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Música e gastronomia: uma combinação que pode aumentar as vendas

Modelos de negócios baseados em música e boas bebidas aumentam sua força na cena. Encontrado em diversas partes do mundo, estrutura de bar chega ao Brasil com nova roupagem. | Foto: Divulgação

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Os listening bars tem ganhado espaço no mercado brasileiro, explorando a escuta musical, a coquetelaria e a gastronomia como uma experiência completa, pontos base para sucesso desses negócios.

Yasmim Paulino 02/03/2026 | 16:46

Além de ser o berço de inúmeros artistas, movimentos culturais e ritmos que influenciaram o mundo, o Brasil está entre um dos maiores consumidores da música do mundo. Segundo a Abramus – Associação Brasileira de Música e Artes–, em 2024, o país ocupou 4º lugar em volume de streaming musical, além de se destacar pelo crescimento nas assinaturas premium e pelo alcance internacional.

Mas para além das fronteiras digitais do streaming, a experiência da escuta musical tem ganhado cada vez mais espaço como um modelo de negócio para bares e restaurantes. O Matiz Bar, em São Paulo, é um dos grandes exemplos de como desfrutar de uma paixão coletiva pela música pode se transformar em um negócio próspero.    

Inaugurado em 2023 pelos sócios Caio Maddalena, Lucas Góngora e Yuri Mendonça, o Matiz é um dos listening bars mais populares do Brasil. Os empresários focaram no potencial da escuta musical como catalisador de encontros.

"Existia uma oportunidade clara em São Paulo, que ainda tinha poucos espaços onde a música fosse o centro da experiência e não apenas um pano de fundo. Uma visão cultural que encontrou um formato de negócio possível, coerente e sustentável", destaca Mendonça.    

Música, comida e bebida: simples assim    

Além da música, a composição da estética do espaço, o cardápio, a curadoria musical e a programação da casa elevaram o Matiz para o ponto máximo de um bar: ser um espaço de encontro e identificação. Para alcançar esse patamar, o negócio foi totalmente desenhado para ter a música como elemento central, mas ainda explora a experiência completa que envolve desde a curadoria musical, gastronomia à coquetelaria do bar.  

Buscamos coerência estética, qualidade musical e contextoYuri Mendonça.

Para o sócio Yuri Mendonça, o casamento entre cada um dos elementos é o que fideliza o cliente do Matiz. "Buscamos coerência estética, qualidade musical e contexto. Isso constrói identidade. Identidade gera confiança. E confiança, com o tempo, impacta diretamente o faturamento. As pessoas voltam porque sabem o que vão encontrar, mesmo sem saber exatamente quem está tocando", explica.   

Noite de set do artista Ryan Elliot no Matiz, em São Paulo. | Foto: Tinko Czetwertynski.  

Ao lado do Matiz Bar, outros empresários têm apostado na experiência do modelo listening bar como o Starlane. O modelo e a estética desses bares e restaurantes nasceu no Japão e, antes de aterrissar no Brasil, circulou por outras cidades como Londres, cidade em que o projeto Starlane foi inaugurado.    

Os sócios brasileiros, Bruno e Leandro Cabral e Gustavo Pancini, começaram na capital da Inglaterra uma ideia que sempre teve a ambição de acontecer em solo brasileiro.   

Assim como o Matiz, os empresários encontraram diversidade e oportunidades em uma das maiores cidades da América Latina. Segundo Lisa Uhlendorff, sócia do Starlane, o cenário da capital foi determinante. 

"São Paulo também foi decisiva por si só. É uma cidade multicultural, intensa, diversa, com uma cena de coquetelaria e gastronomia extremamente sofisticada, ao mesmo tempo em que segue caótica, pulsante e divertida. Muito parecida com Londres nesse sentido", disse.    

O Starlane foi criado a partir de três pilares muito claros: música, pizza e coquetelaria, simples assim. Tão simples que essa é a frase que apresenta o bar aos clientes no perfil do Instagram: "drinks, music & pizza – simple as that". Para Lisa: "em ambos os casos, atraímos pessoas que se interessam por esses três universos ao mesmo tempo, independentemente de idade, profissão ou contexto social".   

