Quando o apito inicial soar no dia 13 de junho, um sábado, às 19 horas de Brasília, o Brasil vai parar para assistir à estreia da Seleção contra Marrocos no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Para os donos de bares e restaurantes, esse momento representa muito mais do que futebol: é a abertura de uma temporada de consumo, encontros e, se bem jogada, fidelização.
A Copa do Mundo Fifa de 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, promete movimentar o setor de alimentação fora do lar de uma forma que raramente se repete. Mas capturar essa oportunidade exige preparação e começa muito antes do primeiro jogo.
Os dados dão a dimensão do potencial para o maior evento esportivo do mundo. Uma pesquisa da MindMiners, realizada em março de 2026, com mil respondentes de todo o Brasil, aponta que 83% dos brasileiros pretendem acompanhar a Copa, e 22% declararam que vão assistir aos jogos em bares, restaurantes ou locais públicos. Entre a classe A, esse número sobe para quase 37%.
O levantamento também revela que 57% das pessoas preferem ver os jogos em casa com amigos ou familiares e é exatamente aí que a lógica do bar precisa se encaixar: oferecer o que o sofá de casa não consegue.
A experiência que a sala de estar não entrega
Para Percival Maricato, advogado, especialista em bares e restaurantes e referência nacional no setor, a festa é o diferencial. "A festa, a sociabilidade, a decoração, a comemoração coletiva e as opções em bebidas e petiscos são os atrativos que os bares oferecem", destaca.
Segundo ele, cada estabelecimento que quiser atrair o torcedor precisa programar com antecedência as ofertas, as atrações, a decoração e a música. A experiência temática, nesse contexto, não é detalhe, ela é o argumento central para que o cliente saia de casa e queira estar no estabelecimento.
Esse entendimento se conecta diretamente ao que o público tem interesse em buscar. Ainda segundo a pesquisa da MindMiners, a Copa representa entretenimento para 69% dos entrevistados, festa e diversão para 39% e uma oportunidade de estar com os amigos para 32%. Apenas 13% declararam que o torneio é pouco importante para eles. Assim os dados mostram que o torcedor brasileiro vai ao bar não apenas para ver o jogo, ela vai para viver a experiência em companhia.
Alexandre Simões, sócio proprietário do Bar Monumental em Belo Horizonte, já pensa na Copa como um evento de experiência completa. O bar, decorado como um minimuseu do futebol, com selos históricos, camisas raras e jogos de botão dos anos 1960, está preparando um cardápio temático que pode incluir pratos com nomes dos países participantes e comidas típicas de diferentes nações.
A nossa ideia é dar à pessoa a chance de almoçar vendo o jogoAlexandre SimõesA proposta não para por aí: o bar pretende fechar uma parceria com uma banca histórica da região para vender figurinhas da Copa aos sábados dentro do estabelecimento, criando um ritual de encontro que une gerações.
O calendário favorece quem planeja
Os jogos da fase de grupos do Brasil ocorrerão em horários que favorecem bares e restaurantes:
- 1° Jogo (Estreia): Brasil x Marrocos - Sábado, 19h (13/06)
- 2° Jogo: Brasil x Haiti - Sexta-feira, 21h30 (19/06)
- 3° Jogo: Brasil x Escócia - Quarta-feira, 19h (24/06)
São horários nobres, que sobrepõem o jantar ao jogo e criam uma janela de consumo longa. O desafio para os operadores é manter o cliente engajado e consumindo durante toda essa janela.
Maricato alerta que a cobrança de entrada pode ser um caminho para garantir um resultado mínimo por cliente, desde que não configure venda casada.
Para quem prefere não adotar essa estratégia, a saída está em promoções bem executadas. "É preciso trabalhar bem as promoções como, por exemplo, ter um garçom passando com bandeja de chope ou empadinhas, para conseguir um maior consumo", orienta o especialista. O modelo clássico de "ganhe um chope a cada gol" tem apelo emocional, mas pode comprimir margens. Promoções direcionadas a públicos específicos, com itens de maior valor agregado, são uma alternativa mais sustentável.
