizeram o mesmo movimento e voltaram as suas atenções para dentro do salão. DoorDash e iFood anunciaram a compra de empresas de hospitalidade e reserva de mesa, para estar presentes também no momento de consumo fora de casa.
Essa movimentação revela uma nova estratégia do setor, em que as plataformas passam a se interessar por todas as etapas da jornada de consumo.
No ano passado, a norte-americana DoorDash anunciou o início da negociação com a SevenRooms, empresa de tecnologia para hospitalidade, pelo valor de US$ 1,2 bilhão, pago em dinheiro. Na nota divulgada na época, a empresa afirmou que a negociação tinha o objetivo de ampliar a presença global da marca, expandir a capacidade operacional e aumentar a lucratividade.
Aqui no Brasil, o iFood adquiriu, no fim de abril de 2026, a startup Get In, especializada em reservas e gestão de filas, como parte do lançamento do seu produto “Comer Fora”. O valor do negócio não foi divulgado.
Segundo comunicado, essa incorporação se tornou central na estratégia da empresa por trazer para dentro uma tecnologia já consolidada. A companhia também justificou o movimento apontando uma lacuna no mercado brasileiro, onde menos da metade dos restaurantes no país tem um sistema como esse para operar no salão.
O que este movimento revela
Para Diego Senra, sócio da Lathor Consultoria e da Food Masters, o que está por trás desses dois movimentos é a mesma lógica: entender o consumidor em qualquer lugar que ele esteja. “O delivery é consumo de alta frequência e o salão, de baixa frequência”, explica. “No fundo, essas empresas só estão tentando mapear e compreender as formas de consumo do cliente", completa o especialista.
É tudo sobre leitura de mercado e a vontade das plataformas de estar presentes nos dois momentos.- Diego Senra.
No mercado global, a entrega de comida representou 22% de todo o gasto com alimentação fora do lar em 2025, número que dobrou nos últimos seis anos, segundo o Euromonitor International. Esse cenário ajuda a explicar por que as plataformas estão olhando para outras etapas da jornada de consumo.
Conhecer melhor quem já está dentro do ecossistema pode ser uma forma de crescer sem depender apenas de novos consumidores e é justamente aí que os dados ganham importância, uma vez que a tecnologia passa a funcionar como uma camada de informação.
No delivery, existe uma sequência relativamente clara: o consumidor abre o aplicativo, escolhe o restaurante, faz o pedido e recebe a comida. Cada uma dessas etapas deixa um registro.
No salão, a jornada é mais dispersa e, durante muito tempo, uma parte relevante dela ficou restrita ao próprio restaurante. A reserva, a chegada, a escolha da mesa, o tempo de permanência e a frequência com que aquela pessoa retorna são informações que podem ajudar a construir uma visão diferente do mesmo consumidor.
Essa diferença também mostra por que os dados se tornaram tão importantes. Para um restaurante, saber que uma mesa foi ocupada em determinado horário é uma informação operacional. Saber que aquele cliente costuma voltar e qual prato geralmente pede já permite fazer perguntas sobre o próprio negócio.
O apoio da tecnologia
É nesse espaço que a disputa tecnológica pode ganhar uma nova dimensão. As plataformas podem possuir algo que muitos restaurantes têm dificuldade de construir sozinhos: uma grande base de consumidores e dados de comportamento.
Do outro lado, o restaurante possui a experiência presencial e, cada vez mais, também busca entender melhor quem é o seu consumidor.
É o que observa Isaac Paes, CMO da Goomer, empresa de tecnologia para restaurantes: “A preocupação do dono de restaurante hoje á um pouco diferente do que percebíamos há alguns anos. Hoje ele chega querendo descobrir quem é o cliente que está sentado ali. Passou a se questionar como fazer esse cliente voltar na semana que vem”.
Segundo Isaac Paes, essa mudança de postura tem raiz na própria experiência com as entregas de comida. “Uma década de delivery ensinou o dono a fazer essa outra conta, a que vem depois do faturamento: quanto custa aquele pedido e quem fica com o relacionamento com o cliente depois da venda”, declara.
“Quando essas plataformas chegam ao salão, a principal dúvida é se isso significa um canal novo ou uma nova dependência. O dado de salão é o ativo mais valioso que um restaurante tem: frequência, o que a pessoa pede, com quem ela vem, quanto gasta, quanto tempo fica".
