Para muitos donos de bares e restaurantes, abrir aos domingos é quase obrigatório. Enquanto a maioria das pessoas está de folga, bares e restaurantes seguem firmes, seja no salão ou delivery.
Mas manter a operação funcionando aos domingos pode também ser sinônimo de desafios e ter um alto custo. Negociar folgas, contratar mais pessoas e entender o comportamento do cliente são alguns fatores que impactam na decisão. Algumas vezes, a lista de vantagens perde para a lista de prejuízos.
Nesse cenário controverso, com desafios e oportunidades, abrir aos domingos ainda vale a pena?
Os dois lados da moeda
Em entrevista ao CW Cast, programa sobre Food Marketing, Felipe Vecchi, dono da rede de restaurantes Temakeria Universitária e mentor de delivery, destacou que desde a inauguração de seus restaurantes, nenhum deles abriu a operação aos domingos.
A fala do empresário despertou uma discussão nas redes sociais, já que o domingo tende a ser um dia de grande movimento no setor de bares e restaurantes. Para o empresário, o lucro de operar aos domingos não cobre os custos.
“Quando você começa a fazer essas contas e colocar no papel que para abrir aos domingos você precisa de uma equipe maior, rodar folga, pagar hora extra e, mesmo rodando folgas, talvez você precise um colaborador que não está no dia. Ao colocar tudo isso no papel, talvez esteja pagando para abrir”, pontua Vecchi.
Abrir aos domingos nem sempre funciona para todos os modelos de negócio de alimentação fora do lar, mas para alguns empresários o domingo ainda é um dia que se destaca entre os demais.
Para Danillo Ramos, dono do restaurante Piry, em Goiânia, o final de semana é definitivo para o caixa do negócio. Segundo ele, o “domingo é um dia que a casa consegue atingir o seu maior tíquete médio. Facilmente, em uma boa semana, o domingo fica com 20% do nosso faturamento”, detalha.
Ramos destaca que a procura por momentos de lazer e a predisposição do público a gastar mais com a experiência de descanso, especialmente famílias, são os principais atrativos.
Essa perspectiva não se resume apenas aos restaurantes tradicionais e com espaço para mesas maiores. Juliana Castro, proprietária do Belô Café, na capital mineira, compartilha uma experiência diferente.
“Por ser uma cafeteria, o domingo é um dia estratégico, pois o público busca experiências mais tranquilas, como café da manhã, brunch e encontros familiares ou entre amigos”, relata Castro.
Os empresários destacam o retorno positivo, mas não deixam de fora os desafios operacionais. Durante a fala de Vecchi, a justificativa passa pelo alto rodízio de funcionários e contratações.
Segundo Ramos, essa também é a sua maior dificuldade: encontrar mão de obra disponível aos domingos. Para tentar agregar maior valor às folgas e reter a equipe, o empresário constrói folgas duplas para os funcionários dentro da escala de trabalho.
Apesar dos desafios, na Belô Café, Castro defende que essa questão não compromete os ganhos.
“Existe um custo operacional maior, principalmente por conta das folgas compensatórias, porém esse impacto não compromete a margem de lucro. O faturamento do domingo é alto o suficiente para absorver esses custos e ainda gerar um resultado positivo”, argumenta.
O comportamento do consumidor
Além dos dilemas da gestão, existem ainda mudanças no comportamento de consumo no Brasil que tem refletido em transformações no consumo em bares e restaurantes. Para Pedro Henrique, conhecido como PH, consultor e professor, abrir o restaurante aos domingos depende também de fatores culturais.
“A primeira coisa que a gente tem que levar em consideração é o perfil e modelo de negócio que hoje nós temos na gastronomia mundial”, destaca o professor.
Segundo PH, os almoços fartos de domingo com a família, os encontros entre amigos no final de semana estão cada vez menos comuns no cotidiano e isso interfere na procura por restaurantes.
“O mundo está passando por uma transformação e a gente precisa entender de pessoas. Trazendo essa imagem para o nosso país, mais precisamente para Belo Horizonte, vemos que as casas que funcionam aos domingos são mais tradicionais, mais robustas, com uma gama de funcionários maior”, pontua.
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Contexto real de abrir aos domingos
Entre mudanças no comportamento do consumidor, desafios da gestão e custos operacionais, abrir o restaurante aos domingos ainda segue como uma opção válida e lucrativa para bares e restaurantes.
Apesar da fala polêmica de Vecchi, o depoimento de donos de bares e restaurantes reforça que a experiência ainda tem oferecido retorno financeiro que justifica a abertura.
Para PH, muitos empresários de casas mais tradicionais votam por abrir aos domingos, mas destaca um elemento importante que as diferencia.
“Tem algumas casas emblemáticas que vão te falar que domingo é muito satisfatório, mas essas casas elas vendem marca, vendem posicionamento”, explica enfatizando o poder da identidade de um restaurante.
Para os demais bares e restaurantes, PH reforça que a resposta é simples: é necessário fazer contas. "Há um tempo, os empresários aprenderam a fazer contas e na hora que eles entendem o domingo, muitos entendem que não vale mais a pena”, finaliza.
No final, a escolha por abrir ou não aos domingos se resume a uma análise profunda sobre o modelo de negócio e o que ele tem a oferecer ao público, que tem se mostrado cada vez mais exigente.