O espaço físico do Starlane foi arquitetado para a melhor experiência sonora possível. | Foto: Divulgação  

A ideia parece simples, mas existe um trabalho cuidadoso em oferecer um tipo de experiência para cada momento do cliente, com diferentes momentos para a escuta musical sem perder a essência de um listening bar.   

"De terça a quinta, a música cria um ambiente mais contido e intimista. R&B, jazz, hip-hop, trip-hop, soul e funk constroem uma trilha sonora de escuta, não de pista. São dias pensados para comer com calma, conversar sem pressa e realmente ocupar o espaço como restaurante e bar. Já na sexta e no sábado, a lógica muda. A curadoria se volta para a música eletrônica underground e o espaço se transforma junto: o salão interno fica sem mesas e cadeiras, abrindo caminho para que a pista de dança aconteça de forma orgânica — e ela acontece, sempre", continua.   

Para Lisa, o resultado é visível no faturamento. "Esse desenho impacta diretamente o faturamento porque fala com públicos diferentes em momentos diferentes da semana", explica.  

Cada noite única, o que, sem dúvida, contribui para a geração de demanda para o Conselheiro, mas o que vende é o todoGuga Roselli.

Ainda em São Paulo, o conceito de listening bar ganha outras nuances. No Elevado Conselheiro, a aposta vai além da curadoria musical: o próprio formato de reprodução se torna protagonista. Guga Roselli, empresário e sócio proprietário do estabelecimento, destaca a estratégia de aposta na curadoria analógica. "Para tocar no Conselheiro precisa conhecer música de verdade, já que o sistema é todo analógico e na casa não entra pen drive".    

Há quem diga que optar pelo analógico é uma limitação, mas trata-se de um ótimo atrativo para os amantes de música em alta fidelidade. "Temos uma biblioteca de mais de 500 discos de vinil, também curada por nós e que pode ser usada pelos seletores. Cada noite única, o que, sem dúvida, contribui para a geração de demanda para o Conselheiro, mas o que vende é o todo", afirma Roselli.   

Frequência sonora não é detalhe   

A experiência dos listening bars reforça uma prática comum, mas pouco valorizada na maioria dos estabelecimentos: como a frequência sonora pode ser um motor de vendas. À medida que o espaço se torna mais confortável e coerente com a experiência gerada, mais o cliente fica e consome.    

Para muitos bares e restaurantes, a música desempenha um papel incerto. Entre shows ao vivo, playlists sem conexão ou o silêncio, qual o lugar da música no negócio?   

Muitas vezes, o volume do som não conversa com o momento e nem o espaço, o que pode desvalorizar a experiência do cliente. Para Roselli, esse é um ponto essencial para o cliente do Elevado Conselheiro.  

O cliente do Conselheiro quer coisas boas: comer bem, beber bem, curtir uma música bacana e com conforto acústicoGuga Roselli.
Já no Matiz, o argumento segue a mesma linha: "a música convida à permanência, à escuta e à conversa. Isso cria memória afetiva", destaca Mendonça.     

No caso dos listening bars, a curadoria ainda ocupa um lugar quase de branding musical, contribuindo para a construção de uma marca e, a partir disso, a identificação dos clientes.    

"Quando a experiência deixa de ser descartável, o cliente cria vínculo. O cliente não frequenta apenas um bar, ele passa a se sentir parte de algo. Essa relação é muito mais forte do que qualquer ação promocional pontual e é o que sustenta a recorrência do negócio", argumenta Mendonça.    

No dia 6 de dezembro de 2025, o Matiz completou dois anos e, para celebrar o aniversário, realizou um mini festival com apresentações de diferentes artistas como Criolo, Amaro Freitas e a banda Azymuth, no Arco do Viaduto do Chá.  

"O Matiz nunca foi pensado apenas como um bar. Ele sempre foi uma plataforma cultural. Transformar o aniversário em um mini festival é uma consequência natural dessa visão. É também um gesto simbólico: mostrar que cultura, escuta e experiência podem ocupar o centro", disse Mendonça.  

O evento reforça não apenas o sucesso das estratégias de fidelização, mas também a consolidação da música como eixo de um modelo de negócio rentável. Festivais como esse funcionam como ferramentas de fortalecimento de marca, ampliando o alcance dos listening bars para além de suas paredes e reafirmando o poder da escuta musical como catalisador de experiências e, claro, de vendas.  

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