O mercado brasileiro de delivery vive uma fase de transformação acelerada e disputa bilionária. Após anos de hegemonia do iFood, que ainda detém cerca de 80% do mercado, novas forças como Rappi, 99Food e a recém-chegada Keeta (Meituan) intensificam a concorrência com estratégias agressivas e investimentos robustos. Estima-se que o setor tenha movimentado mais de R$ 100 bilhões em 2025.
Hoje, os aplicativos processam cerca de 8 milhões de pedidos diários no Brasil, número que promete aumentar muito nos próximos cinco anos, impulsionado pela digitalização e pela busca por conveniência. A disputa envolve aportes bilionários, em uma corrida para conquistar consumidores, restaurantes e entregadores em um mercado que já responde em média por algo entre 20% e 25% do faturamento de bares e restaurantes.
Neste contexto, a 99Food retornou ao mercado brasileiro com uma estratégia explícita: fazer crescer a base de consumo de delivery, reduzir fricções de preço e elevar a eficiência operacional de restaurantes e entregadores, apoiando-se na escala da 99 (aplicativo de transportes) e em aprendizado internacional do grupo chinês DiDi.
Para o CEO da empresa no Brasil, Simeng Wang (em entrevista exclusiva à Revista B&R):
“o mercado brasileiro é grande e complexo, mas ainda tem baixa penetração do canal de delivery, o que abre espaço para uma plataforma que una preços mais justos e logística inteligente”.
O delivery no Brasil ainda não tem a penetração que poderia nas classes mais baixas da população, como acontece em outros países. O preço próximo ao do salão é importante, mas ampliar as categorias com lanches e bebidas também é estratégia para que o delivery fique acessível a uma parcela maior dos brasileiros, aumentando a frequência dos pedidos.
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Os números do delivery no Brasil
Segundo a empresa, os aplicativos de delivery processam cerca de 8 milhões de pedidos diários no Brasil, contra algo em torno de 100 milhões na China. Isso mostra que há condições para planos ambiciosos de expansão e densidade operacional no país. A ambição dialoga com o diagnóstico da pesquisa do Instituto Locomotiva/Abrasel, que indica que 91% dos consumidores veem o delivery como ajuda importante na rotina, mas 75% consideram “caro” o preço cobrado nos aplicativos e 74% percebem diferenças entre o valor do balcão e o valor no aplicativo.
Essa percepção desestimula a frequência de pedidos e pressiona as vendas dos estabelecimentos, que relatam reclamações e perda de negócios quando o preço no aplicativo supera o de salão. Há, portanto, uma demanda reprimida que tende a se liberar quando o preço se aproxima do praticado no balcão.
Para enfrentar esse nó, a 99Food colocou na mesa dois modelos de remuneração ao parceiro: comissão zero, condicionada a alinhamento de preço com o salão, e um modelo de taxa reduzida (8,9%), que preserva liberdade de precificação e separa comissão e logística. Simeng Wang reforça:
“Nossa prioridade é garantir que o dono do restaurante possa diminuir custos de entrega sem perder rentabilidade, diminuindo a diferença entre o valor do delivery e o preço do balcão.”
A empresa afirma que não cobra mensalidade dos restaurantes, nem aplica comissões ocultas ou acordos não consensuais. O foco é aumentar a rentabilidade dos parceiros a cada pedido, permitindo que o dono do restaurante diminua custos de entrega sem perder margem.
Por muitos anos, as cláusulas de exclusividade firmadas entre grandes redes e o iFood foram uma barreira praticamente intransponível para novos players no mercado de delivery. Essa prática limitava a concorrência e restringia a liberdade dos restaurantes de escolher plataformas alternativas.
Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, explica que a atuação da entidade para acabar com a exclusividade foi decisiva na mudança de cenário.
“A ação junto ao CADE teve sucesso, impondo restrições às exclusividades e abrindo espaço para que empresas como a 99Food pudessem competir em condições mais equilibradas. Essa mudança regulatória é considerada um marco para ampliar opções e reduzir práticas monopolistas no setor”.
Além disso, outro movimento importante no sentido de abrir o mercado foi a criação do Open Delivery, uma iniciativa liderada pela Abrasel que estabelece um padrão de comunicação aberto para integração entre restaurantes, aplicativos e sistemas de gestão.
Com essa padronização, novos entrantes conseguem se conectar de forma mais simples e rápida, sem depender de soluções proprietárias ou contratos restritivos. Isso reduz custos de integração, amplia a interoperabilidade e dá aos estabelecimentos maior liberdade para operar em múltiplas plataformas, favorecendo a concorrência e a inovação no setor de delivery. Deste modo, empresas como a 99Food e a Keeta conseguem se conectar de imediato com os principais softwares de vendas dos restaurantes, ampliando sua base de modo muito mais rápido.
