Belo Horizonte sempre teve alma de boteco — e alguns números confirmam isso. São 178 estabelecimentos para cada 100 mil moradores, segundo levantamento da Abrasel. Isso coloca a cidade oficialmente como a “capital dos bares”. Mais que estatística, é uma evidência do papel que os botequins desempenham na vida de BH — como ponto de encontro, espaço de memória e território afetivo.
Foi nesse contexto que a atriz, comunicadora e influencer carioca Valentina Bandeira, também conhecida como Valen, desembarcou na cidade para documentar sua experiência nos botequins de BH. A série homônima, publicada em seu canal no YouTube, percorreu três bares tradicionais — Bar do Toninho, Antônio e Marcão Bar, e Pérola do Atlântico — e revelou, com leveza, encontros, sabores e personagens que fazem parte do cotidiano mineiro.
O primeiro episódio já ultrapassa 98 mil visualizações e reúne comentários emocionados de moradores orgulhosos da cidade, além de trazer convidados que simbolizam o espírito boêmio da cidade.
Da cidade maravilhosa para a capital dos bares
Convidei Valen para falar sobre sua recente série. Saindo do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, para pousar na capital dos bares e botequins, a influenciadora vivenciou uma maratona. A empreitada foi na ginga do improviso, carisma e autenticidade, com ela conduzindo o espectador para dentro da experiência.
Quem já acompanha seu trabalho é familiarizado com a leveza em conduzir conversas. “A gente meio que abriu a câmera num botequim, comigo muito despretensiosamente, só sendo feliz, sabe?”, explicou.
Na nossa conversa, Valen revelou que a ideia original partiu de uma das figuras mais carismáticas do jornalismo gastronômico e, acima de tudo, um boêmio profissional: Daniel Costa, mais conhecido como Nenel, que a acompanhou nos bares.
Para quem não sabe – mas deveria saber – Nenel é fundador do Baixa Gastronomia, um perfil no Instagram fruto de um blog criado em 2009, que entra na intimidade do cotidiano dos bares e botequins de Belo Horizonte e tem como foco documentar a gastronomia característica de cada lugar.
E afinal, o que os bares com alma de BH têm?
A gastronomia mineira é famosa por sua base histórica e cultural, que se desenvolveu a partir da necessidade e da disponibilidade de ingredientes no interior do estado. Sua fama foi construída sobre três pilares principais: a herança de diferentes povos, a tradição rural e a produção artesanal de ingredientes.
Isso se reflete nos bares da capital, que ainda funcionam como espaços de preservação da memória de BH. A parte interna do Pérola do Atlântico (ou Bar do Quintino, como também é chamado), por exemplo, funciona há 70 anos como uma mercearia de secos e molhados, o que dá um ar de museu ao local.
Já o Bar do Antônio e do Marcão, palco do segundo episódio da série, começou como uma mercearia e padaria em 1986 e se transformou em um dos pontos centrais da vida do bairro Vera Cruz, com moradores sempre em busca de uma comida caseira para apreciar.
“Cada pessoa que entrava aqui pra beber uma pinga, eu falava que ia dobrar o joelho pra agradecer, porque ela estava nos ajudando a ganhar o pão de cada dia”, disse Marcão ao Projeto Bares com Alma. |
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E é nessa toada, meio que como uma crônica da relação dos bares com seus personagens, que mora o encanto descrito por Valen. “Gosto do conceito do botequim porque tem essa ideia de animar a cidade, de você ter uma vida plenamente feliz. O bar fala muito sobre território, espaço, essa intimidade com determinados bairros”, disse.
Pequenas alegrias do cotidiano
Se engana quem pensa que são apenas as mesas na calçada no Bar do Antônio e do Marcão ou as verduras, a parede de bebidas e os ovos de galinha caipira à venda por unidade no Pérola do Atlântico que moldam essa imagem icônica. Os clientes que vão aos mesmos lugares quase todos os dias para beber, comer ou até fazer uma pequena feira figuram como personagens ativos daquele universo particular que só o botequim sabe criar.
“São pessoas reais. As histórias dos bares com alma são das famílias com gente que você olha no olho e que conversa de verdade. Os botequins, acompanhados pela coisa da birita, da cerveja, lidam muito com os seres humanos tais quais eles são, né? As pessoas relaxam”, disse.
Essa estética parece nos conectar por meio da memória afetiva há um tempo mais analógico, em que a vida não corria tão depressa, as conversas eram menos aceleradas, o contato com as pessoas mais íntimo e o mundo menos artificial. Apesar de ser algo atrelado ao antigo, não há nada de ultrapassado ali porque sentimos falta dessa verdade.
