Quando falamos sobre alimentação fora do lar, bares e restaurantes são a primeira resposta. Mas, dentro desse universo, existe um grupo seleto de negócios que combina demanda, potencial de expansão e identidade cultural forte o suficiente para criar categorias próprias — os chamados "nichos fenomenais".
Hamburguerias e pizzarias são dois exemplos populares no Brasil. Em 2024, pedidos de hambúrguer cresceram 207% em relação ao ano anterior, segundo dados do iFood. No mesmo ano, a Associação Pizzarias Unidas do Brasil (Apubra) registrou a abertura de 3.867 novas unidades, crescimento de 9,52% em relação a 2023 — elevando o total de pizzarias ativas no país para mais de 36 mil.
Mas um novo produto começa a ganhar espaço nessa lista. O tradicional pastel tem se revelado símbolo de um nicho fenomenal em ascensão. Estratégico no mercado, ele alinha acessibilidade, valor e cultura.
O produto não está restrito às feiras livres, mas encontrou o seu espaço em cardápios de botequins, bares e restaurantes de diferentes perfis, além de despontar no mercado de delivery. No Brasil, a região Sudeste é a protagonista do nicho, com São Paulo como epicentro do mercado.
O pastel como uma força econômica
O pastel não é o produto mais “sedutor” do mercado. Por muito tempo associado ao pequeno comércio, não era visto como um negócio rentável e com potencial de expansão. No entanto, em escala global, o mercado de pastelaria — que inclui doces e salgados — deve crescer de US$ 64 bilhões em 2023 para US$ 71,8 bilhões em 2028, segundo projeção da Mordor Intelligence, plataforma de pesquisa de mercado.
O consultor de negócios de alimentação fora do lar e CEO da Lathor, Diego Senra, observa essa movimentação de expansão com interesse e curiosidade. “Existe um mercado enorme de pastel que, por si só, não é glamoroso. Não é uma tipologia charmosa como uma pizzaria ou um restaurante japonês. É bem popular, como o restaurante a quilo, digamos. Mas diferente do quilo, ele tem uma especificidade técnica muito clara: equipamentos e insumos muito específicos. É uma indústria relevante tanto em volume de vendas quanto em volume de insumos”, explica.
Quem entende bem da versatilidade do pastel é Danilo Agonilha, sócio-proprietário da Favorix, fábrica que produz massa para pastelaria.
“Nos dedicamos exclusivamente ao segmento de pastelaria. Com base no nosso know-how, somos a primeira empresa a trazer para o mercado uma linha de massa de pastel saborizada: tem massa de pastel sabor chocolate, queijo, pimenta, ervas finas. Hoje atendemos todo o Brasil enviando nosso produto, com foco principalmente nas pastelarias mais gourmetizadas, que têm uma proposta de pastel mais elaborado”, explica.
Além da versatilidade, o empresário destaca mais três fatores para essa evolução no mercado do pastel: novas ocasiões de consumo, a ampliação do delivery e a gourmetização.
O pastel além da feira livre
Segundo Agonilha, no início, para se consumir o pastel, o cliente precisava ir até a feira. “O pastel passou dos anos 2000, o que era uma proposta mais simples em uma ocasião de consumo na feira para uma situação mais elaborada”. Mas, isso foi se diversificando entre bares e restaurantes, agregando um certo status “menos comum” ao pastel. “Hoje encontramos a feira, mas ainda pastelarias que criaram esse conceito do pastel como um momento de lazer, com a proposta de um barzinho mais sofisticado”, continua.
Acho que o mercado pasteleiro está numa fase de evolução e amadurecendo o que não amadureceu em muitos anosFlávia Okabe. Com mais possibilidades de ocasião de consumo, as novas tecnologias do delivery caíram como uma luva para as pastelarias. “O delivery no pastel era muito infeliz porque a embalagem para transportar o produto era aquele saquinho pardo de pão. O papel chegava engordurado em uma sacolinha plástica. A experiência era muito ruim. Hoje o mercado possibilita uma pastelaria explorar coisas que não existiam no passado”, destaca Agonilha.
Agonilha ainda destaca o período de febre por produtos gourmet, versões mais artesanais ou com sabores especiais de diferentes produtos. “Por volta de 2010 a 2012, essa tendência gourmet fez com que o pastel se adaptasse. O básico que era oferecido nas feiras passou a ficar um pouco ‘pobre’. O pastel precisou se reestruturar, se reformular para atender também as expectativas do mercado”, explica.
Tradicionalmente erguido por negócios familiares, o mercado do pastel esteve, por muito tempo, isolado de outros nichos gastronômico. Flávia Okabe, empresária do segmento do pastel há 30 anos e a segunda geração de uma família de pasteleiros, observa um processo de transição no mercado da pastelaria.
Essa transição do pastel como um produto mais simples e restrito às feiras para uma força econômica no mercado de alimentação fora do lar é nítida no caso da família Erenito. Emigrante do nordeste do Brasil, Erenito Alves, começou o próprio negócio na década de 1990, ao lado da esposa.
Já em 2010, a pastelaria Erenito foi reconhecida como um dos 10 melhores pastéis da cidade e o melhor da Zona Leste, premiação realizada pela prefeitura de São Paulo, entre 900 candidatas. O pódio contribuiu como uma grande vitrine para o negócio. A partir desse momento, a marca Erenito inicia um processo de expansão.
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“Além da fabricação própria, tenho um centro de distribuição e uma central de vendas, onde consigo vender pastel e massas para o Brasil todo. Aqui na empresa fabricamos na média de 300 mil pastéis por mês”, conta Erenito Júnior, filho e sócio-proprietário do negócio da família.
De 15 pontos de feira, a rede encerrou o ano de 2025 com mais de 90 unidades, distribuídas em oito cidades de São Paulo.
“Hoje, eu e meu irmão estamos à frente da empresa. Somos os diretores: mais de 90 barracas de feira, 4 gastrobares, 8 cidades do estado de São Paulo atingidas com a marca Erenito”, explica o empresário.
Para Andrei Cavallini, dono da Pastelaria C&C, em São Paulo, o pastel reúne uma vantagem competitiva clara para quem quer empreender. "É um dos segmentos gastronômicos mais baratos para começar. No meu caso, eu comecei com um tacho esmaltado e um fogão de alta pressão", conta.
Cavallini avalia o mercado direto do seu cotidiano na cozinha e destaca: “É preciso saber gerenciar pessoas, processos e compras. Porém, o principal é trazer o cliente até você e fidelizá-lo".
O pastel está crescendo em relevância. Já era muito grande, mas é um grande que ninguém vêDiego Senra.
No comportamento do consumidor, o pasteleiro observa um equilíbrio entre o consumo presencial e o delivery, mas uma tendência clara de crescimento das entregas. "A facilidade de receber o produto em casa está se tornando um hábito cada vez maior", destaca. Na C&C, a maior concentração de pedidos, em ambos os canais, acontece a partir das 18 horas.
A experiência de Cavallini ilustra o potencial de crescimento do mercado pasteleiro, a baixa barreira de entrada, mas que ainda exige gestão, estudo e conexão. Com uma nova geração de empresários mais conectados, uma cadeia de produção mais robusta e um movimento coletivo apostando no crescimento do setor, o futuro desse mercado, ao que tudo indica, será escrito em conjunto.
