Fora do lar, dentro do negócio
Última edição

A potência do empreendedorismo feminino em periferias: a trajetória de Val Cabral

Além de empresária e chef, Val é Coordenadora do Núcleo em Favelas do Jardim Vitória, em Cuiabá, colocando em evidência sua liderança como representante do setor na periferia. | Foto: Arquivo Pessoal

Tempo de leitura 5

Especializada em coxinhas, a lanchonete Le Gateau se tornou uma inspiração sobre empreender na periferia unindo experiência, identificação e sustentabilidade.

Yasmim Paulino 11/03/2026 | 16:56

“Eu sempre falo que você atrai aquilo que você é ou aquilo que quer se tornar". É assim que a empresária, Valderez Cabral, conhecida por todos como Val, começou nossa conversa. A fala inspiradora veio quando falamos sobre sua participação ativa como liderança no Núcleo Jardim Vitória, da Abrasel, localizado em Cuiabá.   

Esse “chamado” ou “destino” a que Val se refere tem a ver com o seu engajamento pessoal na defesa do empreendedorismo em favelas. Chef e proprietária de uma lanchonete de salgados, a Le Gateau, Val acredita que ocupar esse lugar no mercado de bares e restaurantes é uma oportunidade de desconstruir o imaginário preconceituoso da maioria das pessoas em relação às favelas no Brasil.  

“Quando cheguei neste bairro, as pessoas falavam que era perigoso, que só tinha gente ruim. E a gente vê que não é nada disso”, diz.  

Seu trabalho como Coordenadora do Núcleo em Favelas da Abrasel é apenas o resultado da sua potente trajetória como chef, empresária e liderança na periferia. 

“Eu conto para as pessoas que ela (Lorena, ex-presidente da Abrasel MT) já me procurava havia dois anos. Não foi sorte: ela procurava alguém que se identificasse com o projeto”, revela.  

Para Val, bares e restaurantes podem ajudar a desconstruir o que ela chama de “muro imaginário” entre bairros elitizados e periferias das cidades. Como exemplo, ela compartilha sua experiência com a lanchonete. O carro-chefe da casa são as coxinhas, disponíveis em mais de 13 recheios. O sucesso é tanto que clientes de outros bairros, especialmente condomínios de luxo vizinhos, vão até lá para consumir. 

“A 800 metros daqui fica o condomínio mais luxuoso de Cuiabá, e esse pessoal vem até aqui buscar a coxinha da Le Gateau”, conta Val.  

Antes de acumular cargos, projetos e reconhecimento, Val não se identificava com a ideia de trabalhar na cozinha. Em vão, chegou até a tentar se afastar dessa vocação. 

O retorno à cozinha e o que ela ensinou 

Tudo começa em uma cozinha em Alagoas, sua terra natal, ao lado de uma mulher chamada Marina, conhecida por todos como Dinha. 

Avó materna de Val, Dinha era, nas palavras da neta, "a melhor cozinheira que eu conheci na vida". Muito antes de ter acesso a uma escola de gastronomia, sua avó já praticava o mise en place.  

“Uma mulher incrível, que já fazia um mise en place numa tábua de madeira, cortava tudo ‘separadinho’, com um paninho branco na cabeça. É uma memória muito boa para mim”, compartilha. 

Val cresceu ao lado dela, absorvendo cada gesto. Ainda assim, por muito tempo, a cozinha foi algo que ela quis manter distância. "Eu achava muito maçante, não era algo que eu queria", conta.  

Em busca de novas oportunidades de trabalho, Val se mudou para o Mato Grosso, onde o pai já trabalhava. Foi quando a primeira oportunidade de emprego apareceu: uma cozinha coletiva na Fazenda Itamaraty Norte, uma das maiores propriedades rurais do país, local de trabalho do pai.  

Val se dedicou à cozinha coletiva da fazenda por 11 ano e objetivo se tornou a graduação em Gastronomia. Em 2012, decidiu formalizar o que já sabia na prática, formando-se em 2015. A faculdade plantou uma semente em Val para além das técnicas: o desejo de empreender. "Eu tinha uma cultura de CLT", admite.,"mas depois da faculdade falei:  eu quero ser empreendedora." 