De comida, o mineiro entende
"Agora eu entendi por que o mineiro é o povo mais cordial e carismático do mundo. Porque só vive com a barriga cheia de comida boa, entendeu?”, brincou Valen no início do vídeo sobre o Pérola, o segundo da série.
Na degustação da série, Valen passou pelo jiló empanado no parmesão, coalhada e quibe cru na estufa, e a salada de palmito do Quintino. Mas o que veio a despertar a curiosidade da apresentadora foram as comidas molhadas.
Fiquei impactada que em BH servem almôndegas. É uma coisa tão característica em Minas Gerais. Quase não vejo aqui no Riocontou Valen Bandeira
Para ela, faltou experimentar muita coisa, principalmente os doces e os lanches tradicionais que servem no Mercado Central.
“Não paramos para lanchar, sabe? Pão de queijo, bolo de milho e fubá, queijo com goiabada — tudo que representa tanto a comida caipira.”
BH é o Texas?
Um momento curioso da nossa conversa foi quando Valen pontuou um sentimento de sub-representação de Belo Horizonte em relação aos seus grandes vizinhos, Rio de Janeiro e São Paulo.
“É um prazer estar em BH. Sempre tive um público de Minas muito maneiro e que vejo que se sente pouco representado às vezes. A galera não fala tanto de BH. Do eixo Sudeste, fica uma coisa meio Rio de Janeiro e São Paulo, e aí eu sinto que sempre que a gente fala um pouco de Minas Gerais já é aquela comoção, tá ligado?”
Digo curioso porque existe uma frase popular com um conceito que nasceu a partir desse mesmo sentimento. “BH é o Texas” se popularizou em meados de 2010 e segue viva até hoje nos muros de grafites e pichações, além do vocabulário dos moradores da capital e região. A comparação não reside em nenhuma analogia política ao estado norte-americano. A frase, na verdade, é o refrão da música criada pelo MC Papo, artista referência do reggaeton e funk de Minas Gerais.
Expliquei à Valen que a música foi lançada em 2016, quando vários artistas, especialmente do Texas, nos Estados Unidos, começaram a ganhar popularidade. Mas que, ao mesmo tempo, o estado não recebia a mesma atenção como Nova York e Los Angeles, por exemplo. E, no nosso caso, a capital mineira está ali, entre dois grandes polos, mas ainda com dificuldades de projetar esse potencial cultural.
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Memória afetiva permeia ligação com MG
A relação de Minas Gerais e o carinho com a boa mesa não é de ontem e se desmembra em várias pessoas. A mãe já foi dona de buffet durante a infância, e um pedaço da família se instalou em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira.
“Sou muito fã dos mineiros e eu fui desenvolvendo isso aos poucos. Tenho memórias minhas da minha avó que gostava muito de ir para Tiradentes, e eu tenho familiares em Juiz de Fora. [...] Minha equipe inteira é de mineiro, então eu tenho uma relação com Minas Gerais. Me apaixonei por um mineiro, uma época que destruiu meu coração, mas eu continuei apaixonada por Minas Gerais. (risos)”, contou.
Quando perguntei o que mais cativou a visitante nessa passagem por Minas, ela não pensou duas vezes. “A coisa do receber bem. Eu acho que mineiro não mede esforços para fazer você se sentir muito à vontade, e eu acho que isso é a coisa mais linda do mundo.”
Pegando carona no paralelo com os norte-americanos, Valen criou a própria comparação entre os dois "países": EUA e Minas Gerais. “A gente estava nos Estados Unidos agora e você é rechaçado em qualquer lugar, tá ligado? Minas Gerais é o contrário! É tipo assim: vem que você vai entrar na minha casa, você pode dormir aqui no sofá se você quiser, aí você vai acordar com o pão de queijo recheado para você ficar feliz”, finalizou brincando.
Como se inspirar nos bares com alma mineiros?
A série oferece aos profissionais do setor uma leitura estratégica sobre o valor da autenticidade como ativo de marca. Ao documentar experiências reais, personagens locais e práticas gastronômicas enraizadas no território, Valen e Nenel mostram como bares podem se posicionar não apenas como pontos de consumo, mas como espaços de cultura e memória.
O que está em jogo aqui é uma forma de branding territorial que fortalece vínculos com a comunidade, amplia o alcance digital e diferencia o negócio num mercado saturado.
Para quem empreende em regiões com forte identidade local, como Belo Horizonte, esse modelo é aplicável — desde que haja curadoria, escuta ativa e disposição para transformar o cotidiano em conteúdo. Em tempos de concorrência acirrada e algoritmos que premiam relevância, contar boas histórias não é um luxo: é uma estratégia de sobrevivência.