Graças ao avanço sem precedentes na medicina, bem como ao desenvolvimento econômico mundial, a qualidade de vida aumentou, trazendo maior longevidade. Em 2024, a expectativa de vida do cidadão brasileiro atingiu a marca de 76 anos, segundo o IBGE; projeções da Organização das Nações Unidas (ONU 2024) indicam ainda que, até o ano de 2044, devido a um padrão de envelhecimento avançado na região, cerca de 40% da população brasileira será de pessoas com idade acima de 50 anos.
Ao contrário do que diz o senso comum, essa geração de pessoas mais velhas é bastante ativa, e vem representando uma movimentação importante na economia, principalmente em áreas como cultura, lazer, saúde e alimentação. Relatórios mais recentes, como o Data8 2025, já indicam que a economia prateada movimentou cerca de R$ 1,8 trilhão em 2024 e, em 20 anos, este consumo aumentará para R$ 3,8 trilhões.
Para o mercado de bares e restaurantes, cada vez mais concentrado em atender as demandas aceleradas da geração Z, esse aumento premeditado representa a chegada iminente de uma série de desafios de gestão para fugir do conflito geracional e abraçar os dois públicos: promovendo o hype para os jovens, mas também sendo convidativos para a clientela mais madura de tíquete mais elevado.
| Economia Prateada abrange todas as atividades econômicas, produtos e serviços voltados para as necessidades e desejos de pessoas com 50 anos ou mais. Impulsionada pelo aumento da longevidade, ela foca no potencial de consumo desse público em setores como saúde, lazer, turismo e tecnologia. |
O conflito de gerações
A chef, consultora e jornalista gastronômica, Ana Sandim, explica que "a gente precisa, antes de qualquer coisa, abandonar o estereótipo de que o público 50+ é careta, previsível. Estamos falando de gente que viajou, bebeu bons vinhos, ou não, mas que acompanhou modas nascerem, morrerem e ressuscitarem. São pessoas que continuam curiosas e, em sua maioria, possuem renda e opiniões bem formadas”.
Os hábitos de consumo e o gosto dos mais velhos é diferente dos mais novos, e por vezes, até antagônicos. Em sua maioria, a geração Z (gen z) tem preferência por experiências rápidas, digitalizadas, focadas no delivery e também ambientes que fiquem bem em fotos no feed das redes sociais. Por outro lado, o público 50+ tem preferência pelo conforto e qualidade em razão da velocidade e da aparência.
Porém, apesar de parecerem demandas inconciliáveis, não é impossível para o bom empresário fazer com que seu negócio não exclua nenhum dos públicos. A chave para superar esse desafio de gestão está em entender o comportamento da clientela e aplicar estratégias eficientes.
Zoneamento do salão
Para Sandim, uma das maiores diferenças geracionais não está no desejo dos clientes ou em algum item do cardápio:
“Todos querem experiências interessantes. A diferença é que uns querem experimentar rápido, e outros querem aproveitar melhor. Nenhum dos dois está errado, mas as casas precisam se atentar a isso, compreender melhor o perfil de cada público e buscar equilíbrio.”
Restaurantes inteligentes fazem dessa demanda um insumo para diversificar o próprio salão, criando microambientes que proporcionam experiências únicas. Assim, um bar clássico pode ter uma zona com mesas largas para receber aqueles que desejam um atendimento mais calmo e pretendem ficar na casa por mais tempo, consumindo mais e sustentando o tíquete médio, enquanto o balcão e algumas mesas de bistrô podem atender ao público mais rotativo durante os horários de pico.
É natural que cada negócio traz suas próprias particularidades e é preciso entendê-las antes de investir na criação de diferentes ambientes.
A ideia do zoneamento é pensar em cada área como um ativo, que funciona em seu próprio ritmo e contribui para o fluxo de caixa.
Em um ambiente você faz uma venda rápida, rotativa; no outro, um consumo mais calmo, porém com maior tíquete, e por aí vai. Tudo isso se materializa em elementos como a escolha dos assentos (mesas e cadeiras confortáveis vs banquetas); iluminação (clara, facilitando a leitura dos menus vs baixa e vibrante); acústica do ambiente (ambientes mais silenciosos vs música mais alta), etc.
E claro que o zoneamento também depende do espaço disponível, mas isso não pode impedir o gestor de pensar na sua área com estratégia, de modo a propor experiências claras para cada público.
Porém, importante dizer que não basta se preocupar apenas com o design e layout, sem considerar também sua operação. O salão de um bar e restaurante precisa atender às necessidades da sua equipe e ser um ambiente de trabalho funcional, de modo que não atrapalhe o serviço, a cozinha ou o bar.
Ainda na gestão do salão, é essencial capacitar sua equipe para lidar habilmente com os diferentes ritmos do público e evitar confusões, atrasos e desentendimentos. Ao gerir ambientes diferentes, a equipe precisa entender seu posicionamento e a operação particular de cada uma das áreas. E para ambientes menores, é estratégico investir em agilidade e organização de comendas para que não gere a impressão negativa de um serviço caótico.
Para isso, pode-se pensar em equipes diferentes para cada uma das áreas de serviço e investir sempre no treinamento do time para que o atendimento esteja nos mais elevados padrões.
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O cardápio como ponto de equilíbrio
O público mais jovem valoriza os menus curtos, drinks sem álcool e personalização na entrega. Eles não se incomodam tanto com cardápios digitais, totens eletrônicos e, se algo não sai como o planejado, tomam como parte da experiência. O perfil mais maduro prefere o que funciona: pratos clássicos, menus legíveis (e físicos) e tempo para aproveitar a experiência.
Sandim menciona um bar em Barbacena, na Região da Zona da Mata, chamado Velhicidade, que diz logo no nome qual é seu público alvo, mas tanto o cardápio quanto as atrações musicais dialogam com todas as idades.
“Conciliar é mais simples do que parece: cardápios com camadas (clássicos bem executados convivendo com propostas autorais), cartas de bebidas que não tratem o coquetel sem álcool como castigo e ambientes que mudam de energia conforme o horário. Diversidade de público não enfraquece identidade.”
Assim como o salão pode explorar diferentes ritmos de consumo, pense no cardápio como um portfólio de experiências:
- Entradas e porções que abranjam uma experiência mais rápida, mas que também sirva de entrada para o serviço;
- Pratos clássicos bem executados equilibrados com propostas autorais e especialidades da casa;
- Não subestimar a sobremesa, forte entre os mais velhos;
- Organizar uma carta de bebidas equilibrada, com espaço para bebidas autorais, clássicos bem feitos e opções sem álcool.
Também é importante investir na aparência do seu cardápio, já que ele é a ferramenta para sua receita. Invista em um design de fácil compreensão e faça sentido com a proposta do restaurante. E caso deseje investir em cardápios digitais, tenha sempre à mão versões físicas, já que não são todos que gostam da experiência virtual e isso pode afetar as vendas.
Lembre-se que diversificar não significa atirar para todos os lados e entupir o cardápio com opções. Já escrevemos aqui sobre as vantagens de um cardápio enxuto, que diversifica, mas não satura.