Sua trajetória como empresária teve início com a venda de bolos caseiros, que eram comercializados nos salões de beleza das amigas. Em 2016, abriu formalmente a empresa, que investiu também nos salgados. Foi na reconstrução pós-pandemia que a Le Gateau foi construindo criando uma identidade mais sólida, recuperando clientes e conquistando o público pelo paladar. Atualmente, o cardápio é amplo, são os diferentes sabores de coxinha que chamam atenção da clientela.  

Apesar de ser uma empresa enxuta, Val compartilha uma visão de negócios madura. A chef descobriu que empreender na periferia exige menos do que se imagina em termos de infraestrutura — e muito mais do que se imagina em termos de postura.  

"As pessoas com poder aquisitivo mais baixo consomem muito. Se tiver novidade e produto bom, elas não vão procurar o preço, vão procurar o valor", explica. Na Le Gateau, isso se traduz em detalhes que envolvem a experiência do cliente.

 Além da experiência, o serviço e os produtos da Le Gateau exploram a identificação do cliente com o seu território.  

“É esse nicho que eu enxerguei o serviço diferenciado. Se uma pessoa pede um café aqui na Le Gateau, ela toma numa xícara Schmidt e se sente valorizada. Ela não questiona o preço. Ela vem uma vez por semana, duas vezes por mês, mas passa aqui para tomar o café dela na xícara bonita, para ter um atendimento diferenciado, para tomar um refrigerante na taça”, diz Val.  

O resultado aparece nas avaliações online do Google e, mais do que isso, no fluxo de clientes que atravessam bairros para chegar até a Le Gateau. 

Sustentabilidade na favela  

A sua compreensão do território foi um ponto de partida importante para a criação do projeto Óleo Solidário, que incentivou a população do bairro a recolher óleo de cozinha usado para reciclagem. "O projeto tinha uma dimensão social e outra ambiental. Eu tenho a sustentabilidade entranhada em mim”, conta. 

Realizada em parceria com a Abrasel e o Sebrae, a campanha arrecadou 598 litros de óleo usado, por meio de uma rede de apoio que abraçou a ideia.  

“A ideia era coletar óleo de cozinha usado — inclusive da própria Le Gateau — e incentivar a comunidade a doar. Foi uma rede de apoio incrível: amigas, empresas da seccional, pessoas que conheci através da Abrasel. Uma moradora do condomínio aqui do lado, que não me conhecia, se tornou embaixadora do projeto e ajudou muito, explica.  

Com a verba que o projeto arrecadou, Val organizou um evento para celebrar o Dia das Crianças, mas não foi um evento comum, mas voltado para educação ambiental. “Precisamos cuidar do ambiente em que vivemos, especialmente pensando nas crianças”, ressalta. O evento contou com uma oficina de formação sobre práticas de sustentabilidade. A programação realizou uma gincana com perguntas e recebeu cerca de 60 participantes, entre crianças e adolescentes. 

“As crianças interagiram, participaram, e ao final responderam perguntas para ganhar brindes — mochilas, fones de ouvido, caixinhas de som. Sabe quantas erraram? Nenhuma. Nenhuma criança errou uma pergunta sequer”, compartilha a chef. 

A trajetória de Val é a prova de que empreender nas favelas do Brasil carrega um significado potente de transformação social. Mas, indo além, a chef e empresária reforça aspectos essenciais para o sucesso de um negócio, provando que na periferia existe inteligência de mercado.  

Para o futuro, Val deseja que “a Le Gateau não seja exceção, mas uma inspiração”. A chef, mais do que ninguém, sabe como pode ser desafiador empreender, mas exalta a superação dos desafios. 

tags

Assine gratuitamente nossa newsletter

E descubra os segredos dos melhores bares e restaurantes!

Ao enviar seus dados, você concorda com os Termos e Condições e Políticas de Privacidade do Portal B&R.

Relacionados