Em busca de novas formas de ampliar a receita e fortalecer a presença da marca, o catering surge como uma estratégia cada vez mais relevante para bares e restaurantes. Essa frente pode funcionar como uma extensão da operação, capaz de levar a identidade do negócio para outros espaços, alcançar novos públicos e abrir oportunidades de crescimento.
Termo em inglês que significa fornecer e atender, o catering vai além de oferecer o serviço de alimentação fora do seu ambiente de origem. A estratégia diz respeito ao método de levar a marca do estabelecimento até o cliente, preservando qualidade e essência da casa. Foi com essa visão que a empreendedora proprietária do restaurante coreano Seok Joung, em São Paulo, Suzana Cho, implementou o método no seu negócio.
O que é catering na prática?
O catering envolve levar a operação para fora da unidade física, o que pode significar desde o envio de preparações até a montagem de uma estrutura completa no local do evento. Ele pode assumir uma dimensão mais ampla dentro da estratégia de bares e restaurantes.
No caso do Seok Joung, a lógica é justamente essa: recriar a experiência do restaurante em outro ambiente, com atenção à estrutura, ao serviço e à segurança dos alimentos. O desafio está em entregar os pratos e em fazer com que a marca continue reconhecível fora de seu espaço de origem.
Na prática, nós levamos o Seok Joung para dentro do evento. Montamos praticamente um restaurante no local, com equipamentos, estrutura de cozinha e todos os cuidados de segurança dos alimentosSuzana Cho.
Esse processo ganha ainda mais relevância quando a identidade gastronômica é um dos principais ativos da casa. No Seok Joung, a culinária tem uma relação direta com memória afetiva e herança cultural. A mãe de Cho é a chef do restaurante e imigrou da Coreia na década de 1960. Segundo a empresária, os sabores preservados pela cozinha remetem a uma comida carregada de lembrança, reconhecida pela comunidade como algo próximo ao “sabor do passado”.
“Um ponto muito importante é que nossa cozinha carrega uma memória afetiva forte. Minha mãe é a chef e imigrou da Coreia na década de 1960. A culinária dela preserva sabores daquela época. Muitas pessoas da comunidade coreana, tanto do Brasil quanto da Coreia, dizem que a comida lembra o ‘sabor do passado’, algo muito próximo da comida de avó. Então nosso desafio é manter exatamente esse sabor e essa identidade mesmo fora do restaurante”, conta.
Nesse sentido, o catering deixa de ser um deslocamento de produção e passa a representar um deslocamento de marca. Para operações autorais, preservar sabor, proposta e experiência é o que transforma essa frente em algo estratégico.
Ampliar faturamento e presença de marca
A possibilidade de criar uma nova fonte de receita é uma das razões que explicam o avanço do catering no setor. Ao abrir uma frente voltada para eventos, ativações e encontros corporativos ou sociais, o negócio passa a movimentar faturamento além do fluxo do salão e do delivery. Isso amplia o potencial comercial da operação e reduz a dependência de um único canal.
No entanto, o impacto da estratégia não se limita ao financeiro. Para Cho, o catering também ampliou as possibilidades criativas do negócio.
“Sim, o catering se tornou uma ótima fonte de receita para o negócio. Mas além do impacto financeiro, ele também traz muita criatividade para a operação. Cada evento permite explorar novas ideias de apresentação, decoração e formatos de serviço. Isso acaba ampliando as possibilidades da marca e criando experiências diferentes para os clientes”, afirma.
Esse aspecto ajuda a entender por que o catering pode ser lido como ferramenta de posicionamento. Ao circular por outros ambientes, o restaurante se apresenta, constrói percepção de marca e amplia seu alcance em contextos diferentes.
Uma estratégia para alcançar novos públicos
Outro efeito importante do catering está na capacidade de aproximar a marca de consumidores que ainda não conhecem a operação. No caso do Seok Joung, esse processo aconteceu de forma gradual. Inicialmente, os serviços eram voltados, sobretudo, à comunidade coreana e a clientes que buscavam sabores ligados à memória e ao pertencimento cultural.
“No início, nossos caterings eram principalmente para a comunidade coreana. Depois passamos a atender coreanos que vêm ao Brasil a trabalho e buscam um momento de conforto, algo que lembre a comida de casa”, diz a empresária.
Com o crescimento da cultura coreana no Brasil, a frente passou a dialogar também com novos públicos. O catering se inseriu nesse contexto como uma espécie de ponte entre a marca e consumidores que estavam entrando em contato com esses sabores pela primeira vez.
“A cultura coreana ganhou muita visibilidade e o interesse pela culinária também cresceu. Hoje fazemos catering para lançamentos de K-drama, eventos de apresentação de produtos coreanos, ações de empresas de marketing e até festas de aniversário com temática coreana. Isso acaba sendo uma forma muito interessante de apresentar a gastronomia coreana para pessoas que muitas vezes estão experimentando esses sabores pela primeira vez”, afirma.
Para bares e restaurantes, esse é um dos pontos centrais do catering: ele pode funcionar como porta de entrada para novos clientes. Em vez de esperar que o consumidor descubra a casa por localização, busca digital ou indicação, a marca passa a aparecer em experiências externas que geram contato direto e, muitas vezes, conexão imediata com a proposta do negócio.
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Como aplicar o catering no negócio
Transformar o catering em uma frente estruturada exige mais do que aceitar pedidos pontuais. O primeiro passo é entender o que, de fato, pode ser transportado da operação original para outro espaço sem comprometer qualidade, execução e experiência. Nem todo cardápio responde bem a esse deslocamento, e nem toda dinâmica de serviço funciona fora da casa.
Também é necessário pensar em estrutura. Equipamentos, equipe, transporte, montagem, armazenamento e protocolos de segurança dos alimentos precisam ser organizados com antecedência. Dependendo do tipo de evento, o restaurante praticamente monta uma unidade temporária, o que exige planejamento operacional e alinhamento fino entre cozinha, atendimento e logística.
Outro ponto decisivo está na preservação da identidade. Quanto mais autoral for a proposta do negócio, mais importante será garantir que o catering não pareça um serviço genérico. A experiência precisa continuar comunicando os valores, os sabores e a essência da marca.
No caso do Seok Joung, esse cuidado está diretamente ligado à herança culinária da casa e ao compromisso de manter os sabores que a diferenciam. É justamente essa coerência que faz com que o catering funcione não só como venda externa, mas como extensão verdadeira da operação.
Mais do que uma venda extra
A experiência do Seok Joung reforça a leitura de que o catering pode ir muito além de uma oportunidade pontual de faturamento.
“Na minha visão, o catering pode ir muito além de uma venda extra. Quando bem estruturado, ele se torna uma estratégia de crescimento e de posicionamento da marca. É uma forma de levar a identidade do restaurante para novos espaços, alcançar novos públicos e fortalecer a presença da marca no mercado. Para muitos restaurantes, pode ser inclusive uma porta de entrada para novos clientes”, conclui Cho.
No mercado de alimentação fora do lar, em que diferenciação e recorrência são fatores cada vez mais importantes, o catering surge como uma alternativa capaz de unir operação, faturamento e branding.