A preocupação com o relacionamento é importante porque o avanço da tecnologia no salão não acontece em um mercado vazio. Os restaurantes já utilizam diferentes ferramentas para tentar organizar a operação e conhecer o público, mas nem sempre esses sistemas conversam entre si.
É justamente a integração que pode se tornar um dos principais ativos das empresas de tecnologia. Quanto mais etapas da jornada passam por uma mesma plataforma, mais informações podem ser cruzadas.
No fim, a tecnologia começa a oferecer uma visão mais ampla do cliente, algo que interessa tanto à plataforma quanto ao próprio restaurante.
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O impacto das reservas de mesas
Há ainda um contexto que explica por que esse movimento ganhou força agora. Para Senra, o Brasil está reagindo a uma lógica que se consolida fora daqui.
"Esse movimento da DoorDash é porque culturalmente nos Estados Unidos tem uma coisa muito grande de reserva de mesa, eles têm esse hábito, não é como no Brasil, que as pessoas reservam pouco", explica.
Segundo ele, cartões de crédito americanos costumam oferecer acesso a reservas exclusivas em restaurantes concorridos, hábito que ajudou a consolidar a reserva como ferramenta de fidelidade.
Por que o iFood comprou a Get In? Porque ele quer entender o hábito de consumo. É 100% sobre dados.- Diego Senra
A diferença cultural apontada por Senra também mostra que a expansão desse modelo não deve acontecer da mesma forma em todos os mercados. Nos Estados Unidos, onde reservar uma mesa já faz parte do comportamento cotidiano, a tecnologia tem uma função mais estabelecida.
No Brasil, onde esse costume é menos difundido, ferramentas de gestão de fila e ocupação podem ter um peso maior. Isso muda a forma como a plataforma pode atuar, e quais dados consegue reunir e como eles podem ser utilizados.
Para Senra, o valor desse tipo de aquisição está em ampliar o que a plataforma consegue enxergar do consumidor. “Uma coisa é você ter uma análise do hábito de consumo através da sua plataforma no delivery. De repente você tem um novo canal, um novo rio de dados, com os hábitos dele fora de casa. Isso muda tudo”, diz.
A expressão “novo rio de dados” dá a dimensão de o que está em jogo. O consumidor que faz um pedido em casa e o consumidor que se senta em um restaurante não são duas pessoas diferentes; é o mesmo cliente em momentos diferentes de consumo.
É uma mudança de perspectiva: o foco deixa de estar exclusivamente no pedido ou na reserva e passa a estar no comportamento que existe entre uma ocasião de consumo e outra.
Nesse cenário, a fidelização aparece como o ponto de encontro entre dados, tecnologia e experiência. As plataformas e os estabelecimentos passam a ter ferramentas para entender o que faz esse cliente voltar. A reserva, o pedido, a frequência e o valor gasto são informações que podem orientar a construir ações mais direcionadas.
Para o restaurante, conhecer esse histórico significa ter mais condições de criar uma relação própria com o consumidor, enquanto, para as plataformas, acompanhar esse comportamento em diferentes ocasiões amplia o conhecimento sobre o cliente.
Já para os empreendedores, a chegada dessas plataformas ao salão também representa uma oportunidade. Isaac Paes reconhece que, para donos de negócios sem estrutura de marketing, o acesso a um público já formado é um atalho de valor:
"É uma demanda pronta, num ambiente onde o consumidor já está, resolvendo com um clique coisas que o restaurante não tem estrutura para resolver sozinho, como reserva, gestão de fila, vitrine. Para o dono que não tem time de marketing, ter alguém trazendo público em horário fraco é valioso”.
Os dois lados parecem concordar que o salão deixou de ser um território à parte do delivery. As plataformas chegam com escala e capacidade de leitura de dados. Os restaurantes, por sua vez, têm o que nenhuma plataforma reproduz: a experiência de quem se senta à mesa.
Para quem administra um bar ou restaurante, a mensagem que fica é que os dados, atualmente, são um ponto valioso do negócio. Diante das movimentações feitas pelas plataformas em direção ao salão, donos de negócios de alimentação precisam encontrar o equilíbrio junto com essas tecnologias.
Usá-las como ponto de partida e criar estratégias próprias de fidelização. Entender os hábitos dos consumidores e as tecnologias é a chave para atrair novos clientes e garantir que eles continuem voltando.
