A corrida por entregas cada vez mais rápidas se tornou um dos principais discursos na corrida do delivery. Nos aplicativos, o tempo estimado passou a ser decisivo na escolha do consumidor, influenciando diretamente quem recebe, ou perde, o pedido. Nesse cenário, as plataformas competem entre si em relação a quem entrega mais rápido, o que pressiona a operação de bares e restaurantes.
Mas, na prática, entregar mais rápido resolve todos os problemas? Ou a agilidade, quando mal planejada, pode comprometer a qualidade, a operação e até a sustentabilidade do negócio? A resposta, segundo operadores e plataformas, está longe de ser simples.
Velocidade não nasce da pressa
Para Keeta, plataforma de entrega da chinesa Meituan, a redução do tempo de entrega não está ligada apenas à distância entre restaurante e cliente. “Quando falamos em reduzir o tempo de entrega, não estamos falando apenas de quilometragem. O que realmente torna um pedido rápido hoje é a orquestração de toda a jornada”, afirma o vice-presidente de parcerias estratégicas da empresa, Danilo Mansano.
Segundo ele, a lógica envolve antecipação de demanda, posicionamento inteligente de entregadores, pareamento eficiente de pedidos e rotas ajustadas. “A velocidade vem da antecipação, da tomada de decisão em tempo real e não da pressa em uma única etapa”, resume.
Do lado do operador, a leitura é semelhante. Para Alexandre Domeque, proprietário da Trigo Pane Pizza, em São Paulo capital, não existe milagre. “Para ter um processo ágil, você precisa mapear cada etapa, ter ficha técnica, porcionamento e padronização. Não dá mais para improvisar”, afirma.
Delivery mais rápido sem perder qualidade
Tanto plataformas quanto restaurantes concordam em um ponto central: há um limite saudável para a velocidade.
Existe um limite quando a velocidade é buscada de forma isolada. Reduzir tempo não pode significar pressionar restaurantes e entregadores ou comprometer a experiência do consumidor Danilo Mansano.
Domeque vive esse limite diariamente. “Se você acelera sem estrutura, compromete o padrão do produto. No meu caso, entregar uma pizza não é como entregar um sanduíche, por exemplo. Dependendo do horário, do volume e do tipo de pedido, o tempo precisa ser ajustado”, explica.
Na prática, isso significa entender que nem todo negócio, e nem todo prato, pode competir pelo menor tempo de entrega.
Onde o tempo se perde
Um dos consensos entre Mansano e Domeque é que o atraso no delivery não tem endereço fixo. “O gargalo varia conforme horário, região, clima e perfil do restaurante”, afirma Mansano. Em alguns momentos, o problema está no preparo; em outros, na logística ou na integração entre as duas pontas.
Para Domeque, hoje o maior desafio está na entrega. “Não adianta eu fechar meu prato no tempo certo se não tem entregador disponível. Às vezes o produto está pronto, mas não consigo entregar”, relata.
A concorrência entre plataformas e a escassez de entregadores criam situações imprevisíveis. “Por isso, no jantar, eu optei por trabalhar com frota própria. É a forma que encontrei de ter controle sobre o tempo e a qualidade.”
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Delivery não é extensão do salão
Outro ponto-chave é a confusão entre salão e delivery dentro da mesma operação. “Quando você não tem uma estrutura dedicada, o delivery entra na mesma fila de produção do salão”, explica Domeque. “E a pressão é diferente.”
Segundo ele, operações mais maduras conseguem separar fluxos ou até trabalhar com cozinhas dedicadas, as dark kitchens. Quando isso não acontece, o tempo de preparo se alonga, mesmo que o aplicativo continue considerando o prazo padrão informado.
Mansano reforça: “O delivery exige uma lógica própria. Quando o restaurante tenta operar sem ajustes, os atrasos e as avaliações negativas aparecem rapidamente.”
Cardápio adaptado
A adaptação do cardápio surge como um dos fatores mais decisivos para ganhar tempo sem perder qualidade. Na Trigo Pane, nem tudo o que funciona no salão vai para o delivery.
Eu tenho pizzas mais elaboradas que simplesmente não funcionam na entregaAlexandre Domeque.
O exemplo da burrata é emblemático: “Se eu mandar a burrata sobre a pizza, ela solta líquido e estraga o produto. Então eu envio à parte. O mesmo vale para manjericão. Se vai abafado, murcha.” Para ele, adaptar o prato é essencial para manter o padrão.
Na visão da Keeta, priorizar itens mais estáveis e previsíveis é um ajuste simples com impacto direto no tempo e na experiência. “Revisar o cardápio para o delivery já gera ganhos relevantes sem grandes transformações na operação”, afirma Mansano.
Primeira compra é tempo, recompra é qualidade
A relação entre velocidade e fidelização também muda ao longo da jornada do cliente. “O tempo de entrega é decisivo na primeira compra”, afirma Domeque. “Se atrasar, ele não volta. Mas o que sustenta a recompra é a qualidade”, completa.
Mesmo assim, ele alerta: qualidade não justifica qualquer atraso. “Se o concorrente entrega em 20 minutos e você promete 40, o cliente escolhe pelo tempo.”
Previsibilidade é o novo rápido
No fim das contas, o consenso é claro: mais importante do que prometer o menor tempo possível é cumprir o prazo informado. “A entrega não é homogênea e nem deveria ser”, diz Mansano. “O fundamental é ser transparente e consistente dentro de cada contexto.”
Para bares e restaurantes, o caminho passa por decisões estratégicas: mapear processos, adaptar cardápio e tratar o delivery como um negócio com lógica própria. A velocidade, quando bem gerida, deixa de ser vilã e passa a ser aliada, como resultado de uma operação inteligente e sustentável.
A B&R entrou em contato com a assessoria das principais plataformas de delivery do país. Em resposta, o iFood optou por não se posicionar sobre o tema desta matéria.