A pesquisa da MindMiners mostra que 47% dos brasileiros são atraídos por promoções e descontos, mas 39% valorizam criatividade das marcas e campanhas divertidas. Isso significa que o bar não precisa necessariamente “abrir mão” de margem para conquistar o cliente, ele precisa criar momentos memoráveis. Sorteios durante os intervalos, quizzes de futebol, personalizações no cardápio e decoração imersiva são formas de gerar engajamento sem espremer o resultado.
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Transmissão: a guerra dos sinais
A Copa de 2026 consolida uma mudança que já vinha acontecendo: a fragmentação das transmissões. TV Globo, SBT, CazéTV no YouTube, SporTV, ESPN e Amazon Prime Video dividirão os direitos de exibição. Para o operador de bar, isso cria tanto uma oportunidade quanto um desafio técnico.
Simões explica que o Bar Monumental desenvolveu uma lógica para organizar as transmissões por jogo. "A nossa primeira opção é sempre a TV aberta, porque é a mais rápida e não tem delay. Depois, vamos para a TV por assinatura — SporTV, ESPN, Premiere ou Paramount —, que já tem um atraso um pouco maior. Em seguida, recorremos aos aplicativos, como o Prime Video, que costuma ter jogos exclusivos, e o YouTube", detalha.
O bar investiu em infraestrutura de rede cabeada para suportar streaming sem oscilações, e possui TVs distribuídas em diferentes setores, o que permite transmitir até três partidas simultaneamente.
A regra de ouro é sempre colocar a melhor imagem, o melhor som e o sinal que chega mais rápidoAlexandre SimõesA pesquisa da MindMiners confirma que a TV aberta ainda reina: 77% dos brasileiros pretendem acompanhar a Copa por esse meio, e 53% a elegem como canal preferido. Mas o YouTube já aparece como segunda opção para 50%, e a CazéTV se consolida como referência para a Geração Z, com 49% dos jovens declarando que vão assistir por ela. Isso significa que o bar precisa estar preparado para alternar sinais e, em especial, garantir boa qualidade de imagem nas transmissões digitais.
Equipe e operação
O aumento de demanda nos dias de jogo do Brasil é previsível e ainda assim pega muitos estabelecimentos desprevenidos. Maricato é direto: "O estabelecimento tem que contratar extras, profissionais intermitentes ou terceirizados. Isso deve ser feito com cuidado, clareza e segurança e, evidentemente, é preciso treiná-los." Antes disso, a preparação começa pela transmissão: posicionar as TVs em locais onde todos os clientes possam ver sem esforço é o mínimo indispensável.
Simões também tem uma dica que vai contra o senso comum: ele recomenda não trabalhar com reservas nos dias de jogos. "É muito interessante você trabalhar sem reserva. Abrir a casa por ordem de chegada, porque isso ajuda na organização, na satisfação e, de certa forma, até no caixa. Porque as pessoas precisam chegar mais cedo para poder terem o lugar delas garantido", explica.
Na visão dele, a reserva gera frustração, quem chega e vê mesa vazia sem poder sentar-se, pode sair insatisfeito. Já o modelo por ordem de chegada cria um incentivo natural para o cliente aparecer antes do apito inicial, o que alonga o tempo de permanência e aumenta o consumo.
Da Copa para o cliente fiel
Eis aí a grande oportunidade: trazer o cliente para ver os jogos e, então, torná-lo um cliente fiel Percival Maricato.Maricato defende que a Copa é uma janela de ouro para captação de clientes. Para isso, recomenda que os estabelecimentos coletem o contato dos frequentadores durante os dias de jogo (WhatsApp ou e-mail) e mantenham comunicação com promoções após o torneio.
A Copa de 2026 é uma janela sazonal em que o Brasil (e o mundo) para, come, se diverte, bebe e celebra junto. Bares e restaurantes que entenderem isso, e se prepararem com antecedência, vão não apenas agradar o cliente no momento do jogo, mas aumentar as chances de que eles retornem em outros momentos.

